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quarta-feira, novembro 26, 2014

O diário de Lot - O imperdoável

"Sejam bondosos e demonstrem compaixão pelo próximo, perdoando-se mutuamente, assim como Ele perdoou vocês no Filho."


Eu não sabia o que fazer. Meu coração insistia que eu não deveria estar fazendo o que estava prestes a fazer. Minha mente gritava para eu parar enquanto fosse tempo.

Mas eu não consegui.

Eu simplesmente não consegui.

Yago tinha sido preso, acusado de estupro, ou, na verdade, pedofilia. A adolescente que foi sua última vítima engravidou, mas perdeu o bebê, assim como a própria vida, devido a uma grande hemorragia. Ela tinha apenas 12 anos. Ele, 36. E eu fui chamado para conversar com os pais da garota.

Durante esses anos eu me acostumei a ajudar pessoas em dificuldades diversas. Eu ficava feliz sempre que podia, de fato, ajudar. Por isso, não foi difícil conversar com Celso e Glória, pais da vítima de Yago.

Ok, foi difícil sim. Acredito que possa ficar cinquenta anos fazendo o que faço, e nunca se tornará uma tarefa fácil de ser feita.

O que dizer aos pais de uma menina que morreu por consequências de tamanha brutalidade? Eu nunca vou ter a resposta para esse tipo de pergunta.

L: Bom dia! Eu sinto muitíssimo pela perda de vocês.
C: Obrigado. Obrigado por conversar com a gente.
L: Imagina! É o mínimo que eu poderia fazer. Nesse momento, não há nada de fato que eu possa fazer que irá tirar essa dor de vocês, mas eu fiquei honrado com o convite.
G: Ela sempre admirou muito você, sabe, Lot. Sempre foi uma menina muito boa, muito gentil.
C: Ela ficaria feliz em saber que você está aqui, conversando com a gente.
L: Eu tenho certeza de que ela era uma menina preciosa...
G:...e é por isso que nós queremos que você converse com o moço que fez isso.
L: ... ... ... ... ... ... Oi?
C: Esse rapaz tirou o nosso bem mais precioso, mas ele também merece perdão, certo?

Eles olhavam para mim buscando a confirmação da pergunta. Eu fiquei sem palavras. Yago estava sendo preso pela terceira vez, pelo mesmo tipo de crime. Três adolescentes. Nunca demonstrou o menor arrependimento. Se sair hoje da prisão ele com certeza o fará de novo.

Pensei por dias antes de dar a resposta, mas meio que querendo ajudar esses pais "órfãos", aceitei ir à prisão para conversar com o indivíduo.

L: Olá Yago, meu nome é Lot e eu estou aqui para conversar com você, a pedido dos pais de sua última vítima.
Y: Bela introdução! Se está aqui obrigado pode ir embora, amigo. Aquela menina era muito linda para eu deixar passar. Se ela engravidou, bem, foi acidente de percurso.. Se morreu foi culpa da criança maldita, não minha.

Eu realmente não sabia se deveria continuar ali. Como tratar como humano uma criatura dessas?

L: Yago, eu não precisava ter vindo. Eu estou aqui porque quis.
Y: Ótimo, e o que veio fazer então? Falar um monte de baboseira e esperar que eu mude? Esse sou eu, eu gosto de menininhas. Eu gosto quando elas tentam fugir, quando gritam por ajuda. Aquelas mãozinhas pequenas, corpinho mudando de criança para adulta. Eu não vou mudar. Esse sou eu.

...

L: Alguém te falou que você não poderia mudar?
Y: Não, eu sei que sou assim. Quer dizer...eu não sei. Tanto faz! Pra que você quer saber disso?
L: Eu acredito que o que você fez é muito errado. Praticamente desumano, nojento. E eu menti. Eu não estou aqui porque eu quero. Quero dizer, sim, eu aceitei o convite, isso foi escolha minha. Mas na minha mente e coração acredito que não deveria estar fazendo isso...
Y: ...Então fique à vontade para ir embora, amigo. Eu não preciso de nada, só de umas menininhas.
L: Continuando, independente do que EU acho, vivo por uma mensagem que é ilógica e, hoje mais do que nunca, injusta.
Y: Que raio de mensagem você está falando, amigo?
L: Eu acredito que você merece condenação eterna, mesmo depois de morrer...
Y: É, você e todos...
L:...mas eu acredito também que eu também mereço. Eu acredito que os pais dessa moça mereçam. Até ela própria. O mundo inteiro...
Y: É, sua mensagem é muito estranha mesmo.
L:...mas eu também acredito, não porque estou apenas convencido intelectualmente que sim, ou que me sinta emocionalmente bem assim, mas acredito que há um Autor, o que criou essa Mensagem, que é capaz de zerar nossas fichas, de todos, independentes se somos bons ou não.
Y: Amigo, você bebeu antes de vir para cá?
L: Não. Veja só, Yago. Eu não faço ideia da sua história. O que sei é do seu presente. E, como ser humano, acho que você é um monstro covarde. Pela minha lógica e meu senso falho de justiça, você merece morrer, agora mesmo. Mas a mensagem, ilógica, como disse, me mostra que eu também merecia isso. Só que o Autor, mesmo sem merecermos nada, nos quer ao lado dele. Não só isso, ele quer nos adotar como filhos. Esquecer tudo o que fizemos. Seja mentir, ou estuprar uma garotinha inocente.
Y: Maravilha! Posso sair amanhã então? Quem sabe eu não ache umas meninas para me satisfazer?
L: Se você chegar a compreender um dia a mensagem, e o tamanho desse favor, você nunca mais será o mesmo.
Y: Então vou deixar para depois, amigo.

O tempo de visita acabou. Eu saí de lá com a certeza de ter feito o certo, mas me sentindo um fracasso. Celso e Glória choraram de alegria quando eu contei que tinha ido lá conversar com Yago. Disseram que a filhinha poderia descansar em paz.

Poderia eu, porém, descansar em paz? Nos noticiários, protestos em frente à prisão, ameaças a Yago, discussões na internet sobre a pena de morte. Notícias, também, de que ele havia sido espancado e abusado na cadeia.

Ele estava recebendo o que merecia. Estava? Às vezes, a mensagem torna as coisas complicadas demais.

Dois dias depois, recebi uma ligação. Yago queria me ver. Eu, cético, acreditava que ele me falaria qualquer coisa para escapar das torturas. Mas fui assim mesmo.

L: Oi Yago, você pediu que eu viesse aqui.
Y: Sim, não consegui parar de pensar no que me disse. É verdade que eu posso ser perdoado?
L: Achei que você tinha deixado essa decisão para depois.
Y: Deixa para lá, pode ir embora.
L: Eu ouvi o que fizeram com você.
Y: Já aconteceu antes, eu não me importo.

Respirei fundo.

L: Você pode. Mas isso significa que você irá mudar.
Y: Eu não posso! Esse sou eu, já falei! Sempre fui, só tinha medo do que aconteceria se eu fizesse essas coisas antes. Hoje não tenho mais. Se eu sair vou fazer tudo de novo.

...

Y: Você não disse que eu não precisava ser bom?
L: Se alguém te desse um presente, você cuspiria nessa pessoa?
Y: Não.
L: Se você continuar fazendo o que até você mesmo sabe que é errado, é a mesma coisa.

Ele começou a chorar. Cada vez que eu me sentia inclinado à compaixão, porém, eu me lembrava dos crimes dele.

Y: Eu entendo. Eu sou um monstro, como você disse. Eu não tenho perdão.

Poderia ser tudo encenação. Eu pensava que era. A voz dele carregava uma culpa, porém, fácil de detectar. Eu me lembrei que a premissa básica da mensagem é que o Autor não trabalha com meritocracia. Eu gosto da meritocracia. Todos nós gostamos, não? Mas a mensagem não diz isso. A mensagem simplesmente significa que não há nada de ruim que um ser humano possa fazer que faça o Autor nos amar menos. E nem nada de bom que possa fazê-lo nos amar mais.

Eu falei isso com o Yago. Conversamos com o Autor. Eu o abracei, meio sem querer, sem sentir. Condenação era tudo o que ele conhecia, inclusive por mim, mas naquele momento fiz diferente. E, acredite em mim, não foi porque eu sou um cara sensacional. Mas era a única coisa que eu podia fazer.

Yago cumpriu a pena integralmente. Mesmo com a possibilidade de regime semi-aberto, depois de um tempo, devido ao bom comportamente, ele optou por cumpri-la até o fim. Fez um acordo para receber tratamento psicológico e psiquiátrico ao invés disso.

Ele escreveu um livro, durante o tempo preso, onde me citou. Ele vendeu bastante e não manteve nada do dinheiro para si. Doou tudo para as vítimas e suas famílias. As duas meninas sobreviventes foram para a faculdade com esse dinheiro.

Yago também solicitou que ficasse com a tornozeleira de monitoramento da polícia. Toda vez que ele chegasse perto de locais com possíveis vítimas um policial era alertado e acompanhava seus movimentos. Ele também solicitou, e conseguiu, que fosse obrigado a fornecer feedbacks positivos todos os meses, para a polícia.

A história do Yago sempre me vem à mente quando tento imaginar a lógica da mensagem, e continuo convencido de que ela não existe. Ao menos não na lógica humana. O incômodo que eu sinto, toda vez que penso nele, apenas me lembra que eu sou falho no meu senso de justiça. E, como tal, nunca devo basear nesses parâmetros para fazer julgamentos.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

O diário de Lot - O orgulhoso

"Desvia os meus olhos de verem a vaidade, e vivifica-me nos teus caminhos."

Nem toda história que escrevo aqui se trata de meus encontros com outras pessoas. Hoje achei necessário falar de mim um pouco. Se é que alguém vai ler essas linhas algum dia pode ser que você venha a ficar surpreso, mas em todo caso estou escrevendo para mim, pois quero evitar cair no mesmo erro de novo. É chato começar um ano falando de erros, ao invés de esperanças ou metas, mas creio que seja necessário uma mudança em mim mesmo, caso eu queira que esse ano seja diferente - para melhor.

Explico-me. Deixei-me corromper pelo orgulho. Não que seja fácil admitir isso, mas visto que ele é, na minha opinião, a "obra-prima" de todos os erros que me afastam (e a todos os humanos) do Autor, não é tão difícil assim cair em suas armadilhas. Ainda bem que o Autor conhece minha natureza corrupta e me deu a graça de perceber isso há tempo. E me perdoou. E continua me perdoando.

