quarta-feira, dezembro 25, 2013

Aquele sonho impossível - Carreira


Sábado, 14 de Dezembro de 2013

Dormi achando que estivesse sonhando e acordei confirmando que o sonho estava acontecendo de verdade. Tomamos café em casa, um cereal quente com iogurte, muito gostoso, que a Janet fez. Não consegui terminar meu prato. O Philip é o lavador oficial de vasilhas, lavou todos os dias em que eu estava lá (e não só porque eu estava lá).

- Já decidimos se raposas comem aveia?
- Não sei, pode deixar aqui que a gente decide mais tarde.

Minha vasilha com o cereal ficou lá pela metade. Eu detesto desperdiçar comida, mas realmente não conseguia terminar.

Philip tinha um almoço de ex-alunos da Wheaton College naquele dia, daí iríamos com ele e depois à uma peça de teatro. Passamos a manhã conversando, maior parte do tempo Janet e eu, já que Philip precisava se arrumar para o almoço. Saímos inclusive para uma caminhada pela vizinhança.

Que pessoa incrível a Janet é. Eu já era fascinada por ela pelo que o Philip escrevia, mas ela era uma personagem, agora eu estava conhecendo a pessoa. Por mais fascinada que estivesse em conhecer o Philip, pelos e-mails que a gente trocava há anos eu me sentia mais íntima dele. Eu tinha começado a trocar e-mails com ela recentemente, depois do Wild Goose Festival, mas foi nesse fim de semana que a conheci de verdade. E nem precisa ser casado com ela pra querer escrever sobre ela. O casal Yancey é realmente fascinante.

Ela me mostrou as montanhas famosas que eles haviam escalado, onde ficava a casa antiga que eles moravam, me fez perguntas, mostrou o local onde uma alce fêmea morreu e não foi comida pelos pássaros ou por nenhum animal, só ficou lá até se decompor por completo. Eram só os ossos, mas a neve cobriu.

Mostrou um barril e me explicou que a areia que tinha dentro era pra ser jogada na estradazinha, pra criar atrito pros carros e principalmente caminhões de entrega poderem trafegar com mais segurança.

Explicou que as crianças do Colorado têm aulas ao ar livre onde aprendem a diferença entre os pinheiros. E me mostrou como diferenciá-los.

Foi uma manhã maravilhosa ao lado dela. Chegando em casa ela contou ao Philip sobre o alce que foi coberto pela neve.

Antes de irmos ao almoço paramos numa montanha, Red Rock ou algo do tipo, onde uma arena foi sede de vários shows de bandas super famosas ao longo do tempo.

Chegamos ao local do evento, onde tinha aquelas etiquetinhas com nomes. Daí Philip reviu alguns amigos e eu fui apresentada a eles.

- Essa é a Dani, nossa amiga do Brasil.
Sou amiga dos Yanceys, tra la la la la
- Muito prazer, blalwfjwu?
- Oi?
- Ela vai ser escritora, foi assim que a gente se conheceu.
Eu imagino que devo estar da cor dos enfeites de natal agora.
- E o que você está escrevendo?
Eu estou falando mesmo sobre meu livro??
- No momento estou trabalhando em um livro sobre a graça, como eu consigo vê-la em diferentes aspectos das nossas vidas.

Philip olhava pra mim com um olhar de pai orgulhoso enquanto eu falava.

No almoço conhecemos Julie, uma senhora de meia idade que morou com o marido no Japão por mais de 20 anos. Ela venceu o câncer duas vezes e estava em tratamento de novo. Ela tinha um sotaque meio oriental para falar, apesar de ser mesmo americana. Os dois eram super simpáticos, conversei "profissionalmente" com o marido e ele me fez várias perguntas sobre o Brasil, ficou bastante interessado. Com ela conversei menos, mas a simplicidade e a alegria de viver eram impressionantes, ela radiava gratidão. Eu sou simplesmente apaixonada por histórias de câncer, é inevitável.

