segunda-feira, julho 14, 2008

O diário de Lot

O começo - Parte II

No dia seguinte, quando Maria e Tiago acordaram, eu levei o café-da-manhã para eles. Maria olhava para mim como se eu fosse um ET, mas estava muito contente. E para mim era isso que importava.

Levei Tiago ao meu quarto e o deixei brincando com o meu videogame. O mesmo que eu nunca deixei ninguém mexer. Ele nunca tinha visto um videogame antes, mas logo aprendeu a jogar e se divertia bastante. Então fui ao meu quarto, onde Maria passara a noite com Tiago (eu tinha dormido na sala), e ela me perguntou:

M: Porque?
L: Porque o que?
M: O que você quer em troca?
L: Em troca de que?
M: Ora, dessa bondade que você está tendo comigo e com meu filho.
L: Eu não quero nada em troca.
M: Isso é impossível. Ninguém faz nada de graça.
L: Eu não quero nada em troca. Só achei que vocês precisassem de ajuda.
M: É, nós precisamos, mas...é estranho. Não é comum. Eu não perguntei antes, qual o seu nome?
L: Lot.
M: Diferente.
L: É, um pouco. Está precisando de mais alguma coisa?
M: Não, quer dizer, sei lá. Não te conheço, mas confio em você. Posso desabafar mais um pouco? Contar porque eu fui parar nas esquinas?
L: Claro.

Maria me contou sua história. Foi uma longa conversa. Resumindo um pouco a história, ao contrário de muitas prostitutas, Maria nunca teve uma vida difícil, nunca foi abusada sexualmente por ninguém, tinha uma vida perfeita. Ela havia sido uma adolescente mimada a vida inteira. Tinha tudo o que queria, concluiu o ensino médio numa das melhores escolas da cidade. Quando fez 18 anos, resolveu fugir, sem motivo aparente, para “conhecer o mundo lá fora e curtir a vida”. Ela viajou para uma cidade distante e curtiu sua juventude com bebidas, festas, rapazes, e tudo o mais que ela achava inusitado e divertido. Pelo que ficou sabendo mais tarde, seus pais colocaram a polícia para procurá-la por um longo tempo, até a própria polícia dar o caso como sem solução, e encerrar as buscas. Seus pais então bloquearam todos os seus cartões de crédito e cancelaram sua conta no banco, o que a faliu completamente. Voltando à cidade, tentou pedir dinheiro na rua, até que um rapaz fez a “brilhante” sugestão de que ela poderia ganhar muito mais dinheiro como prostituta. E foi aí que ela começou a vender seu corpo pelas esquinas. Com o dinheiro que ganhava, conseguiu comprar um barracão num aglomerado relativamente próximo ao seu local de trabalho.

Quando ouvi a história fiquei alguns segundos olhando para ela, imaginando cada momento da vida daquela jovem apenas alguns anos mais velha que eu (ela tinha 25 anos, e eu 22). Perguntei para ela:

L: Porque você não voltou para a casa de seus pais?
M: Eles não me aceitariam de volta nem como empregada se eu contasse o que tinha acontecido.
L: Aposto que eles mandariam comprar roupas novas para você e dariam uma festa pelo seu retorno (sorri, me lembrando de algo que eu havia lido antes, mas que só agora fazia sentido para mim).
M: Pode até ser, eu só sei que agora não posso mais trabalhar nisso. Cansei. Mas não posso morrer de fome e deixar meu filho faminto também. Preciso arrumar um emprego para criar meu filho.
L: Você não quer mesmo voltar para casa?
M: Eu não tenho coragem.
L: Se você quiser, eu posso ir com você.
M: Você faria isso?
L: É claro.
M: E como é que eu chego lá com um filho de quatro anos?
L: Acho que não vai ser fácil nem para você nem para eles, mas eles só querem você de volta.
M: Você nem os conhece, como sabe disso?
L: Eu não sei como, eu só sei.

Maria ainda passou alguns dias conosco, tomando coragem para voltar para a casa dos pais. Quando decidiu que iria, fomos verificar se os pais dela ainda moravam na mesma casa. Eles haviam se mudado, mas conseguimos achar o novo endereço.

Sete anos depois de abandonar seus pais, Maria vestiu sua melhor roupa, arrumou o pequeno Tiago, e então saímos. Maria estava nervosa, mas não pensava em desistir.

Batemos à porta da elegante casa dos parentes de Maria, que agora serão chamados Souza. Um garoto de 11 anos atendeu a porta. Maria começou a chorar. Era seu pequeno irmão, que tinha a idade de Tiago quando ela saiu de casa. O garoto não a reconheceu, mas foi chamar a mãe. A senhora Souza, quando viu a filha, começou a chorar junto com ela e, ao ver Tiago, pela semelhança, não duvidou que era seu neto. Ele estava no meu colo, então ela achou que eu era o namorado maluco que ela havia achado pelo caminho.

Entramos. Após longos abraços, choros e soluços, a família Souza sentou-se no sofá, Maria foi reapresentada ao irmão e em seguida contou tudo o que havia acontecido e porque resolvera voltar.

M: Eu não sei quem esse rapaz é, seu nome é Lot. Eu só sei que é meu salvador.

Eu aproveitei e expliquei que não era nenhum salvador, era um cara comum que havia sido contagiado por amor e por vontade de fazer o que é certo. E que esse amor e essa justiça só poderiam vir de um lugar, que em outra oportunidade explicarei melhor. A família Souza chorou e aceitou a mensagem que eu havia falado. Apesar do trauma que ficaria por muitos anos, era uma família transformada.

Eu fui para casa e deixei a família Souza rindo e conversando, depois que o senhor Souza anunciou que faria uma festa pelo retorno da filha. Aquele conceito de justiça que eu havia conhecido e apresentado a eles agora era parte de suas vidas.

Voltei andando vagarosamente para casa, pensando no que havia acontecido. De onde eu tinha conseguido tanta coragem? Como um simples gesto meu mudou a história não só de uma pessoa, mas de uma família inteira?

Eu viria a compreender essas coisas mais tarde, por meio de mais experiências. Eu resolvi que daquele dia em diante, iria espalhar a mensagem que recebi. E ia emprestar mais o meu videogame.

2 comentários:

holy-freak disse...

Isso Dani mto bem, faz a gente chorar lendo seu blog mesmo...viu ^^

Mto bom o texto amiga, gostei mto =]

Espero mais agora :D

Bjos

Dani Nogueira disse...

Hehehe...segunda que vem tem mais^^

Veja mais em

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