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segunda-feira, dezembro 03, 2012

O Deus do impossível


Eu, sinceramente, não entendo o intuito das pessoas que dizem, em uma situação difícil, para consolar alguém, a frase: "Deus é o Deus dos impossíveis, Ele pode tudo, tenha certeza que tudo vai melhorar". Eu até entendo que muitas pessoas fazem isso com a melhor das intenções, mas as consequências da utilização desenfreada dessa frase podem ser devastadoras.

Para começar, Deus é sim, o Deus dos impossíveis, uma vez que tudo que é impossível ao homem apenas Ele PODE realizar. Mas Ele é também o Deus dos possíveis, e vejo isso como sua principal característica. Eu gosto de saber, inclusive, que Deus é o Deus que age no meu cotidiano, que segue as complexas leis científicas que Ele mesmo criou. Que valoriza sua obra.

Não pretendo invalidar os milagres. Até porque eu acredito, assim como o mestre C.S. Lewis, que "A mente que exige um Cristianismo sem milagres é aquela que se encontra no processo de rebaixar o Cristianismo a simples 'religião'". Entretanto, não acho que milagres são coisas que acontecem aos montes, como afirmam muitos por aí. Acredito que o milagre é uma coisa extraordinária, que acontece quando realmente nada do mundo natural pode mudar a situação. 

Logo em seguida vem a clássica afirmação, "Ele pode tudo". Sim, Ele pode tudo. Não significa, entretanto, que Ele vá fazer. E isso não quer dizer que Ele é mau, ou coisa do tipo, mas que a realidade que Ele vive e enxerga é bem diferente da nossa. Pode ser que o não fazer algo seja mais importante que fazer, e por isso Ele opte por agir assim. Ou pode ser que Ele tenha outros motivos, que nós nunca saberemos. O porquê não importa, o que importa é que da mesma forma que Ele pode fazer, Ele pode não fazer também, já que estamos falando de possibilidade.

Por fim, para fechar com chave de ouro, a frase termina com "tudo vai melhorar". Essa afirmação para mim é a maior manifestação do ego humano que pode existir. Sim, porque afirmar que tudo vai melhorar é se afirmar conhecedor do futuro e de tudo que vai acontecer nele. As coisas podem melhorar? Sim. Espera-se que elas melhorem? Com certeza! Mas afirmar que elas vão melhorar é afirmar algo sobre o qual não se tem controle. 

Não estou querendo ser negativista, pessimista, ou qualquer outra palavra nesse sentido que queiram falar. Não. Apenas sei das consequências desse tipo de frase. Em momentos de profundo sofrimento costumamos nos apegar a tudo que possa nos dar esperança, e essa frase é uma delas. Mas se algo der errado, se nosso sofrimento não terminar. Se o parente com câncer acabar morrendo no final, ou o casamento seja mesmo destruído, ou a demissão ocorra, enfim, se der tudo errado, existe a grande possibilidade da pessoa que ouviu a frase nem lembrar quem a disse, mas com certeza se lembrará da promessa que supostamente Deus fez. 

Acredito num Deus de impossíveis e de possíveis. Acredito num Deus que pode fazer ou não fazer o que quero. Acredito que as coisas podem melhorar, ou não. Acredito num Deus de graça. E sei que sua graça se manifesta de diferentes maneiras, não apenas nos dando o que queremos. Isso seria baratear e comercializar a graça. A graça pode se manifestar na força que temos em seguir a vida, mesmo após situações difíceis. Ela pode se manifestar em um livramento, revestido de resposta aparentemente negativa. Ela pode se manifestar de várias formas, inclusive nos dando o que queremos.

Não devemos, portanto, nos apegar a resultados, mas nossa verdadeira esperança deve residir na graça de Deus, que sempre irá se manifestar. Nossa verdadeira alegria deve vir de saber que nós não a merecemos de forma alguma, mas Ele sempre nos agraciará com ela. 

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Anotações de "Milagres"

Mais uma fantástica obra de prumor artístico e intelectual reservado aos gênios da literatura, como não poderia deixar de ser, em se tratando de Lewis

C.S. Lewis




"Para ele [o teísta], a razão - a razão de Deus - é mais antiga que a Natureza e dela deriva a ordem natural que, sozinha, nos capacita a conhecê-la. Para ele,  no ato do conhecimento a mente humana é iluminada pela razão Divina. Ela é libertada, na medida necessária, do imenso vínculo da causalidade não racional; é livre da necessidade de determinar esse vínculo pela verdade conhecida." - p. 41

"O Sobrenatural não é remoto e confuso. Trata-se de um assunto da experiência diária e de toda hora, tão pessoal quanto a respiração." - p. 70