Na nossa mesa também tinham duas meninas, irmãs. Uma foi pra Wheaton, a outra era a convidada da irmã. Elas passaram o almoço todo conversando com o Philip, elas bobas igualzinho a mim conversando com ele e ele conversando com elas super simpático como sempre.

E tinha mais uma moça, Thereza Linn com seu filho, que estava fazendo mestrado em Ópera em alguma faculdade famosa que eu esqueci o nome. Além de um outro rapaz, casado e que estava desempregado. Thereza conhecia o Philip, ele me contou no fim do dia no carro de onde se conheceram. Na mesa deram indicações de locais pro jovem conseguir emprego.

Não me lembro de ter conhecido mais ninguém no almoço, a não ser um dos palestrantes, esse a qual fui apresentada como amiga-dos-Yancey-que-veio-do-Brasil-e-vai-ser-escritora, mas desconfio seriamente que sentei na mesa mais legal.

O almoço era sanduíche natural com salada e de sobremesa uns bolinhos típicos americanos.

Fomos para a peça de teatro, que produção incrível! Das criancinhas ao velhinho que fazia o Mr Scrooge, todos excelentes atores, e a produção em si era impecável, efeitos maravilhosos, trilha sonora perfeita, evento cultural para ninguém botar defeito. Leitura de Isaías 9:6 por um menininho em determinado momento da peça.

Sentado atrás da gente estava o casal que morou no Japão. No almoço Janet tinha comentado sobre o que tinha gostado de lá, e é claro que eu ficava maravilhada. Eu "esquecia" que estava na casa de um casal que já viajou pra boa parte do mundo. Em determinado momento do dia, falando sobre viagens com a Janet, ela percebeu meu brilho nos olhos e disse que eu deveria viajar o mundo inteiro um dia, e ainda afirmou que quem sabe um dia eu não faria isso? Eu era escritora, afinal de contas.

A Julie é uma pessoa incrível que eu queria ter tido mais tempo de conversar. Ela me desejou feliz natal e boa estadia nos EUA até eu voltar pra casa, não por formalidade, porque dava pra notar a sinceridade dela ao realmente me desejar toda felicidade no mundo. Eu realmente queria ter tido mais tempo de conversar com ela, pessoa realmente incrível.

Saímos da peça de teatro e fomos dar uma volta à pé por Denver. Primeira parada foi num mercado de rua, especial pro natal. Comemos castanhas cozidas na hora, procuramos pelo enfeite da irmã da Janet. A Janet descascou umas castanhas, me deu e ofereceu ao Philip.

- Não, obrigado.
- Não está com fome?
- Eu prefiro descascar minhas castanhas, me faz sentir mais útil.
Ego masculino e sua necessidade de auto-afirmação, presente nos melhores homens, hahaha.

Fomos tirar foto num urso gigante que espia um prédio de vidro, ponto turístico pra fotos famoso por lá. O Philip tirou a foto.

Depois de andar pela cidade fomos jantar num restaurante brasileiro chamado Cafe Brazil. Os donos eram Colombianos. A música era hispânica. O menu era brasileiro - atração principal Feijoada e caipirinha. Pedi uma feijoada de frango, Janet também. Philip pediu feijoada completa. Eu pedi um suco de manga pra acompanhar, que estava uma delícia. Antes da feijoada servem uma "sopa" de iogurte de mamão com cebola e sei lá mais o que, para acalmar o estômago pra feijoada. Era extremamente picante, não terminei nem a primeira colher. Os dois amaram a comida, mas não pediram sobremesa, Philip queria a torta de noz-pecã que aguardava em casa.

- Ele adora sobremesa!
- É verdade.
Ponto em comum \o/

Chegando em casa ele comeu a torta, mas eu não aguentava comer mais nada. Ele falou: "tem dias que certa coisa não sai da sua cabeça, sabe?", e comeu a torta na maior felicidade do mundo, mas dizendo que estava sendo mal-educado na frente da visita, por comer quando eu não estava comendo. Eu disse que não tinha problema. Conversamos mais, falamos mais sobre o meu futuro como escritora, minha vida e planos no Brasil, foi um tempo muito bom.