Eu fiz, de fato, coisas importantes nos últimos anos. Coisas que talvez nenhum outro seguidor da mensagem tenha feito. Muito mais que a maioria teria conseguido, na verdade. E o ser humano tem a tendência a se achar auto-suficiente, a buscar a independência e a querer ser "bem-sucedido" em tudo na vida. E eu, além de fazer mais que a maioria, ainda tenho um excelente emprego e creio que esteja cumprindo bem meus papéis familiares. Isso é coisa que eu jamais falaria em outros tempos, justamente por medo do orgulho. Mas percebi que fugi para o lado errado. Ao tentar negar que tinha feito tudo isso, fui me esquecendo que não teria conseguido nada disso sem que o Autor tivesse me ajudado. Ou melhor, ajudado não, tivesse me capacitado, tivesse tornado tudo isso possível. Ao negar tudo isso estava dizendo a mim mesmo que eu era bondoso demais para admitir que tinha feito isso.

Que audácia a minha achar que fui eu o "conquistador" disso tudo, não? Mas o mais interessante é que nunca tive esse pensamento. Nunca mesmo, nem agora que me reconheço como orgulhoso. É que, apesar de saber que eu, principalmente considerando minha história (coisa que fica pra um outro dia, quem sabe), sou totalmente incapaz disso tudo, eu me deixei corromper.

O orgulho não é aquele tipo de erro escandaloso que as pessoas que cruzaram meu caminho normalmente apresentavam. Não, o orgulho é muito mais sutil. O orgulho é interno, então é fácil ninguém perceber que você é orgulhoso. Até que ele seja tão grande que se torne visível.

É como um tumor no pulmão, que cresce devagar, sem deixar rastros, até que se torne complicado demais. O câncer de pulmão até apresenta sintomas, mas por serem tantas vezes tão semelhantes a quadros clínicos mais comuns, como uma gripe, são facilmente ignorados. O mesmo ocorre com o orgulho. No início seus "sintomas" podem ser facilmente confundidos com a alegria de ter feito algo bacana, mas ele cresce, cresce, cresce, até ser muito complicado. Aqueles que cruzaram meu caminho tinham mais sorte, pois o que tinham eram uma lesão superficial, muito mais fácil de tratar do que a minha.

É preciso, claro, esclarecer que ficar feliz por ter feito algo bacana não é ruim, nem um erro em si. Mas o foco dessa alegria deve ser mantido bem claro. Não ouso estimar a que ponto meu orgulho cresceu, tal como um clínico poderia fazer com um câncer, porque eu mesmo não teria essa capacidade, bem como um paciente com câncer não teria essa capacidade de identificar a doença em si mesmo, ainda que fosse médico, sem auxílio. O fato é que eu o notei.

Eu o notei e estou tão envergonhado, tão chateado, que poderia simplesmente parar por um tempo com tudo que tenho feito. Mas isso também não seria orgulhoso de minha parte? Achar que EU posso parar de fazer algo porque EU me senti orgulhoso demais? Se essa, por assim dizer, missão, não depende de mim, mas do Autor, então não há motivos inteiramente meus, ainda que um erro grave como esse, que deveriam me impedir de continuar a cumpri-la.

Não que eu saiba como lidar com isso exatamente, estou bem confuso, pra dizer a verdade. Eu me percebi orgulhoso no dia que constatei tudo aquilo que eu tinha feito, com orgulho, ao mesmo tempo que me orgulhei de não ter me orgulhado por ter feito tudo aquilo. Veja que é bem difícil de se explicar o orgulho, tal grande é sua sutileza de manifestação.

Mas eu pretendo mudar. Não sei mesmo como, mas eu tenho que mudar. Agora, achar que eu posso fazer isso por mim mesmo seria apenas mais uma faceta do orgulho infiltrado em mim. Eu não posso fazer isso, não consigo. Sou naturalmente orgulhoso, e isso é um fato. Mas o Autor pode me ajudar. Ele pode corrigir meu foco, minha visão de mim mesmo e do que tenho feito. Estive o tempo todo vendo tudo isso com uma visão distorcida, mas agora Suas lentes podem corrigir tudo isso.

Não prometo nunca mais cair no mesmo erro, porque sei quem eu sou o suficiente pra saber que prometer isso seria orgulhoso também. Se depender de mim eu volto a ficar orgulhoso no momento que terminar esse texto, me vangloriando de quão humilde eu fui ao admitir tudo isso e resolver mudar de vida.

Se alguém estiver mesmo lendo essas linhas, que me perdoe a sinceridade dolorosa, o desapontamento com a minha pessoa. Mas era necessário. E talvez até seja bom para que você perceba que eu não sou perfeito. Já demonstrei isso aqui tantas vezes, mas talvez meus feitos tenham sobrepujado minha natureza corrompida.

Eu, Lot, não sou o melhor ser humano que existiu nessa terra. Eu sou corrompido. Eu erro. Eu sou orgulhoso. No programa de Alcoólatras Anônimos o primeiro passo é admitir seu vício. Então pronto, vou seguir o mesmo caminho. Sou viciado em orgulho.

Importante salientar, claro, que nem sempre faço as coisas com orgulho. Na verdade, em todos os casos onde relatei aqui não ser merecedor ou digno de tanta coisa bacana acontecendo comigo, estava realmente querendo dizer isso, expressei o que sentia. Mas acho que meu orgulho foi justamente me orgulhar em não me orgulhar. Eu comecei a me orgulhar da minha humildade antes mesmo de me orgulhar de "meus" feitos, o que provavelmente tenha sido bem pior. Ou não, não sei se há escala segura quando se trata de orgulho. Orgulho é orgulho, e não há orgulho pior ou melhor.

Então, nesse ano, o que quero mesmo é não ser orgulhoso. Não vou ser estúpido a ponto de tomar isso como resolução de ano novo, porque, como disse, isso também seria orgulho. Mas o que quero é me livrar desse tumor, e sei que tenho o médico mais competente do mundo, de todos eles, pra lidar com isso por mim, basta eu deixar o mais instável de meus órgãos - o coração - em suas mãos. Não vai ser fácil, mas Ele há de me ajudar nisso também.

segunda-feira, outubro 31, 2011

O diário de Lot - O reformador


"...você abandonou o seu primeiro amor."


Coincidentemente, ou não, eu conheci o Edgar no dia 31 de Outubro. Um dia muito importante para os seguidores da mensagem.

Estava twittando algumas coisas, dando RT em outras, quando vi o link para o texto do Edgar. Como não o conhecia, resolvi dar uma navegada no blog dele, pra conhecer melhor a linha de pensamento dele. Fiquei surpreendido quando vi que Edgar não frequentava nenhuma comunidade de seguidores da mensagem. Isso porque o texto dele sobre o dia já citado, muito bem escrito, dizia da importância de uma nova reforma - "A reforma do século XXI", era o nome do texto.

Eu disse pra ele: @EdgarDaMensagem seu texto é excelente, mas acho válido começar de nós essa reforma.

Fui trabalhar, e, na volta, verifiquei a resposta dele: @LotJustificado e quem disse que eu disse o contrário?
   @LotJustificado ah, claro, não vai responder. Que coisa mais coerente a se fazer.

Uma coisa que gostava muito da internet é que eu era menos conhecido lá do que no "mundo real". Entrava muito pouco, então quem me conhecia era porque conhecia de fora mesmo, ou porque alguém indicou. Tinha um blog onde escrevia algumas coisas, mas também não era muito visitado. Enfim, na internet era como se eu estivesse revivendo aquele dia que estava caminhando de volta pra casa quando encontrei Maria

Respondi a ele que estava no trabalho, e que acharia bacana trocar umas ideias a respeito desse assunto. Coisa que, obviamente, de 140 em 140 caracteres não teria como ser feito. Ele me adicionou no Facebook, e começamos a conversar.

Ele começou, dizendo: - Você chega no twitter dando uma indireta e depois some, com desculpa de que foi trabalhar, fácil né amigo?

Eu respondi: Cara, eu realmente estava no trabalho. Meu sinal de celular lá é péssimo e prefiro também não me distrair por lá, por isso só entro em casa. A questão é que foi só uma crítica positiva, não entendi a razão de tanto stress.

E: Você está dizendo que eu fui incoerente ao dizer o que disse. Aliás, você deve ser só mais um desses caras que criticam quem é contra o sistema, nem sei pra que estou te dando atenção.

L: Na verdade, se por ser "contra o sistema" você quer dizer ser contra a palhaçada que se tem feito em nome do Autor, então eu sou parte desse time, não adversário.

E: Ah tá, mas então por que disse isso?

L: Eu não conhecia seu blog, vi que alguém deu RT no seu post, fui verificar um pouco mais da sua linha de pensamento, porque curti o texto. Mas aí descobri que você não frequenta nenhuma comunidade de seguidores da mensagem.

E: Ah, é só por isso? Vou te explicar o motivo (se eu soubesse que teria que me explicar por causa de um motivo tão óbvio, nem teria perdido meu tempo). Eu cansei dessa palhaçada aí, entendeu? Estamos longe do reformador, e muito mais do Autor.

L: Sim, concordo.

E: ?

L: É, eu concordo. Estamos mesmo muito longe. Mas você notou a conjugação que utilizou?

E: Ahn? E que tem português a ver com isso tudo?

L: Você disse "estamos". Acredito que está se incluindo aí.

E: Claro que me incluo, só porque eu não frequento nenhuma reunião não significa que eu não sou parte dos seguidores da mensagem.

L: Então, foi isso o que eu quis dizer. Essa reforma deve partir de nós, os seguidores da mensagem.

E: Cara, e quem disse que eu me excluí, quando escrevi o texto?

L: Você acabou de me dizer que não concorda com o que está sendo dito, com a palhaçada feita em nome do Autor. Mas você também não frequenta nenhuma comunidade.

E: Eu não frequento porque não aguento mais essa palhaçada.

L: Certo. E aí fica mais fácil pra eles mesmo.

E: Oi?

L: É, porque se caras como você, que não são corrompidos pela falsa mensagem deles, preferem deixar de participar, porque não aguenta mais a palhaçada, fica mais fácil pra eles. É mais fácil quando os críticos vão embora e só sobram os desavisados que acreditam em qualquer lorota. Mas fazendo isso, devo advertir você, você está sendo conivente com eles. O Autor capacitou você, te deu uma mente capaz de mudar muita coisa (eu vi isso nos seus textos) e você prefere ficar de fora.

E: Não é bem assim.

L: Na verdade é, é como se você visse um médico infectando milhares com o vírus da AIDS, propositalmente, e, sendo médico também, resolvesse sair do hospital que ele trabalha, por não concordar mais com a palhaçada que ele está fazendo. Se fosse esse o caso, e alguém descobrisse o que o médico estava fazendo, e descobrisse que você já fez parte da equipe, você seria acusado de cumplicidade, tão criminoso quanto o médico que infectou os pacientes.

Edgar ficou calado, e eu cheguei a pensar que a conexão dele tinha caído (uma desvantagem clara de ter esse tipo de conversa pela internet), mas na verdade ele estava pensando. Alguns minutos depois (minutos na internet parecem horas) ele respondeu.

E: Pensando dessa forma, você tem razão. Mas...

L: Mas?

