segunda-feira, julho 07, 2008

O diário de Lot

O começo - Parte I



" Pois, vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se artomentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia".


Olá, meu nome é Lot. Sou uma pessoa comum, assim como você. Um jovem com sonhos, anseios, medos e tristezas. Porém, há algum tempo, ouvi falar de um conceito de justiça que mudou meu modo de agir e pensar.

O primeiro capítulo desse diário (se é que posso cahamar assim) começa numa esquina. Eu havia sido impactado por aquela mensagem a que me referi antes,e estava caminhando de volta para casa, quando vi uma moça chorando. Pela pouca roupa, suspeitei ser uma prostituta. Ainda que temeroso no início (seria o primeiro passo para mudar minha história inteira), fui conversar com ela.

Assustada, a moça, que a partir de agora chamarei de Maria, limpou as lágrimas, disse que era 30R$, e já ia se colocando de pé, quando eu a interrompi dizendo que podia permanecer sentada. Perguntei se poderia conversar com ela. Naquele momento ela olhou-me estranhamente, como se tivesse ouvido algo totalmente inédito, pelo menos vindo de um suposto cliente. Um pouco hesitante ela assentiu com a cabeça.

Então eu perguntei (a partir de agora, quando eu utilizar diálogos, M significa Maria e L significa Lot):

L: Porque você está chorando?
M: Porque você quer saber? Eu já disse que o programa é 30R$.
L: Calma! Eu só quero saber se posso ajudar com alguma coisa.
M: Ajudar? AJUDAR? (acho que nesse momento as colegas de Maria olharam muito bravas para mim, fiquei pensando se tinha sido a melhor escolha, sentar ali com Maria). Como você poderia me ajudar? Toda noite eu bato ponto aqui. Já atendi homens casados, com filhos, jovens que terminaram o namoro - ou não - solteiros, bêbados, drogados. Esses dois últimos nem tanto, e quando vem, costumam sair me devendo, eu evito atender esse tipo de gente (nesse momento as colegas de Maria - ainda bem - não pensavam em me bater mais, e cada uma tinha ido, ahn, digamos, trabalhar). Numa dessas, um pai de família, um empresário muito bem de vida, que sempre que brigava vinha me procurar, me engravidou.

Ela se calou e olhou para mim com os olhos cheios d'água. Eu estava assustado. Primeiro, era tarde e logo minha mãe poderia me ligar. O que eu diria? "Não mamãe, pode ficar tranquila que eu já estou chegando, estou sentado numa esquina, conversando com uma prostituta". E, segundo, eu estava sentado numa esquina conversando com uma prostituta. Eu nunca tinha feito isso antes. Mas eu senti que deveria falar algo, então arrisquei:

L: Ele assumiu o filho?

Bom, claro que dava para perceber que eu era novo no negócio. Perguntar para uma prostituta se um empresário rico havia assumido um filho feito num programa de 30R$? Eu esperava um "não" bem seco, ou um tapa pela ironia da pergunta, ou qualquer outra coisa, mas a resposta dela me surpreendeu:

M: Foi como se eu trabalhasse numa empresa de construção ilegal e quebrasse a perna no serviço. No contrato imaginário estaria escrito que quem paga pelos acidentes de trabalho é o próprio trabalhador, ainda que sem condições de trabalhar para arcar com isso. Foi isso, um acidente de trabalho. Só que agora eu tinha que continuar trabalhando para sustentar a mim e mais alguém.

Dessa vez, fui eu que emudeci. Acidente de trabalho numa empresa ilegal? Não sei se pela explicação dela, mas senti como se eu estivesse na pele dela naquele momento. Eu segurei as lágrimas dentro dos olhos e perguntei:

L: É por isso que está chorando?
M: Não, eu continuei trabalhando até o moleque nascer. Ganhava até mais dinheiro. Tem cliente que gosta de mulher grávida, daí paga mais. Durante o dia eu fico com o menino, e durante à noite ele dorme no barraco sozinho enquanto eu venho trabalhar. É assim desde que ele era bebê. Eu cubro ele, tranco bem o barraco, deixava a chave com a vizinha quando ele era mais novo, agora deixo com ele mesmo. Ele já tá com quatro anos.