Ele me contou da Thereza (do almoço). Ele deu uma palestra há alguns anos falando sobre amar nossos inimigos. Mostrou uma foto da Al-Kaeda falando, "esses são nossos inimigos". O marido dela estava na plateia e decidiu criar um site com fotos de terroristas chamado "adote um terrorista para oração (https://atfp.org/)". Você vai lá e adota um terrorista para oração. Li sobre isso em um de seus livros e me dei conta que conversei com mais uma das personagens de seus livros.

Philip olhou meu Facebook, cada postagem. Publicou um comentário em uma das minhas fotos agradecendo por eu estar lá.

Eu tenho um comentário do Philip Yancey no meu Facebook!

- Obrigado por me ensinar a mexer nisso, vou acompanhar seu Facebook para saber como você está.

!!!!!!!!!!!!

- E você já traduziu em público, Dani?
- Ahn?
- Se eu fosse te visitar e falasse em algum lugar, você me traduziria?
=O
- Ah, não, nunca traduzi em público, só as conversas da minha host mother e minha mãe.
- Elas conversam?
- Aham, e eu fico traduzindo os dois lados.
- Ah, sei, ela fala: "ela é muito irresponsável", você traduz: "ela é extremamente responsável". Ela fala: "ela é péssima com as crianças", você diz: "ela é ótima com as crianças", por aí, né?
- hahahahahahaha, não, eu traduzo direitinho, mas ela gosta de mim, hahaha.

Depois de muita conversa fomos dormir, o último dia estava chegando. Engraçado como o tempo parecia estar passando muito rápido e parecia estar durando pra sempre, ao mesmo tempo.

Domingo, 15 de dezembro de 2013

Então, o último dia tinha chegado. No dia anterior Philip tinha comentado que não passaria o dia inteiro com a gente e Janet falou pra eu arrumar minhas coisas porque da igreja a gente não voltaria mais pra casa.

Portanto, acordei muito cedo, e fiquei só curtindo o quarto e relembrando cada segundo, tentando absorver o sonho que era realidade. Olhei pela janela e vi as lindas montanhas do Colorado. Pensei no quanto seria legal morar por lá.

Conversei com uns amigos no Facebook, troquei de roupa, arrumei as malas e o quarto. Desci e era o Philip que estava lá. Poderiam ser mil dias que acho que ainda achar super legal acordar e ver o Philip tomando café no sofá da sala dele.

Nesse último dia Philip fez o café da manhã, omelete com queijo e presunto. Já estou quase acostumada com a cultura americana de comer esse tipo de coisa de manhã, então comi feliz. Na verdade, estava com fome pela primeira vez desde que cheguei. A altitude atrapalhou meu estômago um pouco. Depois disso a Janet descascou uma manga pra eu comer, comi mais da metade.

Depois do café eles foram se arrumar para sair. Philip voltou primeiro e eu tomei coragem e pedi pra ele assinar os livros que eu trouxe na bagagem. Coloquei um nome a mais porque calculei mal, ele foi no escritório buscar mais um e assinou. Eu não queria incomodar, mas ele achou super legal o que eu fiz. Pediu pra eu não guardar os livros pra mostrar pra Janet o tanto de livro que eu tinha trazido para ele assinar.

Antes disso ele já tinha me dado o livro dele de lançamento "The question that never goes away", que vai lançar aqui só em Janeiro, mas já foi lançado na Inglaterra (essa edição era com inglês britânico, portanto, ou seja, a perfeição - livro do Philip em inglês britânico). E um outro pra levar pra minha host mother em agradecimento por ter me deixado ir pra casa deles.

