segunda-feira, janeiro 12, 2009

O diário de Lot - os esquecidos (Parte 2)

PARTE 2


"Todo trabalho árduo traz proveito, mas o só falar leva a pobreza"


Conversando com Vitor, percebi que toda aquela família me chamava a atenção. Como já estava ficando tarde, fui embora para casa.

No dia seguinte, o pequeno Pedro veio falar comigo na lanchonete. Naquele dia, esperei ele chegar, para poder ele mesmo escolher o lanche que queria.

P: Posso comprar o que eu quiser?
L: Claro! Pode escolher.
P: Mas tem que ser do mesmo preço do que você compra né?
L: Não, pode escolher o que você quiser.

Os olhos dele brilharam, de uma forma que nunca eu tinha visto brilhar antes.

P: Eu quero um cheeseburguer com um refrigerante. Posso comprar bala?
L: Claro!
P: Posso comprar para os meus irmãos?
L: Fique a vontade.
P: Porque você é tão bonzinho com a gente Lot?
L: Não sei, na verdade, eu conheço um segredo, que faz a gente virar bonzinho.
P: Mas você é bonzinho sem ser chato. Me conta esse segredo?
L: Claro. Vamos fazer assim, amanhã, você e toda a sua família vão almoçar lá na minha casa, eu venho buscar vocês aqui. E daí eu conto o segredo pode ser?
P: Eu vou almoçar na sua casa???
L: Você não quer?
P: Quero, muito! Mas é que ninguém nunca me chamou pra almoçar antes. Ei Lot!
L: Oi Pedrinho.
P: Obrigado.
L: Que isso, não precis...
P: Obrigado por fazer eu virar criança de novo.

Não consegui responder, mas o fato é que naquele momento o Pedro era realmente o Pedrinho, uma criança, que teve um dia legal. Então, tive uma idéia, mas não sabia se seria possível concretizá-la.

Ao chegar em casa, conversei com minha mãe sobre tudo que tinha acontecido, e ela sorriu para mim. Ela disse que iria fazer um almoço muito especial, e foi as compras.

No dia seguinte, quando fui encontrar com Pedrinho e sua família, encontrei seis pessoas vestidas com a melhor roupa possível, mas bastante apreensivos.

L: Podem ficar calmos, minha mãe é legal.

Todos riram e pegamos o ônibus que ia para minha casa. Chegando lá, deixei Pedrinho e os outros irmãos pequenos brincando com meu videogame, enquanto conversava com dona Joana e Vitor.

L: Sabe, ontem o Pedrinho me perguntou porque eu era tão bonzinho para ele, e eu disse que ia contar um segredo para ele, e vou fazê-lo agora na hora do almoço, vou contar pra todos vocês.
V: Então não é segredo.
L: É um segredo por ser muito valioso, mas vocês não precisam esconder de ninguém.

Minha mãe chamou avisando que o almoço estava pronto. Quando todos viram a comida, com um grande pernil que minha mãe tinha feito, ficaram paralisados. Pedro foi o primeiro a dizer alguma coisa.

P: Muito obrigada vocês dois. A gente não tem mesmo como agradecer, mas Alguém vai recompensar vocês.
L: Quem vai nos recompensar Pedrinho?
P: Aquele que te contou esse segredo que você vai contar pra gente.
L: Você sabe qual é o segredo?
P: Claro que sei. Dá pra ver nos seus olhos, que você conhece o Autor da mensagem.
L: Você conhece a mensagem?
P: Claro que conheço! É por causa dela que mamãe aprendeu a ler e escrever e começou a gostar de ler, e fez a gente gostar também. E é pelo Autor que nós temos o que comer todo dia em casa, mesmo que seja bem pouquinho, e é por Ele que eu te conheci, e também por isso que meu irmão tem um trabalho. E eu vou voltar pra escola, e meus irmãos nunca vão sair. Ele é muito bom pra nós.

O silêncio pairou na sala. Lágrimas desceram dos meus olhos e quando reparei, também desciam dos olhos da minha mãe, da mãe de Pedro, e dos irmãos mais velhos. Dona Joana disse.