E: Mas nós não temos chance nenhuma contra os poderosos. Ninguém vai nos ouvir, e ainda vai nos acusar de perverter a mensagem.

L: E é o que você estará fazendo?

E: Na verdade não, na verdade a estarei resgatando.

L: É como se você denunciasse aquele médico. Por ser um residente, e ele chefe do setor, provavelmente eles não iriam acreditar em você. Mas quando a realidade viesse à tona, se viesse, você saberia estar certo. E mesmo que nunca viesse à tona, você estaria com sua consciência limpa. Agora, uma coisa importante...você sabe que reformar esse hospital não significa quebrar tudo e construir de novo né? Você poderia matar vários pacientes fazendo isso inadvertidamente. Reformar, nesse caso, seria você agir corretamente, denunciar o médico e continuar cuidando dos doentes.

E: É, eu entendi. Você tem razão. E me desculpe pelo modo rude do início. É que achei que você era mais um daqueles.

L: Eu sei que achou. Mas tente, mesmo que eles não mereçam, trate-os dignamente. Você não precisa se rebaixar ao nível deles para ser ouvido.

E: É, você tem razão.

Edgar acabou procurando uma comunidade naquela semana mesmo. Na verdade, ele procurou sua antiga comunidade. Inaugurou um grupo de estudo com os jovens, além de apoiar as ações sociais da comunidade. Ele fez a diferença, mesmo que ninguém dos poderosos soubesse. De um jovem revoltado com o sistema, ele estava ajudando a reconstruir o sistema, fazendo com que as novas peças não viessem defeituosas - ou ao menos nem tão defeituosas assim.

segunda-feira, julho 11, 2011

O diário de Lot - O homossexual

"Portanto, você, que julga, os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas."

Estava me dirigindo ao local de reunião daqueles que acreditam no Autor, quando um rapaz me parou. Ele tinha uma feição tão triste que era impossível não notar que ele não estava bem. O líder de jovens havia me convidado para dar uma palavra na reunião, por isso não podia me atrasar. O rapaz insistiu que precisava conversar comigo por alguns instantes. O nome dele era Timóteo.

T: Desculpe, eu sei que você está atrasado. Todos estão. Mas é que eu preciso de alguém que me escute, nem que seja por um segundo.
L: Já que é por um segundo então tudo bem (eu sorri, e ele acompanhou o sorriso, embora tenha sido um sorriso amarelo).
T: Eu só preciso conversar com alguém, e acho que já ouvi falar de você...você é o Lot, certo?
L: (eu ainda não tinha me acostumado com pessoas estranhas me reconhecendo, mas eu respondi) Sou eu mesmo. Em que posso ajudar amigo?
T: Bem, pensando melhor, não quero te atrapalhar. Posso ir com você onde está indo, e depois a gente conversa?
L: Claro! - e seria mesmo uma excelente ideia, já que eu poderia, quem sabe, ajudá-lo por aquilo que iria falar na reunião.
T: Ótimo. Onde você está indo?
L: Para uma reunião de jovens, logo ali na frente.
T: Bem...nesse caso acho melhor esperar aqui fora, caso não se importe.

Eu já estava acostumado com algumas coisas, então disse que poderia ser muito bom que ele entrasse, que poderia ajudá-lo. Ele ainda ficou hesitante e preferiu não entrar, prometendo que me esperaria lá fora, quando terminasse.

Ao terminar a reunião Timóteo estava lá, no mesmo lugar, e então fomos conversando no caminho.

T: Desculpa eu não ter entrado, pude ouvir que foi você quem falou, mas eu não poderia entrar ali, não me sinto bem nesses lugares.
L: Tudo bem, mas então fale, em que posso te ajudar?
T: Então...eu...como posso dizer...minha mãe segue esse Autor aí que você tanto fala. Eu fui criado em lugares desses. Meus pais são divorciados e quando adolescente resolvi que isso não era pra mim, então fui morar com meu pai. E lá pude admitir...assumir...eu sou gay. Meu pai é um excelente pai, e minha mãe também sempre foi excelente mãe, não tive nenhum trauma, como se ouve falar por aí. Eu sei lá, só acho que nasci assim. O problema, na verdade, não é esse. Hesitei muito pra falar porque você é seguidor desse Autor, então achei que não me receberia bem, mas ouvi dizer também que você tem algo de diferente dos demais. O fato é que, eu não quero deixar de ser gay, estou feliz assim. Mas tem me incomodado que por causa disso meus pais, que se divorciaram há muitos anos, começaram a brigar. Eles se divorciaram porque viram que se casar só porque eu tinha nascido não foi uma boa escolha. Terminaram amigos, e hoje estão em pé de guerra. Por isso me sinto culpado, imensamente culpado, de tudo que acontece com eles.
L: Calma, muita informação para processar ao mesmo tempo. Ok, deixa eu ver se eu entendi. Você é gay, não ligava pra isso até que isso afetou uma relação amistosa que seus pais tinham, certo? Mas me explique uma coisa. Você disse que foi pra casa do seu pai enquanto adolescente, e que lá mesmo se assumiu. Então porque isso está te incomodando só agora?
T: Eu não estou me relacionando com ninguém, mas meu pai e eu ficamos felizes de que a união homossexual estável foi aprovada, e eu fiquei chateado porque minha mãe disse que aquele projeto de lei é contra tudo que é certo. E ela nem sabe do que se trata o projeto. E eu comentei com meu pai. E aí começou a briga.

Eu tinha que pensar muito sobre como me posicionar sobre o assunto, por isso fiquei calado por alguns instantes. Afinal, eu conhecia o projeto de lei e era contra ele também, não pelo motivo pelo qual a maioria dos seguidores do Caminho eram, mas porque feria o direito constitucional que eu tenho de me expressar. E eu não era conivente com o homossexualismo, como muita gente andava me acusando desde que falei sobre esse assunto uma vez numa reunião, mas, apesar de saber que eles estavam errados, eram simplesmente pessoas que estavam fora do caminho, como tantas outras, como os mentirosos, os invejosos, os cobiçadores...ao mesmo tempo, me incomodava o fato de que estava se formando uma "ditadura homossexual", onde o errado na sociedade parecia ser o heterossexual. E ainda me incomodava a hipocrisia de ambas as partes. Dos que não seguiam o Caminho, e falavam que estava tudo bem (até que isso atingisse a família deles) e dos seguidores do Caminho, que queriam apedrejar os homossexuais como a pior raça de pessoas que pudesse existir. Era um discurso desiquilibrado dos dois lados. E como expressar o amor que o Autor me ensinara àquele rapaz? Foi por isso que mantive silêncio durante algum tempo.

L: Desculpe a demora, estava refletindo sobre algumas coisas. Eu vou dizer algumas coisas, e você vai me prometer ouvir até o fim, ok?
T: Ok.
L: Eu não vou dizer que eu acho o que você está fazendo com sua vida algo correto. Também não vou dizer que você não merece conhecer o Autor por causa disso. O Autor, ao contrário do que tenham pintado para você a respeito dele, é Amor. Entende isso? Ele é o amor, Ele não tem amor, Ele é o amor. E ele também é justo. E por ser justo todos os nossos erros cheiram mal para Ele, cheiram como carniça. Carniça acumulada há dias. Todos os nossos erros, seja meu erro de às vezes mentir, seja seu erro de se relacionar com alguém com o qual não foi feito para se relacionar, são desagradáveis a ele. Eu sei que não é por isso que você veio me procurar, mas é minha obrigação dizer. Então, como esses erros são nojentos para Ele, não podemos nos aproximar dEle. Mas Ele é amor, como eu havia falado. E, por ser o amor, Ele quer que estejamos com Ele. Como Ele resolveu esse dilema? Ele se tornou homem como nós e morreu em nosso lugar. Nós merecíamos a morte, mas Ele pagou o preço por todos nós. E, por isso, e apenas por isso, não porque somos bonzinhos ou fazemos coisas boas, podemos ter acesso a Ele. E quando o conhecemos ainda erramos, mas não como prática de vida, mas como acidentes de percurso. Talvez a indignação de sua mãe seja por isso, talvez seja porque ela levou tudo como ofensa pessoal. Não tem como eu dizer, porque não a conheço. Talvez tenha sido um desabafo de mágoa. Esse projeto de lei tem um problema, caro amigo Timóteo. Ele fere o direito de liberdade de expressão, que está garantido na constituição. Ele não ser aprovado não significa que você perdeu seus direitos, mas que todos nós deixamos de perder esse direito de livre expressão. Se esse projeto fosse aprovado o simples fato de eu ter falado tudo isso para você poderia me levar à prisão. E eu posso discordar de você, sem te ofender, concorda?
T: Sim, mas...
L: Calma, hehe, eu sei que é muita coisa, mas aguarde eu terminar. Eu entendo porque você não quis entrar comigo naquela reunião. Os seguidores do Caminho têm se preocupado mais em julgar do que em receber com o amor com o qual fomos recebidos. Eu reconheço essa falha. E eu não me importo com o que você fez até agora, estou pronto para me tornar seu amigo. Mesmo que você decida não mudar. Eu prefiro que você mude porque sei que será melhor para você, que você siga o curso biológico natural a você, como homem. Mas mesmo que decida não fazer isso posso ser seu amigo. E mais, você pode ir lá, se alguém te julgar, eu mesmo me encarrego de chamar a atenção dessa pessoa. Mas eu sinceramente não tenho como intervir em sua família. Aja com amor, tanto em relação ao seu pai como em relação à sua mãe. Já que mora com seu pai, tente conversar com ele, para ele relevar. Tente mostrar para sua mãe que você a ama.
T: Eu não sei bem o que dizer Lot. Eu realmente não esperava ouvir nada disso. Vi você resolvendo tantos problemas (ou melhor, ouvi falar dos problemas que você resolveu), que eu simplesmente esperava que você fosse lá e resolvesse tudo. Eu conheço o Caminho. Eu sei que não estou totalmente certo. Mas eu sou assim, não posso mudar quem eu sou. E se isso não é bom o suficiente pra Ele, que Ele não me fizesse assim.
L: Você sabia que há estudos comprovando que muitas pessoas têm tendência a serem violentas? É natural delas. Na mente delas passam crueldades que nós jamais poderíamos imaginar. Mas porque não há tantos psicopatas por aí? Porque essas pessoas conseguem suprimir esse desejo pelo mal. Algumas não conseguem por si próprias, mas encontram forças no Autor. Desde que o ser humano errou pela primeira vez ele tende a continuar errando. Somos maus por natureza. Cada um com seu tipo de maldade. Mas cabe a nós entregar essa  natureza errante para Ele, para que Ele viva em nós, e então, por não vivermos mais nós mesmos, mas Ele, tenhamos uma vida que O agrada.
T: O que você está me dizendo é que é só eu dizer que aceito assim, como se fosse um presente, tudo que Ele fez por mim, e então eu vou mudar de vida, porque Ele próprio vai mudar? Por que então Ele mesmo não me muda de uma vez?
L: Ele não é intrometido. Se nós não aceitarmos o convite, Ele não entra em nossas vidas. Mas uma vez aceito o convite, nós somos impelidos a viver em eterna gratidão a Ele, por isso tentamos agradá-lo o tempo todo.
T: Lot, vou ser sincero. Até agora nunca ouvi nada de ninguém de...me perdoe pelo termo...ninguém de sua laia, porque sempre foram muito agressivos comigo. Eu, como gay, concordo que até mesmo os protestos têm sido exagerados. Mas foi uma manifestação que estava presa há muito tempo e, já que a sociedade agora nos aceita melhor, resolvemos expressar. Apenas queremos que essas pessoas entendam que somos seres humanos como elas, não pessoas do mal. Pessoas que querem destruir a família delas. Eu não sei se posso mudar de vida. Eu sou assim, eu nasci assim, mas pela primeira vez alguém me mostrou que essa Mensagem pode ser bonita e receptiva, e não acusatória.
L: Eu admito, com muito pesar Timóteo, que eu sei que é verdade. Mas eu não tenho medo de dizer que te amo, só porque podem me chamar de gay. Eu te amo porque eu sei que o Autor te ama, e sei que essas pessoas acabam demonstrando que Ele te odeia, mas não é verdade. Ele odeia nossos erros, de todos nós, não só os seus. E por Ele te amar tanto, Ele quer que você entregue sua vida nas mãos dEle, porque ninguém mais pode saber cuidar melhor que Ele da sua vida, já que foi Ele quem te criou.
T: Eu acho que talvez eu consiga apaziguar tudo em casa de uma outra forma. Eu acho que posso tentar aceitar esse amor dEle. Mas eu tenho medo de entrar num lugar desses Lot. Eu me sinto a pior pessoa do mundo em meio a um bando de santos perfeitos.
L: Eu não posso expressar o tanto que estou feliz com essa sua decisão. Como eu disse, muitas pessoas não sabem lidar com os pecadores, porque elas mesmas se esqueceram de onde foram tiradas. E acham que somente seguir no Caminho, sem levar ninguém com elas, é o suficiente. Não posso julgar, mas acho até que muitas dessas pessoas nem sabem o que é o Caminho.