Eu comprei uns presentes pra eles que não chegaram a tempo de eu levar pra lá. mas escrevi uns cartões.

- Own, você é uma escritora, Dani, uma escritora bilíngue!

Ele comentou mais um pouco da casa que eles tinham que ficava literalmente no meio das montanhas.

- A vida é cheia de perdas e ganhos, Dani. Perdemos a montanha, mas ganhamos esse riacho. Você perdeu o contato diário com sua família e noivo, mas está aqui vivendo coisas incríveis.

Como Philip não passaria o dia todo com a gente, fomos em carros separados. Janet em um carro, Philip e eu em outro. Cavalheiro como ele tinha se mostrado todos os dias, abriu a porta do carro pra mim e a gente foi pra igreja conversando no carro.

O meu mentor pra vida estava de fato me dando dicas pra tudo, e estávamos conversando coisas nada a ver também, como dois amigos fariam. Conversamos sobre minhas características de introspecção.

O culto foi super bacana. Lá estava eu na igreja, cantando e ouvindo a pregação, ao lado dos Yanceys. Acho que o fato de eu ter vivido essas coisas cotidianas foi uma das coisas mais incríveis dessa viagem. As conversas profissionais durante o sábado foram realmente incríveis, mas o cotidiano de alguém(ns) que eu tanto admiro foi algo que eu realmente fiquei maravilhada em poder viver.

Após o culto, Philip se despediu. Ele ia sair da cidade e ir pras montanhas pra apressar a escrita do seu novo livro, ele quer terminar esse mês ainda. Eu imaginei que a despedida ia ser muito diferente, mas eu me despedi com a sensação de que estava me despedindo de um amigo que eu logo veria de novo, mesmo não tendo ideia de quando vou ter a chance de vê-lo novamente.

Janet e eu voltamos pro carro, onde fomos conversando a caminho do shopping onde iríamos almoçar.

- O fato é, Dani, que Deus fez você nascer brasileira por um motivo. Pode ser que você não more lá para sempre, mas Ele te quer lá por enquanto. E você vai fazer história onde estiver.

Não estava falando mal do Brasil, acreditem, ela soltou isso meio que do nada mesmo.

Almocei uma fatia de pizza no shopping. Ela comprou um pacote de pipoca doce e fomos pro carro, em direção ao aeroporto. Na despedida dela tive a mesma sensação que tive ao me despedir do Philip.

No avião a ficha começou a cair de tudo que eu tinha vivido. Sabe quando você faz atividade física por um longo período e só percebe o cansaço quando para? Foi mais ou menos assim que vivi esses dias, vivendo em mundo paralelo dentro do mundo paralelo que já é estar vivendo aqui nos EUA.

Eu falei no primeiro post e repito, Deus quer que sonhemos. Na verdade, tudo o que vivi e que registrei com muito menos palavras que seriam suficientes para descrever tudo, é muito, muito mais do que eu jamais ousei sonhar. A graça de Deus não é só surpreendente, ela é impagável. Ela não é de graça apenas porque Deus é bonzinho, mas porque mesmo que quiséssemos pagar por ela, nunca teríamos condições. E ela não existe apenas na salvação (o que já seria muito mais que suficiente), mas em cada passo e momento de nossas vidas, a cada vez que respiramos.

É sobre essa graça ilógica, inexplicável, irresistível e surpreendente, o tema do livro que estou escrevendo. A primeira metade veio para o papel graças ao meu primeiro encontro com o Philip, a segunda está por vir, ainda mais inspirada.

Eu sempre serei eternamente grata a Deus pela oportunidade de colocar o Philip e a Janet na minha vida, desde os meus 13 anos, quando li o seu primeiro livro, até agora, como amiga deles. Deus é incrível e seu amor é extraordinário.

Um comentário:

PRATIC VIDA disse...

Nossa. Que bênção! Só de ler seu post fui abençoada. Que bacana Dani! Deus abençoe na concretização do seu livro!

Veja mais em

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