Engoli seco ("Já" tá com quatro anos!) e continuei:

L: Então o que foi?
M: Eu engravidei de novo e - ai que frio!
L: Pega minha blusa.
M: Não, não precisa.
L: Por favor, eu insisto.
M: Tá bom. Então, eu engravidei de novo, de um drogado. Ele me pagou bem, por isso aceitei. Drogado e bêbado só se for dinheiro na hora, e muito dinheiro Quando ele ficou sabendo que eu tinha engravidado ele me ameaçou, e ameaçou meu filho. Eu resolvi tirar.
L: Tirar?
M: É, tirar o menino, abortar. Eu resolvi tirar, eu já tava de cinco meses quando ele descobriu. Eu quase morri, mas estou aqui trabalhando de novo. Mas eu não...

Maria começou a chorar novamente. Eu não sabia o que dizer, então a abracei. Ela chorou mais ainda - o que me levou a pensar que eu tivesse feito algo errado - mas logo ela se acalmou e continuou:

M: ... eu não consigo esquecer que eu tirei uma vida. Eu matei alguém. E ia ser meu filho. E o drogado ainda ameaça meu menino e eu. Falou com o chefe que eu tenho que parar de trabalhar aqui, senão ele mata o menino. Eu vou embora, mas vou morrer de fome. Eu e o menino.
L: Mas...ahn...porque você veio hoje?
M: Isso foi hoje, foi agora. Foi agora que aquele drogado veio aqui me ameaçar.

Olhamos um para o outro e fomos correndo para o morro onde Maria vivia com o filho. Queríamos saber se ele estava bem. A essa altura do campeonato, se minha mãe ligasse eu nem me importaria mais em dizer que estava no morro, resolvendo o problema de uma prostituta. "Eu te explico quando chegar", eu diria. O importante era saber como estava o filho de Maria, que ficará conhecido como Tiago.

Chegando lá o pequeno Tiago estava muito bem. Aliás, quase bem, porque ele se assustou em ver a mãe assustada, e comigo do lado. Ela pegou o menino no colo e me disse:

M: Olha, eu nem te conheço, nem sei seu nome, mas se você me ajudar a sair daqui eu te passo o dinheiro da semana inteira.
L: Vamos, você vai comigo. Mas não quero que me pague nada. Você precisa desse dinheiro.

Maria pensou em deixar um bilhete para a vizinha, mas, dadas às circunstâncias, achou que era mais seguro para todos apenas ir embora.

Ao chegar em casa, eu abri a porta e minha mãe me esperava na sala. Ela não teve tempo de me xingar, pois logo em seguida entrou Maria. Peguei um pijama da minha mãe, entreguei para Maria e falei para ela tomar um banho, e dar um banho no pequeno Tiago também. Ela estava muito constrangida, mas estava muito cansada também. Logo após o banho ela e Tiago adormeceram.

Expliquei (tremendo de medo) tudo para minha mãe, inclusive do que tinha acontecido antes de me encontrar com Maria. Ela pegou minhas mãos, olhou nos meus olhos e disse: "Eu te amo! Você deve estar cansado, vá dormir". E foi o que eu fiz.

Continua...

3 comentários:

holy-freak disse...

Ta, quero o proximo ta mto bom ^^

To curioso agora ..ainda bem q vc resolveu publicar e sair do sedentarismo uheahueauuea

bjos amiga

Dani Nogueira disse...

Hehehehe. O diário de Lot é uma longa saga amigo. Vou publica-lo uma vez por semana.
Morra de curiosidade. Huauauhuahuahua. Tá bom, parei de ser má. Entre os capítulos do diário eu vou publicar textos normais.
Ah, amanhã sai o texto que te falei.
Bjos^^

carol santana disse...

aiii qnta emoção!!!

tá ficando muito bom!

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