Passaram-se algumas horas e alguns quilômetros desde que Timóteo e eu começamos a conversar. Ele chegou em casa e conversou com seu pai sobre tudo que tinha acontecido. O pai dele ficou muito feliz, ele disse, e resolveu que valia à pena ver que Caminho era esse. Foram juntos à reunião onde sua mãe ia, e ela chorou de alegria. Eles (mãe e filho) começaram um trabalho para levar o amor a pessoas como ele.

Alguns anos se passaram sem que eu tivesse notícia de Timóteo, até que um dia recebi em casa um convite de casamento. E era um casamento duplo. Os pais de Timóteo se casaram novamente e no mesmo dia ele se casaria com uma moça que tinha conhecido nesse lugar. Na carta em anexo ele me contou que ainda lutava com seus desejos homossexuais eventualmente, mas que amava aquela moça como jamais imaginou amar alguém. E não via a hora de ser pai, algo que ele poderia ser legitimamente agora.

É claro que a situação não mudou, e os "santos" continuavam julgando os "impuros". Mas o trabalho que a mãe de Timóteo, ele, e agora a sua esposa e seu pai, desenvolviam, mudou a vida de muitos jovens como ele. São apenas pingos no oceano, mas o que seria do oceano se não houvesse cada um daqueles pingos, não é mesmo?

segunda-feira, junho 20, 2011

O diário de Lot - O traidor

                             
"A palavra calma desvia a fúria..."

Era mais um dia de trabalho normal quando um colega de trabalho, de outro setor, se aproximou de mim meio sem graça para conversar. O Carlos era um funcionário de cargo importante, que raramente ia ao meu setor, e nos conhecíamos apenas de vista das festas da empresa.

C: Bom dia Lot, tudo bem?
L: Carlos! Que faz aqui? Beleza e você?
C: É, eu não apareço muito por aqui, eu sei - ele riu meio sem graça - então, eu estou vivendo né. Mas aqui, posso conversar com você quando tiver um tempinho?
L: Claro, quando você quiser.
C: Vai almoçar fora hoje?
L: Eu normalmente almoço em casa, mas se a hora do almoço for melhor pra você, por mim tudo bem.
C: Não quero atrapalhar você, mas se puder, tem um restaurante aqui perto, barato e bom.
L: Ok, nos vemos lá então. Conheço o restaurante.
C: Ok, até mais então.
L: Até.

Não vou mentir que tinha ficado curioso. O Carlos tem idade para ser meu pai, e, nesse tempo de experiência, descobri que as pessoas que não me conhecem normalmente pedem para conversar comigo em busca de conselhos. E era muito estranho me imaginar dando conselhos para alguém mais velho. Claro, tinha já encontrado pessoas mais velhas, mas era diferente. Não era um colega de trabalho, alguém que eu sabia da existência antes de vir conversar comigo. E alguém que tinha me procurado para conversar, e não o contrário.

De qualquer forma, cumpri as minhas obrigações e no intervalo do almoço fui ao restaurante combinado. Carlos já estava lá, e parecia muito nervoso.

C: Ei Lot.
L: Ei Carlos. Mas então, me diga, em que posso ser útil?
C: Então Lot, não sei como dizer isso. Você tem idade para ser meu filho, mas eu não encontrei ninguém mais que imaginei que pudesse me ajudar como você. Você já ajudou tanta gente nesse mundo né? Acho que pode me ajudar.
L: Não é pra tanto, mas do que se trata?
C: ...Ok, vou dizer de uma vez, porque não tem jeito mais fácil de dizer isso. Eu traí minha esposa. Ela sabe, nós nos separamos há alguns meses. Mas agora que caiu a ficha do que eu fiz e eu a amo muito. Eu a quero de volta, mas sei que não mereço. Traí  a confiança dela, dos meus filhos, eu destruí minha família.

Eu gelei. Não tinha ideia do que fazer ou falar. Queria mesmo era sair correndo dali, porque não tinha solução viável para o que ele estava dizendo. Tentei falar alguma coisa...

L: Olha Carlos, não sou casado, não tenho filhos, mas eu entendo o que é traição. Eu também sou um traidor.
C: Você?? Mas Lot, você é a pessoa mais correta que eu conheço.

Antes que ele desistisse de conversar comigo eu completei...

L: Eu traí, e traio todos os dias. Você sabe que eu sigo uma mensagem que alguém me ensinou. Mas ao fazer coisas contrárias ao que está escrito, eu me torno um traidor.
C: Eu até entendo Lot, mas não é a mesma coisa. Você traiu um ideal, eu traí minha esposa. A mulher da minha vida.
L: Eu traí, aliás, todos nós traímos, o meu criador. Aquele que me salvou de viver a vida inútil que eu vivia. Nada pode ser pior que isso. Ele me deu um presente que eu não posso pagar e, ao invés de viver minha vida em eternas ações de agradecimento, preferi decepcioná-lo.
C: É, olhando sob esse ponto de vista...mas eu não sei se minha esposa vai me perdoar.
L: Você já tentou pedir perdão?
C: Não tive coragem de procurá-la até hoje.
L: A primeira coisa que você tem que fazer é perdoar a si mesmo.
C: Isso é impossível.
L: Quase que concordo, mas esse tipo de coisa a gente só consegue quando vê que, mesmo sem ser digno de perdão nenhum do Autor de nossas vidas, Ele nos perdoa todos os dias e literalmente esquece tudo de ruim que fizemos. Aí sim conseguimos nos perdoar.
C: Mas não pode ser tão simples assim Lot.
L: Temos que abrir mão do nosso orgulho e aceitar que não merecemos e mesmo assim podemos ganhar. Não é fácil mesmo não.
C: Está na hora de voltarmos. Podemos continuar depois o assunto?
L: Claro. Boa tarde.
C: Bom trabalho.
L: Igualmente.

Apesar de ter terminado como se ele quisesse me enrolar, vi em Carlos uma confusão diferente daquela que vi de manhã, é como se ele estivesse assimilando a ideia de que realmente poderia ser perdoado. Ele estava começando a ver que o presente do Autor era irresistível.

Nos encontramos ao final do expediente dois dias depois e Carlos estava com uma nova aparência. A aparência que eu já conhecia de alguém que era perdoado.

C: Lot, muito obrigado!
L: Por que Carlos?
C: Hoje vou conversar com minha esposa. Ela tem todo o direito do mundo de não me perdoar. Eu gostaria muito que ela me perdoasse e vai ser difícil viver sem tê-la ao meu lado. Mas caso isso não aconteça, sei que eu já fui perdoado. Eu preciso conversar com ela, nem que seja apenas para falar dessa mensagem pra ela. Você se importaria em ir comigo?
L: Fico muito feliz com essa notícia Carlos e imagino que seria melhor que você fosse sozinho, mas se você acha necessário, eu vou sim.
C: Amanhã eu vou lá e finalmente ver meus filhos, te encontro aqui então para irmos pode ser?
L: Combinado.

Deveria ter falado não, pensava eu naquele momento, porque eu fui me meter em briga de casal? Mas depois a minha escolha se mostraria acertada. No dia seguinte, então, no horário combinado, nos encontramos na porta da empresa e fomos à casa de Carlos.

Chegando lá, eu deixei que ele fosse primeiro, e a esposa abriu a porta e só não bateu a porta porque viu que ele estava acompanhado. Como a entrada da casa era próxima ao passeio, ouvi a conversa de Carlos com sua esposa, Denise.

C: Olha, antes de mais nada, desculpe por ter sumido. Eu não mereço nada de você, nem dos nossos filhos. O que eu fiz é imperdoável. Mas eu te amo, sou um novo homem, e, se você me permitir, quero reconquistar sua confiança e amor dia após dia, todos os dias de nossas vidas.
D: Carlos, eu...eu não te esperava aqui. Eu...não sei o que dizer. Eu não sei o que eu fiz para receber o que você me deu. Eu nunca te trairia. Eu nunca deixei de te amar.
C: Eu sei. Você não fez nada meu amor - Carlos, apesar de tentar, não conseguiu segurar as lágrimas - eu que fui o culpado, eu que trabalho demais, e que nunca dei atenção para vocês. Eu que troquei nossa família por uma aventura de um dia. Desculpa, não estou chorando para te comover, eu...eu tentei segurar, mas eu te amo tanto, eu não quero te perder.
D: Quem é esse garoto no carro?
C: Um colega de trabalho. É por causa dele que estou aqui hoje. Se não fosse ele, ainda estaria me afogando em minhas próprias mágoas.
D: Não quero ficar conversando sobre isso aqui na rua. As crianças ainda estão na escola. Vocês querem entrar?
C: Se você me permitir...
D: Entrem.

