segunda-feira, agosto 04, 2008

O diário de Lot - O mentiroso


Olá novamente, sou eu, o Lot. Da última vez em que nos encontramos eu falei sobre meu encontro com Maria. Bem, Logo após ter conhecido Maria e sua trágica história, passei a viver de modo diferente. Engraçado que eu não tinha decidido isso. Apenas decidi acreditar naquela mensagem e, naturalmente, me surpreendi pensando e agindo de modo diferente. E a cada experiência que eu tinha, como no caso de Maria, o meu novo modo de viver era fortalecido.

A minha mãe percebia isso. Aquele sorriso que ela deu quando eu levei Maria para casa nunca mais desapareceu do cotidiano dela. Eu nunca a vira tão feliz. E isso me deixava feliz.

Algun dias se passaram desde que eu tinha levado Maria de volta para casa. Caminhando pela rua (eu passei a gostar muito de fazer isso desde aquele dia), encontrei um jovem que devia ter mais ou menos a minha idade rindo. Era uma risada estranha, um tanto quanto nervosa. Eu iria continuar andando, mas eu não pude deixar de perguntar (chamarei o jovem de João):

L: Está tudo bem?

João parou repentinamente de rir e foi andando rapidamente, como se fugindo de mim.

L: Desculpe! Eu só queria saber se estava tudo bem! Eu não vou fazer nada com você (eu me arrependeria mais tarde, mas me senti extremamente poderoso naquele momento, mesmo sendo um jovem não muito forte).

"Ele não está fugindo de você" (voltei à realidade nesse momento) - uma senhora disse atrás de mim. Era a mãe de João, que chamarei de Ana.

L: Ele está bem?
A: Ele está...como sempre está.
L: Como assim?
A: Você é amigo dele?
L: Não, na verdade eu só estava passando na rua, quando o vi rindo e...bom, desculpe a intromissão. Eu vou indo.
A: Não! Quer dizer, por favor fique. O meu filho...ele se chama João. Sempre foi um garoto exemplar. Desde que o pai dele faleceu ele não para de mentir. Antes ele até se arrependia, mas agora parece até que está acreditando nas suas próprias mentiras. Eu já o levei a psicólogos, médicos...eles sempre dizem que é trauma da perda do pai, que logo vai passar, mas eu já estou cansada de esperar.
L: Sinto muito pelo seu marido. Foi há quanto tempo?
A: Tem dois anos. E nós...nós éramos divorciados. Eu me separei dele por causa das mentiras dele. Ele morreu num acidente de carro. O João tinha perguntado se ele ia viajar de carro, e ele disse que ia de avião. O João não gostava que ele dirigisse porque ele corria muito, parecia um adolescente quando pega a estrada pela primeira vez depois de tirar a carteira. Daí um caminhão desgovernado atingiu o carro dele. Ele não teve nem chance.
L: Eu...sinto muito por tudo isso.
A: Está tudo bem. Você quer entrar e esperar o João chegar?
L: É...eu...
A: Entre, está frio aqui fora.
L: Tudo bem, com licença.

João e Ana viviam em uma casa bem próxima à minha. Os tempos modernos não permitem que a gente conheça nem nossos próprios vizinhos. Na verdade, eu já os tinha visto algumas vezes na rua, mas eram vizinhos novos, eu não os conhecia.

A: O João estava rindo porque eu descobri uma de suas últimas mentiras. Ficou nervoso e disse que se eu dispensei o pai dele por falta de confiança, então ele também não queria minha presença. Acho que ele nunca superou nosso divórcio.
L: Deve ser difícil para você...e pra ele também.
A: É...um pouco.

João entrou em casa. Olhou para mim, para a mãe preparando-me um chocolate quente, e entrou para o seu quarto. Não demorou muito e me perguntou:
J: Você é o Lot, que mora a algumas quadras daqui?
L: Sou sim.
J: Podemos conversar...às sós?
L: Claro.

Depois que eu levei Maria para minha casa, eu fiquei relativamente famoso no bairro. Não sei como, mas a história se espalhou. Obviamente, cada um tinha sua versão.