J: Eu realmente não sabia que era sobre isso que iria falar, mas sabe, no natal eu tinha dinheiro para comprar um frango assado, mas eu perdi esse dinheiro. Fiquei muito triste por saber que meus filhos não teriam presentes. Até que ganhamos alguma coisa, porque todo ano a comunidade que fica perto da favela faz alguma coisa para dar para as crianças, e nos dá cesta básica e roupas, mas é só no natal que eles fazem isso, e ganhamos muitas roupas estragadas esse ano. O resto do ano as pessoas se esquecem de nós. Foi quando conheci a mensagem que resolvi não ligar para essas coisas e, no último natal não foi diferente. Quando fui dar boa noite para os meninos, ouvi Pedro pedindo pro Autor que Ele cuidasse de sua família, e que ele pudesse ser criança por pelo menos um dia. Você fez tudo isso por nós, muito obrigado Lot
L: Eu...não consigo dizer nada. É pela mensagem que eu vivo, e, é por ela que eu fiz tudo. Vocês só tem que agradecer ao Autor.
V: Nós agradecemos, desde o dia que o Pedro te conheceu, pela sua vida.

Nos abraçamos e eu prossegui.

L: Bem, quando conheci a casa de vocês, eu tive uma idéia. Como vocês disseram, a maioria das pessoas onde vocês vivem é diferente de vocês. Vamos fazer uma coisa, montar uma biblioteca lá dentro, e quem sabe até montar um centro de educação profissional.
P: É uma boa idéia Lot, mas onde vamos conseguir dinheiro para isso?
L: Nós vamos conseguir. Acredito que não conseguiremos atingir todos, e nem todos querem ser atingidos mesmo. Mas se não fizermos nada, estaremos desperdiçando tudo isso que vocês tem. Dona Joana pode ser a bibliotecária. E o Vitor, que já trabalha, pode ensinar alguma coisa para quem quiser lá.
V: Mas eu nem sei nada.
P: Você sabe tocar violão.
V: Mas isso não é educação profissional.
L: Ótimo, vamos ter uma escola de música também. E quem sabe se vocês não tem um artista no meio de vocês? Vitor, você procure seus amigos que sabem tocar, e monte a escola. Dona Joana, procure doadores de livros, eu te indico alguns lugares. Pedro, você vai me ajudar a construir um centro de ajuda, onde vão funcionar as classes de educação profissional.

Esse projeto levou vários meses para ficar pronto, mas a comunidade onde Pedrinho morava aprovou. Claro que nem todos participaram, e claro que o tráfico, as crianças doentes e vários problemas continuaram. Mas saíram de lá muitos jovens com qualificação para o mercado de trabalho, alguns músicos, e a biblioteca fez sucesso, principalmente entre as crianças amigas de Pedro.

Com o tempo, algumas famílias foram selecionadas, para ganharem cestas básicas, e cerca de cinco famílias conseguiram se mudar para um lugar melhor, por meio de muito trabalho.A família de Pedro foi uma dessas. Ele voltou para a escola, e sempre era o melhor da classe. Vitor tentou o vestibular duas vezes, e na terceira conseguiu ser aprovado. Dona Joana estava muito contente como bibliotecária do projeto. Os outros filhos dela também se desenvolviam muito bem. As famílias contempladas com as cestas tinham que estar com as crianças na escola e com o tempo, deveriam passar esse benefício para outra família, porque não precisariam mais. A mensagem se espalhou por muitos locais da comunidade.

Eu sabia que não podia atingir o mundo todo, mas de alguma forma tinha conseguido atingir algumas pessoas, por misericórdia do Autor. Eu sabia, que, por mais que a sociedade se esquecesse de famílias como a de Pedro, Ele nunca se esqueceria. Afinal, apesar de tudo que eu tinha sido e era, Ele não tinha se esquecido de mim.

2 comentários:

holy-freak disse...

Bom primeira coisa, vale por Maninha por me fazer chorar até.

Diga ao Lot, que gostei muito da estória, fico feliz que vê-lo assim ainda tão feliz com a Mensagem e com o Autor, ver que a fé dele não se esfriou e que ele continua firme.

Os esquecidos estão por toda parte, muitas vezes em lugares que não imaginamos, nas favelas pode se encontrar uma grande parcela deles. Mas também podemos encontrar alguns nas faculdades, nas mansões e bairros ricos das sociedades mais ricas, entre ignorantes e pessoas cheias de conhecimento. Mas ainda assim mesmo com recursos e tudo mais são esquecidos, e sentem isso..muitos se suicidam por achar que ninguém sentirá falta deles, muitos vem de lares destruídos e a nós só nos cabe não os deixar no esquecimento e levar pra eles o amor do Autor e a alegria da Mensagem.

Manda um abraço pro Lot e fala pra ele que eu ja voltei de férias =].

Bjo amiga

Dani Nogueira disse...

O Lot me surpreendeu com esse capítulo também maninho.

Os esquecidos, como você disse, estão em todos os lugares.

O Lot ficou muito contente com a sua volta, e disse que logo vai fazer outra visita pra você ^^

bjs

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