Entramos. Lá conversei com Denise, contei sobre a rápida conversa que tinha tido um dia no almoço com o marido dela, sobre as mudanças que ele tinha tido, tudo por causa do Autor.

Lá também fiquei sabendo da história do casal. Carlos trabalhava demais e Denise, além de trabalhar fora, tinha que cuidar da casa, das crianças, de tudo, porque não tinha babá nem empregada, por decisão deles mesmo. Eles não se viam mais, não conversavam mais, não falavam de pequenas coisas que irritavam um ao outro por medo de deixar o par chateado. Depois das crianças eles não tinham mais momentos a sós, eram como dois estranhos dormindo na mesma cama. E Carlos, por não ter deixado de ser homem por tudo isso, procurou satisfazer suas necessidades em um lugar mais fácil e mais cômodo, sem pensar nas consequências que essa diversão lhe traria.

Fui embora mais cedo, porque minha mãe poderia ficar preocupada, mas Carlos lutou ainda alguns meses, antes de conseguir a confiança da esposa de volta. Hoje, quase um ano depois, eles se casaram de novo (não haviam se divorciado legalmente, mas resolveram fazer os votos novamente), Carlos falta a eventos da empresa em prol de sua família e Denise voltou a frequentar os salões de beleza. As crianças voltaram a tirar boas notas na escola. Claro, não era tudo perfeito. Não pode haver 100% de momentos bons quando duas pessoas diferentes convivem entre si todos os dias, e todas as pessoas são diferentes. Mas eles eram um casal feliz. Um casal que aprendeu a superar as dificuldades e faziam questão de se conquistarem todos os dias. Denise conheceu o amor e o perdão do Autor, e por isso resolveu perdoar o marido.

Claro que nem sempre é assim, conheci diversos casais que nunca se reconciliaram, e até já ajudei um outro conhecido a reatar o casamento, mas não tinha sido possível. Denise poderia não ter voltado a se casar com Carlos, mesmo tendo o perdoado, sem ter cometido erro nisso, mas foi uma decisão que ela tomou, e que eu achei bacana.

Quanto a mim, apliquei ao meu contexto a lição que aprendera, tentando ser um filho melhor todos os dias. Se todos tentassem fazer a própria parte na busca de felicidade conjunta, muitos lares desfeitos poderiam ser refeitos, ou nunca terem chegado a ser desfeitos.

segunda-feira, junho 13, 2011

O diário de Lot - O extraordinário (Parte II)

                                   
"Ao ouvi-lo, ficava muito impressionado e o escutava de boa vontade"

Depois então, de meia hora, ela puxou assunto:

R: - Poxa Lot, incrível o que você falou, parabéns!
L: - Valeu Renata, você sabe que, como sempre digo inclusive hoje, foi um presente que ganhei, não mérito próprio.
R: - É exatamente sobre isso que eu queria falar.

Me surpreendi, porque com nenhum outro colega o assunto tinha se estendido tanto.

L: - Como assim?
R: - Eu vim para cá bastante satisfeita, porque acho que feliz não é a palavra correta, felicidade é o que você tem, não eu. Estava satisfeita porque passei em um concurso, estou ganhando bem, ajudo minha família e posso farrear, saí de casa, comprei um carro bacana e não estou solteira com o dia dos namorados chegando - ela falou essa última frase meio constrangida, rindo um pouco.
L: - Sim, eu fiquei sabendo, fiquei muito feliz quando ouvi as notícias.
R: - Pois é...mas apesar de tudo, não me sinto feliz...não me sinto justa como você.
L:  - A origem da minha felicidade não é mistério, agora... - ela me interrompeu.
R:  - Exatamente! Eu sei! Mas deixa eu reformular. Não me sinto justa o suficiente para ser feliz como você! É muito mais fácil ser medíocre do que ser extraordinário.
L: - Em tese, até deveria concordar com você, mas sei que não é bem assim.
R: - Como não?
L: - Quando você conhece a justiça, o extraordinário (não o sobrenatural, o extraordinário), passa a ser comum para você. Já o comum, é bem difícil, você fica incomodada com ele.
R: - Como extraordinário, não sobrenatural, não é a mesma coisa?
L: - Não. É o que todos pensam, mas não é. Num mundo individualista e competitivo como o nosso, aqueles que se importam com o próximo, que amam seu próximo a ponto de se importarem com ele, esse é o que é extraordinário. Mas não é algo sobrenatural.
R: - Mas para fazer boas ações está cheio de gente. Até mesmo de gente que faz tudo de errado, gente que não é justa como você.
L: - Ok, ainda vamos discutir essa justiça minha, mas até mesmo esses, mesmo que o façam em busca de fama, reconhecimento, abatimento de impostos, ou mesmo para se sentirem bem, estão sendo instrumentos da justiça, mesmo não sendo justos. O criador de tudo é quem faz isso acontecer.
R: - Ok, mas Lot, você é justo! Eu sou uma pessoa boa, mas não justa...não assim como você.
L: - Justo é aquele que foi justificado. E só pode justificar, ou seja, imputar justiça, aquele que não precisa ser justificado, porque já é a justiça. Nesse sentido, até que sou sim, justo.
R: - E o que eu preciso para ser justificada então? Depois de hoje não vou conseguir me contentar com a mediocridade.

Expliquei para Renata o que era preciso, abrir as mãos e o coração para receber o presente. E nossa conversa durou tanto que alguns minutos depois a festa acabou. Fiquei sabendo que ela tinha se tornado então uma justa, e tinha levado seus parentes e namorado com ela. Mas, pela segunda vez, nos poucos minutos que restaram, fiquei observando meus colegas. Vi que os mesmos sorrisos vazios permaneciam nos rostos daqueles que vieram mais cedo me agradecer pelo toque que eu dei.

Foi então que eu percebi que até o injusto reconhece a justiça, mas é preciso se incomodar com a própria injustiça para ser justificado.

Ninguém aceita algo que sabe que não merece de forma alguma receber, se não reconhecer que precisa daquilo mais do que o próprio ar que respira para sobreviver.

segunda-feira, junho 06, 2011

O diário de Lot - O extraordinário (Parte I)


"sabendo que era justo e santo"

Eu tinha aprendido, como disse aqui na última vez, a não me acostumar com a rotina extraordinária que eu tinha. Por isso tentava, às vezes, fazer coisas mais comuns, apesar de saber que o comum hoje é não se importar, e quem se importa e faz alguma coisa, por menor que seja, já faz algo extraordinário. É o Autor que nos motiva a isso, por isso não temos motivos para nos gloriarmos. Sabemos de onde viemos e para onde vão as pessoas se a mensagem não as alcançar.

Pois bem (acabei divagando demais), estava eu um dia num encontro de um ano de formandos de meu curso. A maioria empregado, alguns fazendo mestrado, pós-graduação e tudo mais. Mas uma coisa em comum me chamava a atenção - todos, apesar de estarem bem-sucedidos, não pareciam felizes.

Aqui, vale abrir um parênteses. Por tudo que aconteceu comigo durante os anos da faculdade, e por ter sido o orador, fui chamado a dar uma palavrinha, fazer um discurso, naquela festa. Tentei fugir da responsabilidade, mas às vezes quando o Autor da mensagem tem um propósito para você, não adianta fugir, que você vai estar lá...e que o diga o homem que foi engolido por um grande peixe há milhares de anos. Daí então não teve como, tive que aceitar, porque foi por unanimidade da turma que fui escolhido.

Fui então me preparar, com um mês de antecedência, mas nada me vinha à mente para falar, três semanas, duas, uma...e lá estava eu, sem saber o que falar logo no dia da festa. Logo eu, que de alguma forma falei com todo tipo de gente, não conseguia pensar em nada para falar com pessoas que eu tinha convivido durante cinco anos da minha vida.

Fechando o enorme parênteses, eu consegui entender. Às vezes, precisamos observar o padrão para saber o que podemos falar para as pessoas. Até que o comum não parece ser tão ruim assim, quando ele é a catapulta que nos mova para o incomum, o extraordinário.

Ainda bem que tinha tido todo esse devaneio naquele momento, porque logo me chamaram para falar. Então, anda meio inseguro quanto ao que falar, subi ao palco, peguei o microfone, e comecei:

- Boa noite!

- Boa noite!  - responderam em uníssono meus colegas.

- É engraçado como o tempo nos ensina coisas e como, apesar de tão diferentes, somos todos iguais. E não é porque seguimos todos a mesma profissão - ouvi algumas risadas à minha frente - Quando cheguei aqui, vou ser bem sincero, não tinha a mínima ideia do que falar, mas, ao observar a turma, descobri o que tinha que ser dito. Acredito que o que vou falar pode desagradar alguns, ou todos, mas a verdade deve sempre ser dita, porque ela liberta, e às vezes para conquistar a liberdade temos que passar por algumas dores.
- Vocês notaram que todos aqui têm sucesso na vida? Quantas noivas e noivos, empresários e futuros especialistas e doutores temos entre nós, não é mesmo? Nossos professores ficariam orgulhosos. Mas o que me incomoda é como eu vejo pessoas comuns. Lembram-se de que um de nossos professores dizia que mediocridade não é sinônimo de ruindade? Ser medíocre é estar na média. O mundo anseia por pessoas extraordinárias.
- Imagino que vocês devem estar imaginando se não estou me contradizendo. Pois não estou. Sucesso não significa ser extraordinário. Extraordinária é aquela pessoa que, muito mais que uma herança gorda, vão deixar valores para seus filhos. É cedo ainda para a maioria de nós falar em filhos, e alguns talvez nunca os tenham (e eu não vou tentar entender o porquê disso), mas é preciso pensar em quem você é no mundo. O mundo clama por pessoas extraordinárias! E todos nós temos a capacidade de sermos essas pessoas.
- Como vocês sabem, tudo que aconteceu comigo foi porque Alguém me deu o presente de ser extraordinário. Eu, sem falsa modéstia alguma, reconheço que não tenho essa capacidade em mim mesmo, mas é Ele que me capacita! Ele me deu o presente de andar ao lado dEle todos os dias, não porque viu algo de bom em mim (nem mesmo potencial), ou porque Ele esperava algo em troca, mas porque Ele quis. Ele me amou e me quis ao lado dele mesmo sabendo que nunca eu teria a capacidade ou recursos necessários para retribuir o favor...

Continuei falando durante um bom tempo e desci, sem saber ao certo se tinha tido algum resultado, mas com a feliz sensação de dever cumprido. Uma antiga colega, dentre vários, veio me procurar para conversar. Ela aguardou todos os que queriam conversar comigo. Ninguém revoltado como eu esperava, mas todos agradecendo, dizendo que eu sempre fui bom em palavras, e blá blá blá.

segunda-feira, outubro 18, 2010

O diário de Lot - A apatia


"Eis que faço novas todas as coisas"

Antes de mais nada, gostaria de dizer: Estou vivo! Essa frase pode significar várias coisas para você ao longo desse desabafo, mas no momento só quero dizer que o meu sumiço não significa que morri.