J: É verdade que você engravidou a prostituta e então descobriu que a família dela morava aqui e a levou de volta para casa?
L: Bem, na verdade não fui eu quem a engravidou, mas sim, a levei de volta para a casa dos pais.
J: Ah...as pessoas espalham muitas mentiras.
L: É.
J: Minha mãe deve ter falado com você que eu tinha contado uma mentira, que meu pai era mentiroso,e que eu tinha ficado igual ele depois que ele morreu.
L: Hmm...ela está preocupada com você. Mas o que aconteceu?
J: Eu fui demitido do meu emprego porque meu patrão roubava o dinheiro da empresa.
L: Você foi demitido porque ele roubava?
J: Porque falei isso com ele.
L: Ah...mas como você sabe disso?
J: Eu vi. A minha mãe não acredita em mim porque...porque há algum tempo que eu não tenho falado muito a verdade.
L: E porque você não fala a verdade?
J: Eu não sei. Começou com "estou estudando", só para não lavar a louça, e foi aumentando de forma incontrolável. Agora parece que só sei mentir.
L: Ouvi dizer que quem causa problemas à sua família herdará somente vento...e também que a mentira tem perna curta.

João ficou em silêncio por um tempo e depois respondeu.

J: Apesar de óbvio, fazia tempo que eu não pensava nisso.
L: Acho que você precisa falar a verdade. Para o seu bem e de sua família.
J: Não é tão fácil. Virou uma espécie de vício.
L: Eu sei que não é. Mas você tem que começar, tem que dar o primeiro passo.
J: Eu sei...eu amo muito minha mãe. E o meu pai causou muitos problemas com as mentiras dele.
L: Você sente a falta dele não é?
J: Muita. Ele não podia ter mentido pra mim. Ele devia ter viajado de avião.
L: Mas ele não foi. Olha, o final da sua história são suas escolhas que vão definir.
J: É, mas a história do emprego é verdade.
L: A verdade então logo virá à tona.
J: É, acho que devo desculpas para minha mãe...e acho que ou começar a dar uns passos. Ei...
L: Lot.
J: Isso, Lot. Só mais uma coisa. O que você sabe sobre a verdade?
L: Eu conheci uma que me libertou.
J: Boa resposta. Pode me falar sobre ela um dia desses?
L: Claro.

Depois de tomar o meu chocolate quente, me despedi de João e Ana e fui embora. Voltei lá outras vezes, e numa dessas vezes falei com os dois sobre a verdade que me libertara. Ela os libertou também. E João deu o primeiro, o segundo, o terceiro passo, até parar de mentir de vez.

Mais tarde descobriu-se que o ex-chefe de João tinha mesmo roubado o dinheiro da empresa, e como João havia denunciado o fato, foi recontratado pela empresa, num cargo superior ao que tinha antes.

Quanto a mim, ganhei um novo amigo. E cheguei à conclusão de que devia me preocupar mais com meus vizinhos. Outro dia emprestei meu videogame para um garoto do prédio ao lado da minha casa.

3 comentários:

holy-freak disse...

boa historia amiga...Aki eu acho a ideia do blog do Lot uma boa ideia...mas acho q vc nem animaria fazer um...tambem por falta de tempo neh ^^.
Só uma coisa, fiquei curioso com uma frase do Lot.Qdo ele fala q se arrependeria de uma atitude mais tarde..isso é pra outra história, ou você simplesmente esqueceu msm de contar algo sobre uheauheaheuh

Bjo

Dani Nogueira disse...

Não...ele disse que se arrependeria mais tarde...logo mais tarde...qdo ele se sentiu poderoso...pelo orgulho egoísta que ele sentiu na hora...foi essa a explicação q o Lot me deu...

Vou amadurecer a idéia do blog do Lot e depois te conto^^

Bjo

Nivton Campos disse...

Puxa, Dani... tá muito legal!

Parabéns pela criação. Tomara que vc continue escrevendo.

Bjão!

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