Quando você passa por uma mudança radical de estilo de vida (no sentido de rotina mesmo), que foi o que aconteceu comigo desde que cruzei o caminho de Maria, tem-se a ilusão de que a vida será uma eterna aventura, sem nunca cairmos na rotina. Até que descobrimos que a própria aventura se torna uma rotina. Uma rotina mais agitada que as demais, com certeza, mas não menos rotina.

Pois bem, foi o que aconteceu comigo. Muitas outras histórias poderiam ser contadas aqui, com finais e lições diferentes para mim, mas o fato é que eu me acostumei com o que eu estava vivendo. Viver uma vida extraordinária estava se tornando cada vez mais ordinário, comum para mim.

Não que eu me orgulhe em dizer isso, mas o fato é que aconteceu. E em momento algum quis esconder as coisas que aconteceram comigo por aqui.

Alguns anos depois da formatura, com um emprego bacana em que podia continuar fazendo o que o Autor tinha me chamado para fazer, as coisas pareciam mais fáceis. Não para todo mundo de fora. Sempre tinha alguém que se encantava com as coisas que eu estava fazendo, com as vidas que continuavam sendo mudadas (engraçado isso, o Autor continua fazendo o que tem que fazer por meio de nós mesmo quando nós não estamos tão preparados e dedicados assim), mas para mim as coisas começaram a parecer normais. Eu não me esforçava tanto quanto no começo, e nem tinha mais medo de perseguição nenhuma, simplesmente fazia, com a maior naturalidade do mundo.

Mas ainda bem o Autor não nos deixa viver uma vida normal e apática por muito tempo. Se a ficha não cai naturalmente, ele bate no telefone até cair (essa frase me fez sentir muito velho porque sei que muita gente não vai entender, mas tudo bem).

Certo dia estava eu indo trabalhar quando encontrei um rapaz, o Matheus, em frente à banca onde costumo comprar o jornal. Ok, na verdade trombei nele e derramei o café que ele segurava. Coisas que são passíveis de acontecerem já que meu corpo levanta mais cedo que minha mente em dias úteis, mas enfim, o Matheus devia ter por volta de 18 anos e pelo visto tinha comprado o jornal para ver se seu nome estava na lista dos aprovados do último vestibular.

M: Ah cara, você está brincando comigo né? Venho aqui na droga da banca para comprar a porcaria do jornal e você derrama o café em mim, e no jornal?
L: Desculpa, de verdade, estava distraído. Vou te comprar outro café e outro jornal. Conhece aquele café ali da esquina?
M: Foi ali que comprei meu café.
L: Uma amiga minha trabalha ali, vou pedir um pano para ela para você se limpar.
M: Tá né, o que posso fazer.

Comprei o jornal que Matheus havia comprado e descobri que ele já tinha visto o que queria e, apesar do mau-humor matinal ter dito o contrário, ele havia passado na prova, e em uma excelente colocação. Chegamos ao café e me ofereci para trocar de camisa com ele, já que tinha manchado a dele, mas Matheus disse que estava indo para casa e que eu, claramente, estava indo trabalhar e precisaria da camisa limpa. Apesar de um pouco mais calmo, o mau-humor dele em uma situação como essa me deixou imensamente curioso.

L: Olha, eu sou provavelmente a última pessoa com a qual você quer conversar agora, já que estraguei seu dia, mas, desculpe-me a intromissão, porque você não está por aí saindo para comemorar sua aprovação?
M: Bem, sei lá, de repente parece que fiquei o ano todo estudando e abrindo mão de sair com os amigos e passar mais tempo com minha namorada, digo, ex-namorada, por nada.
L: Ela terminou com você por causa do tempo que você estava dedicando aos estudos?
M: Não, ela terminou porque disse que tudo estava muito monótono entre nós. Nós dois estávamos estudando para a prova. Ela também passou, pelo que fiquei sabendo. Mas na verdade nem é pelo término, que já tem três meses, que estou assim. É que isso que ela falou me afetou. Tipo...desculpa, mas e seu trabalho, não vai chegar atrasado?
L: Eu explico depois, não se preocupe, continue.
M: Ok, então, tipo, não era só no namoro que minha vida estava monótona, minha vida toda estava monótona. Sempre sonhei em entrar na faculdade e fazer esse curso e consegui de primeira, mas agora parece não fazer sentido nada disso. Tipo, só estudar a vida inteira para conseguir estudar mais para seguir um sonho que agora parece só mais um trabalho que vai me deixar na rotina de novo.
L: Você está certo de que é isso mesmo que quer fazer da vida?
M: Tenho, não tem outra coisa na vida que quero fazer mais. É difícil me expressar, mas parece que a vida é muita chata já que tudo se torna rotina um dia. O nosso grande sonho deixará de ser sonho e passará a ser cotidiano. E então teremos mais outro grande sonho e também se tornará rotina.

Iria dizer alguma coisa quando percebi que minha própria vida havia se transformado em uma rotina. Tudo, meu trabalho, a ajuda às pessoas, minha vida em casa, meus relacionamentos, tudo mesmo, uma grande rotina. Na minha mente tudo isso se passou tão rápido que Matheus nem reparou esse pequeno dilema que tive internamente. O Autor me lembrou que as coisas só não se transformam em rotina quando nós lembramos do propósito das coisas que fazemos. Há sempre novos desafios, novas conquistas, novos medos, mas Ele sempre está ao nosso lado para nos apoiar e nos dar força, nos fazer sair da rotina. Falei sobre isso com o Matheus, que logo procurou saber mais sobre o que eu estava falando e hoje vive no Caminho, junto com a antiga namorada, que ele soube reconquistar por sair da apatia.

E quanto a mim, bem, repito, estou vivo!

segunda-feira, junho 07, 2010

O diário de Lot - O amigo

"Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz um irmão"

Quando voltei da viagem para o país atingido pelo terremoto meu mundo pareceu ter desabado. “ E agora que estou de volta?? O que vou fazer??” Era o que parecia ter ficado gravado na minha mente e nunca mais iria ser apagado. Tinha aberto mão do emprego que sempre sonhei durante minha graduação e agora não sabia o que faria ao voltar para meu próprio país.

Ao mesmo tempo, os supostos seguidores da mensagem me cansavam cada dia mais. Era tanta hipocrisia, tanto veneno destilado com sabor de mel para as pessoas, que eu não conseguia ligar a TV ou mesmo assistir a algumas pessoas teoricamente falando da mensagem.

O mundo, enfim, não me parecia um lugar tão agradável para morar. Mas eu tinha que continuar vivendo, eu tinha muita coisa ainda para fazer, por mais que eu não conseguisse enxergar o que deveriam ser essas coisas.

Um dia, ao sair para distribuir currículos, encontrei com Marcos, um antigo colega, que também era seguidor da mensagem.

M: Ei Lot! Quanto tempo! Fiquei sabendo que você foi para aquele país do terremoto, é verdade?

L: Fui sim, como ficou sabendo?

M: Uma amiga minha chegou a pensar em ir, mas infelizmente ela tinha conseguido um excelente emprego e tinha acabado de começar, então não quis ir. Mas ela ficou sabendo que você ia, e me contou.

Eu fiquei em silêncio por alguns instantes, porque imaginei o quanto eu estaria melhor se não tivesse largado o meu próprio emprego perfeito, mas Marcos interrompeu meus pensamentos.

M: Mas eu disse para ela que você tinha chegado a comentar uma vez que tinha conseguido o emprego dos sonhos e provavelmente abriu mão dele para ir para lá. E foi exatamente isso que aconteceu não foi?

L: (suspiro) Foi.

M: Que bom te encontrar então Lot, estava indo nessa agência de emprego aqui perto, para buscar alguns currículos para uma vaga que surgiu na empresa do meu pai. E como sei que é na sua área, pensei que você poderia estar interessado.

L: Eu...eu estou muito interessado!

M: Então vamos comigo na empresa, que eu entrego seu currículo pessoalmente e te apresento, é até melhor.

L: Ok. (minha surpresa era tão grande que não conseguia sair de respostas monossilábicas).

Sempre fui um bom colega de Marcos e sempre ficamos sabendo das grandes notícias da vida um do outro, mas nunca parei para conversar de verdade com ele. No caminho para a empresa do pai dele, José, fiquei sabendo que eles tinham perdido tudo para um pseudo-seguidor da mensagem, que disse que toda a ajuda da empresa iria para uma obra social, mas na verdade ficou com todo o dinheiro e fugiu do país. Eles tiveram que recomeçar do zero e eu seria o primeiro funcionário contratado desde então, porque ele resolveu trabalhar em outro seguimento, onde meu trabalho poderia ser de grande utilidade. Quando cheguei fiz uma breve entrevista, sem nenhuma aparência de entrevista na verdade, e fui admitido.

Ao chegar em casa minha mãe disse para mim que sabia que eu não voltaria para casa desempregado, que eu estava com a fé surpreendentemente pequena para quem fazia coisas tão malucas como as que eu fazia. E disse para mim algo que nunca vou esquecer:

- É preciso mais fé para encarar o cotidiano do que para encarar os grandes desafios.

No dia seguinte, um sábado, Marcos me chamou para almoçar com sua família, e nós dois saímos para comprar algumas coisas para um churrasco.

M: Sabe de uma coisa Lot, meu pai, que é seguidor da mensagem, tinha prometido para ele mesmo que nunca mais iria contratar alguém que dissesse ser seguidor da mensagem. Mas resolveu contratar você, porque ele sabia que você era de fato seguidor dela.

L: Eu me sinto honrado, de verdade, mas você me conhece um pouco Marcos, eu não sou o super-herói que muitos imaginam que eu sou.

M: É exatamente por isso que ele te contratou.

Ao ver um ponto de interrogação gigante estampado em meu rosto, Marcos se justificou:

M: O cara que deu o golpe nele tinha tanta pinta de perfeito que meu pai nem desconfiou, sempre vivia falando em coisas boas, em como o Autor queria nos ver bem e sempre financeiramente esbanjando coisas, que meu pai nunca desconfiou. Eu nunca fui fã do cara porque ele dizia algo que eu nunca concordei, que é essa coisa de felicidade sempre na terra para os filhos do Autor. Eu sei que a vida tem momentos difíceis, e não é por isso que ela não é perfeita.

L: Posso dizer uma coisa?

M: Claro!

L: Estou cansado dos seguidores da mensagem, ou melhor estava. Estava cansado de ver que todos estão indo pelo caminho mais fácil quando O caminho na verdade é muito difícil. E fico tentando provar o contrário para meu amigo André, mas fica cada dia mais difícil.

M: Sabe, uma coisa que aprendi nesse período em que mal mal tínhamos dinheiro para comer, foi que esses caras também, por mais difícil que seja engolir isso, eles também são seres humanos que erram como nós. A mentira que eles pregam deve ser combatida veementemente, e se eles levarem isso para o lado pessoal, como é usual eles fazerem, o problema não é nosso, mas não podemos nos achar como as únicas pessoas fiéis à verdade na terra, porque senão cairemos no erro do orgulho e estaremos no mesmo patamar que eles. Temos que pedir ao Autor para livrar as pessoas das mentiras deles, e temos que pedir que eles mesmos sigam a verdade.

L: Mas essas pessoas dizem seguir a verdade, elas conhecem a verdade, e a distorcem para puro lixo, desviando as pessoas da verdade e levando-as ao caminho oposto do caminho.

M: Eu sei. Concordo. E pode ser que nem mesmo o próprio Autor tenha misericórdia deles no futuro, mas quem vai fazer esse julgamento é Ele. Devemos combater a mentira que eles pregam sem ofendê-los, sem parecer contra eles. Quem separa o joio do trigo é só Ele.

L: Verdade. Marcos, obrigado!

M: Porque?

L: Pelo emprego, pelo churrasco e pela sua amizade.

M: É muito bom saber que posso ser seu amigo Lot.

Era isso então, finalmente um amigo em meio a esse mundo confuso e que parecia estar virado ao avesso. Quem sabe um dia dois amigos se tornariam três, depois cinco, seis, sete, dez, até o dia em que a verdade seja dita e a mentira desmascarada?

Podia ser só um sonho, mas eu preferia acreditar nele já que me dava forças para seguir em frente.


Fonte da imagem: www.ghizoni.art.br

segunda-feira, janeiro 25, 2010

O diário de Lot - o grito dos desesperados (Parte II)


"O justo odeia a palavra de mentira, mas o ímpio faz vergonha e se confunde."

Resolvido com a instituição que seria uma oportunidade de ouro a ida de André, acertamos as passagens e nos preparávamos para ir para o país que foi assolado pelo terremoto. Admito que estava muito inseguro. Estava perdendo um grande emprego e meu chefe, ou melhor, antigo chefe, disse que estava cometendo um grave erro, mas que sabia que isso iria acontecer uma hora. Por outro lado, meus antigos colegas me deram apoio e ficaram louvando minha atitude. Eu sempre deixava claro que eu não podia fazer isso sozinho. O Autor movia isso dentro de mim. E isso não era nem um pouco de demagogia, eu sabia que realmente não era capaz de fazer o que estava prestes a fazer. Por mais que possa parecer o contrário por esses relatos, eu tenho muitas falhas, muitos erros. Sou longe de ser alguém bom, quanto mais alguém perfeito. A minha sorte é que o Autor é perfeito por mim, ele é muito mais que bom por mim.

Apesar disso tudo, fui muito contente contar a notícia para André de que tínhamos conseguido acertar a viagem.

L: Ei André!!
A: Pela empolgação só posso presumir que você conseguiu...
L: Isso mesmo! Animado?
A: Não é exatamente animador ir para um país todo destruído e cheio de pessoas sofrendo. Motivado, por outro lado, estou bastante.
L: Que bom! Partimos sexta-feira.
A: Ok, tenho três dias para me arrumar.
L: Dá, não dá?
A: Dá sim.
L: Então te vejo na sexta, tenho que acertar uns detalhes burocráticos ainda até lá.
A: Ok, até sexta então.
L: Até.

Os detalhes burocráticos que eu tinha que arrumar na verdade eram interiores. Eu ainda não estava no país que iria viajar, mas conseguia ouvir um grito. Um não, milhares de grito. Milhares de gritos juntos que soavam como um só grito ensurdecedor. Não era pesadelo, não podia ouvir de verdade, no sentido fisiológico da palavra, mas ouvia dentro de mim, nunca vou saber explicar exatamente o que eu sentia. O fato é que apesar de tudo eu ainda estava muito inseguro e cansado. As pessoas que se diziam seguidoras da mensagem cada vez mais se apegavam à ideia de que ser seguidor da mensagem significa não ter nenhuma dificuldade na vida. Se eles analisassem bem, o próprio Filho então não devia seguir a mensagem, afinal, Ele foi sacrificado da forma mais cruel possível em sua época e sociedade.

Obviamente, não deixava nada disso claro para André. Apesar de ser um grande amigo, minhas incertezas e inseguranças só fariam mal para ele. Ele iria dizer que confirmara a sua tese de que a mensagem não era verdadeira. Isso eu pensava antes de viajar, é claro.

Na sexta-feira, com tudo pronto, embarcamos no avião. No caminho André se mostrava com um brilho no olhar que eu nunca tinha visto antes nele. Resolvi iniciar um diálogo com ele.

L: Expectativa?
A: O que?
L: Esse seu olhar, é expectativa para o que irá acontecer lá?
A: Acho que sim, na verdade, nunca fiz algo de tão grande na minha vida. Sempre te admirei por isso. Talvez eu nem seja capaz disso. Isso é, você tem certeza de tudo, a minha vida é cheia de dúvidas.

Naquele momento vi que esconder dele minha insegurança causara o efeito contrário do que eu pretendia.

L: Certeza, na verdade, só tenho que vou morar com o Autor um dia.
A: O que você quer dizer?
L: Não sou nenhum herói André, sou apenas um ser humano. Também tenho medo e dúvidas.
A: Eu sei disso, eu lembro que você tinha medo naquela época da perseguição idiota contra você, mas mesmo assim você tinha certeza, não estou sabendo me expressar.
L: Eu não tinha naquela época e não tenho agora, mas sei que vai dar certo.
A: Porque?
L: Eu só sei.

Chegamos ao nosso destino e distribuimos cestas básicas, roupas, auxílio. André sabia um pouco de francês e conseguiu se comunicar mais do que eu. Ele gostava de me contar as histórias de superação daquela gente. Gostava de ver que estava sendo útil. Vivia me dizendo que iria levar esperança calado, porque só quem podia fazê-lo com palavras era a equipe dos seguidores da mensagem. Passamos duas semanas no país quando percebi que os gritos de desespero que ouvia eram como as mensagens de esperança de André. Eram gritos silenciosos. Gritos que ninguém podia ouvir, só ver. Ao me contar a história de uma criança que tinha perdido os pais e os irmãos no terremoto André disse que não entendia como o Autor podia deixar isso acontecer, mas de alguma forma alguém cuidava daquele menino. Mesmo em meio a tanto sofrimento e dor conseguimos levar algo que nenhuma comida ou roupa poderia levar - conforto. Dedicamos muito tempo a ouvir as pessoas, e André foi nosso tradutor pessoal.

No final da viagem conseguimos firmar um pacto com uma instituição local de assistência aos sobreviventes e nos comprometemos a continuar mandando ajuda. A alegria no rosto de cada criança, homem e idosos, mesmo sem saber se iriam um dia ter uma casa para morar de novo ou uma família para ser apoiado, nos dava esperança de dias melhores. Fomos para levar consolo e, no fim, nós é que acabamos por ser consolados.

Quando voltamos ao Brasil André disse logo de cara:

A: Tudo que aconteceu lá foi incrível. Nunca vou me esquecer dessa experiência. Quero continuar fazendo o bem, mas, como você mesmo já disse certa vez, isso não significa entrada para a casa do Autor. Ainda não consigo acreditar na mensagem, me desculpe.

Claro que aquilo me deixou profundamente chateado. Mas o fato de ver que André se abria mais para fazer coisas comigo me deixava com esperança. Acho que foi o grito silencioso dos desesperados que implantou isso em mim.

No fim os mensageiros impostores sumiram da mídia. A verdade prevaleceu. A compaixão humana, ainda que falha, foi mostrada mais que a pretensão de justiça de alguns.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

O diário de Lot - o grito dos desesperados


"A boca do justo é fonte de vida, mas a violência cobre a boca dos perversos."

Logo que minhas dúvidas sumiram e eu consegui entender a confusão que estava minha mente ocorreu um acidente terrível em um pequeno país da América Central. Foi o pior desastre natural ocorrido na história moderna da humanidade.

Junto com essa tragédia, foi inevitável que perguntas tradicionais sobre o Autor surgissem, como: "se Ele existe, porque deixou isso acontecer?"

Estou acostumado a ouvir isso. Qualquer tragédia humana, seja ela individual ou coletiva, leva a esses questionamentos. Mas também surgiram muitos que supostamente estão envolvidos com a mensagem para falar ao público. Eu esperava ver conforto e esperança saindo da boca desses homens, mas o que surgiu foi apenas julgamento e crítica. "Eles atraíram isso ao se envolverem com o Vodu", disse um deles. Outro chegou a dizer que o que aconteceu foi bom e proposital para que as pessoas se achegassem ao Autor.

O que aconteceu? Minha mente voltou a encher-se de minhocas gordas e emaranhadas umas nas outras. Que livro essas pessoas estavam lendo? Não seria o mesmo livro onde eu li "Exortamos vocês, irmãos, a que advirtam os ociosos, confortem os desanimados, auxiliem os fracos, sejam pacientes para com todos"?

Cheguei a um ponto onde fiquei cansado desse tipo de pessoas que dizem falar do Autor da vida e da mensagem que leva a vida e na verdade só espalham a morte. Morte, sim, porque ao dizerem algo que está totalmente contra aquilo que está na palavra da vida eles automaticamente estão pregando morte.

André veio falar comigo naquela semana.

A: E você ainda quer que eu acredite no Autor que você prega. No mínimo Ele é um autor desastrado que não percebeu quando esbarrou na terra e produziu aquilo ou Ele é um sádico e mimado que fica sacudindo, literalmente, as pessoas quando elas vão contra Ele.

Eu fiquei em silêncio por alguns segundos.

A: Ok, Lot, eu sei que você acredita nisso, e você é o mais próximo do que já consegui ver de bondade nesse possível Autor que você prega. Mas quando olho em volta não consigo ver mais nada.
L: Se você se basear em mim então realmente está perdido. (nós dois rimos um pouco). Sério. Eu estou chocado com o que aquele cara da TV disse. Eu sei que o que eu li é diferente do que ele falou. De fato eu não sei o que ocorreu naquele país. Não tenho explicação e não sei se há algum propósito em dizimar milhares de vidas. Eu não acredito que o Autor seja assim. Acredito, sim, que isso é consequência do desvio dos humanos do Caminho, mas não acredito que isso é culpa dos nativos de lá. Se é pra culpar alguém, então eu culpo a mim mesmo. Cada vez que menti, cada vez que deixei de fazer algo bom, foi um pequeno ato que no final resultou naquilo. Todos nós somos culpados, mas devemos mostrar compaixão àquelas pessoas. A propósito, fiquei sabendo de três instituições do caminho que já mandaram equipe e ajuda financeira para lá.
A: Eu não ouvi nada disso.
L: O bem não tem que ser exibido. Tem que ser feito.
A: Você vai fazer alguma coisa?
L: Entrei em contato com uma dessas instituições e disse que queria me voluntariar. Aproveitar que nos formamos agora, não vou perder aula.
A: Mas você conseguiu um ótimo emprego agora, cara!
L: Eu sei, mas eu não posso deixar de fazer alguma coisa. Principalmente depois de ouvir aquilo na TV.
A:Você é o único cara que conheço que faria algo assim pela mensagem, cara!
L: Não sou o único. Várias pessoas fizeram o mesmo. E eu faço isso pelo Autor, pelas pessoas de lá. Além do mais, os nativos de lá acabaram tendo que largar empregos, casas, famílias, os que sobreviveram. Só que não foi porque eles quiseram.
A: Você sabe que isso não vai me convencer a acreditar na mensagem, as contradições ainda são muito gritantes para mim, mas você acha que eu posso ir com vocês? Tipo, eu não sou corajoso igual a você de largar um grande emprego. Como ainda tenho um dinheiro guardado do estágio que fazia na faculdade e não estou empregado ainda...
L: Você está falando sério???
A: Claro que estou! Você acha que eu brincaria com uma coisa dessas?

André estava visivelmente constrangido, mas a disposição dele e a esperança de ajudar alguém era visível em seus olhos.

L: Você sabe que vamos levar ajuda e a esperança do Autor para eles certo?
A: Eu fico com a parte da ajuda, hehe.
L: Ainda não está tudo certo da viagem, mas assim que encontrar com o pessoal eu falo com eles e te passo uma posição, combinado?
A: Ok. Mas me fala mesmo, porque eu tenho que avisar para meus pais.
L: Ok

Apesar de minha revolta continuar pelo que via na TV e lia na internet em relação aos pseudoseguidores da mensagem, a disposição de André me dava esperanças.

Continua...

segunda-feira, agosto 17, 2009

O diário de Lot - Os poderosos


"Pois convinha que aquele, para quem são todas as coisas e por quem todas existem, conduzindo à glória muitos filhos, aperfeiçoasse pelos sofrimentos ao autor da salvação deles."

Depois do período de perseguição e do medo, passei por um período de intensa reflexão. Ao contrário do período do medo, não foi um período curto. Passei alguns meses refletindo seriamente sobre minha missão e sobre a mensagem sobre a qual tanto falava.

Continuei com as atividades na comunidade, tive algumas experiências bacanas com outras pessoas, mas ainda permanecia refletindo. Todos os que eu conhecia me diziam que estava consideravelmente mais calado que o habitual.

Fiquei pensando sobre porque de tantas pessoas que eu falei sobre a mensagem, aquelas com maior nível de instrução, com as quais falei logicamente sobre a mensagem, e aquelas que tinham maior poder, melhores condições financeiras, eram justamente aquelas pessoas que rejeitaram a mensagem. Porque uma prostituta aceitou tão prontamente a mensagem e um estudante universitário relutava em aceitar? Porque tantos líderes de comunidades que falavam sobre a mensagem eram contra mim? Estava eu fazendo alguma coisa errada? Não que eu achasse que as prostitutas, ou os mendigos, eram menos merecedores da libertação da mensagem que os outros, mas, pelo contrário, eu achava que por terem oportunidades iguais aqueles com melhores condições, seja físicas, materiais ou até mesmo morais, seriam os primeiros a aceitar a mensagem de bom grado.

Isso me intrigou durante muito tempo. Durante esses meses de reflexão o quadro se repetia, uma senhora de idade doente aceitou a mensagem, e um bem sucedido corretor de imóveis a rejeitou. Eu conhecia a mensagem, eu sabia que isso aconteceu com o autor da mensagem. Mas porque as grandes comunidades atraíam tantas pessoas em boas condições? Porque elas rejeitavam a minha mensagem e aceitava a deles? Não era a mesma mensagem? Não eram ambos, eu e os pregadores das grandes comunidades, apenas portadores da mensagem? Eu realmente deveria estar fazendo alguma coisa errada.

Um dia, um desses grandes líderes dessas grandes comunidades ouviu falar de mim, e de tudo o que eu tinha passado até então. Ele me convidou para falar à comunidade que ele liderava. Na conversa que tivemos ele me pareceu uma pessoa muito humilde e extremamente agradável. O trabalho que ele exercia lá era muito bacana, e, depois de mais reflexão, resolvi aceitar. Ele pediu que eu contasse o que eu já tinha feito, e, apesar de eu não gostar muito de fazer isso, acabei concordando com uma espécie de entrevista. Seu nome era Bruno.

Chegou o dia e eu estava lá, bastante apreensivo admito.

B: Boa noite a todos. Hoje estamos aqui com um convidado muito especial. Ele desenvolve um trabalho espetacular numa comunidade carente, e além disso já levou os mais diferentes tipos de pessoas a conhecer a mensagem. Passou por perseguição, mas hoje está aqui para nos contar um pouco de sua história. Lot, venha aqui!

Eu me senti bastante incomodado com a situação, em ser apresentado quase como um pop star, em ver tanta gente olhando para mim como se eu fosse o grande herói do mundo, mas subi.

B: Boa noite Lot!
L: Boa noite Bruno, boa noite a todos.

Boa noitee!! - Todos responderam

B: Lot, acredito que muito antes da perseguição que você sofreu, você já chamava uma certa atenção pelo tipo de trabalho que fazia. Você tem alguma preferência por falar da mensagem a algum tipo de pessoa?
L: Não, a mensagem é para todos os seres humanos do mundo. Se ela chegou até a mim e mudou minha vida acredito que pode mudar a vida de qualquer ser humano na Terra. Só que parece que alguns tipos de pessoas tendem a aceitá-la com mais facilidade.
B: Que tipo de pessoas?
L: Qualquer pessoa que tenha passado por algum grande problema na vida, ou cometido um grande erro, aparentemente indescupável para a sociedade, aceita melhor a mensagem do que aqueles que tem uma vida razoavelmente normal e sadia por assim dizer.
B: Porque você acha que isso acontece?
L: É uma coisa que venho me perguntando há alguns meses, desde que saí da prisão. Ainda não sei a resposta. O fato é que o próprio Autor da mensagem também enfrentou isso.
B: Então você acha que as pessoas, como você mesmo disse, que tem uma vida razoavelmente normal e sadia por assim dizer, nunca vão aceitar a mensagem?
L: Não, eu já tive experiências com pessoas bem sucedidas que aceitaram a mensagem. Mas isso acontece com uma frequência infinitamente menor que aqueles que realmente parecem precisar da mensagem. Talvez seja isso. Talvez as pessoas só queiram a mensagem quando precisam dela. Quando está tudo bem elas devem se achar auto-suficientes, e, portanto, não precisam da mensagem.
B: Então a mensagem é uma muleta que só serve para os fracos?
L: Não, ela não deveria ser isso, mas acaba sendo muitas vezes. O que vejo acontecendo com frequência é as pessoas usando a mensagem como muleta, mas depois acabam entendendo que mesmo que tudo esteja bem elas não são boas o suficiente para não precisarem dela. Elas não conhecem a mensagem sozinhas, mas de certa forma aprendem a amadurecer quando conhecem mais a mensagem. Acho que quanto mais as pessoas acham que estão perto de conhecer a verdade, e de serem independentes, mais elas se afastam da verdade mesmo.
B: Deixe-me ver se eu entendi. Aqueles que conhecem a mensagem conseguem ver que não são fortes o suficiente para andarem sozinhos, mas que não precisam de uma muleta, e sim de alguém para mostrar o caminho?
L: É, exatamente. Você captou bem o que eu disse. De nada adianta uma muleta se você não souber o caminho. Alguns podem achar que com a muleta estão na verdade ganhando uma bússola, mas com o tempo acabam por achar de verdade essa bússola e se livram das muletas. O problema com os fortes é que eles se acham tão independentes que, mesmo estando tão perdidos quanto os fracos, eles acham que podem achar o caminho sem a bússola ou alguém para guiá-los.
B: Ok, interessante nossa conversa. Vou mudar de assunto porque nosso tempo está acabando.

Bruno fez ainda algumas perguntas sobre o período de perseguição, e perguntou se eu alguma vez senti medo, ou vontade de desistir. Não tive medo de contar sobre a semana que conversei com Heitor. Mas no final das contas poucas pessoas vieram me procurar para falar comigo. Fiquei sabendo depois que muitos dos poderosos da comunidade falaram mal de mim, por acharem que eu falei mal especificamente deles. Foi numa conversa com o Bruno.

L: Como eu te disse, parece que os mais fracos ainda preferem a mensagem mais que os fortes.
B: É, você tem razão. É muito mais fácil oferecer uma bússola para quem tem certeza de que está perdido do que para aqueles que têm certeza de que estão no caminho certo, mesmo não estando.
L: É...Bruno, posso te fazer apenas uma pergunta?
B: Claro!
L: Porque apesar de negar a mensagem eles continuam frequentando essas grandes comunidades, como a sua? E porque eles não estão nas pequenas comunidades?
B: Olha rapaz, infelizmente eu tenho que admitir, aprendi muito com a entrevista que fiz com você, mais até do que já tinha aprendido com as cartas que você escreveu na prisão, do que com as coisas que eu sabia a seu respeito. Infelizmente temos falado de coisas que agradam aos ouvidos dessas pessoas, e é por isso que elas vem para cá. Existem exceções, ainda bem, mas muitas estão em busca de coisas para aumentar o ego delas. Eu pretendo mudar isso aqui. Ainda que muita gente talvez nos abandone, eu prefiro falar a mensagem que pode transformar vidas apesar de doer, do que fazer carinho com palavras doces que vão levá-las a um sofrimento eterno talvez. Muito obrigado Lot, muito obrigado mesmo.
L: Por nada Bruno, mas eu nem fiz nada, acabou que a sua entrevista resolveu uma confusão na minha cabeça que já estava me incomodando há alguns meses.
B: Você não precisa fazer nada Lot, você é um exemplo a ser seguido, mesmo com suas reflexões, até mesmo quando sentiu medo você deu um exemplo a ser seguido.
L: Sem falsa modéstia, eu realmente tenho muita coisa ainda a melhorar, e sei que não sou isso tudo que você e tantas pessoas acreditam que eu sou, mas muito obrigado. É bom saber que uma vida pôde ser mudada por um exemplo tão ruim quanto o meu. Me dá mais certeza que o exemplo do Autor da mensagem pode mudar centenas, milhares, milhões de vidas. Eu tenho que ir agora, muito obrigado novamente Bruno.
B: Obrigado você Lot, até mais.
L: Até.

Depois disso realmente consegui compreender que para que eu conhecesse a mensagem, o Autor teve que sofrer antes. E talvez as pessoas tenham que aprender com os próprios sofrimentos para entender o real valor da mensagem. Isso nunca me faria de desistir de levar a mensagem para todos e ter a esperança que todos a entendessem e a aceitassem, mas resolveu esse grande nó na minha cabeça.

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