"Nada parece contraditório até que se conheça o que é ordinário. A crença em milagres, longe de depender da ignorância em relação às leis da Natureza, só é possível na medida em que essas leis são conhecidas." - p. 78

"Se, de qualquer modo, for reafirmado que algo tão pequeno quanto a Terra é insignificante demais para merecer o amor do Criador, responderemos que cristão algum jamais supôs que o merecêssemos. Cristo não morreu pelos homens por eles serem dignos dessa morte, mas porque Ele é intrinsecamente amor e, por isso, ama infinitamente." - p. 85

"Por definição, milagres devem, de fato, interromper o curso habitual da Natureza, mas se forem reais devem, justamente por meio desse ato, confirmar ainda mais profundamente a harmonia intrínseca da realidade total." - p. 98

" Não é na Natureza, mas em Algo muito além dela que todas as linhas se encontram e todos os contrastes se explicam." - p. 104

"A liberdade criativa de Deus deve ser concebida de modo semelhante à do poeta: liberdade de criar algo coerente, concreto, com sabor próprio e inimitável." - p. 104

"Deus não precisava criar esta Natureza. Ele poderia ter criado outras, e deve mesmo tê-lo feito. Todavia concedeu existência a esta Natureza, então não há dúvida de que a menor parte dela existe para expressar o caráter que Ele escolheu lhe dar." - p. 104,105

"É preciso experimentar, mesmo que brevemente, a água pura de outro mundo antes de tomar consciência do sabor indescritível da corrente morna e salina da Natureza. Tratá-la como se fosse Deus ou como Tudo é perder toda a sua essência e prazer. Saia, olhe para trás e então verá...essa surpreendente cachoeira de ursos, filhotes e bananas; esse imenso dilúvio de átomos, orquídeas, laranjas, caranguejos, canários, pulgas, gases, tornados e sapos. Como pudemos pensar que essa era a realidade suprema? Como nunca pensamos que se tratava simplesmente de um cenário para o dilema moral de homens e mulheres? A Natureza continua sendo ela mesma, e não lhe ofereça adoração nem desprezo, mas vá ao seu encontro e a conheça." - p. 106

"Toda a essência do Hinduísmo, penso eu, permaneceria inalterada se você subtraísse o milagroso. O mesmo também é quase verdade quanto ao Islamismo. Todavia não se pode fazer isso com o Cristianismo, que é precisamente a história de um grande Milagre. Um Cristianismo naturalista deixaria de lado tudo que é especificamente cristão." - p. 108

"Os relatos dos 'milagres' na Palestina do século primeiro ou são mentiras, ou são lendas, ou são história. Caso todos, ou o mais importante deles, forem lendas ou mentiras, então as afirmações que o Cristianismo têm feito nos últimos dois mil anos são simplesmente falsas; mesmo que, sem dúvida, contivesse sentimentos nobres e verdades morais, assim como as mitologias grega e nórdica as contêm." - p. 124, 125

"Quem faz de sua religião o seu deus não terá Deus em sua religião." - Thomas Erskine de Linlathen, citado na p. 127

"Nós, que defendemos o Cristianismo, vemo-nos constantemente atacados pela verdadeira religião de nossos ouvintes, e não por sua falta de religião. Falemos de beleza, verdade e bondade ou de um Deus que é simplesmente o princípio de habitação interior de um desses três atributos; falemos de uma grande força espiritual que permeia todas as coisas, uma mente comum da qual todos somos partes, um reservatório de espiritualidade generalizada o qual podemos todos fluir. Iremos deparar com um amigável interesse. No entanto, a temperatura sobe quando mencionamos um Deus que tem planos e realiza atos notáveis, que faz uma coisa e não outras, um Deus concreto que escolhe, dá ordens, proíbe e tem caráter definido. Os ouvintes ficam imediatamente perturbados ou aborrecidos. Tal concepção lhes parece antiga, rude e até irreverente." - p. 128

"A natureza aperfeiçoada de qualquer coisas real é sempre, a princípio, um estorvo às nossas fantasias naturais, um intruso infame e pedante que interrompe a lógica de uma conversação que se desenvolvia maravilhosamente bem sem ele." - p. 134

"Ousemos dizer que Deus é uma Coisa específica. Outrora, Ele foi a única Coisa, mas Ele é criativo. Fez com que outras coisas passassem a existir. Ele não é, contudo, essas outras coisas que criou. Não é um 'ser universal'. Se fosse, não haveria criaturas, pois uma generalidade não pode criar nada." - p. 137

"Na linguagem do apóstolo Paulo, o propósito de nos despirmos não é fazer com que nossa ideia de Deus alcance a nudez, e sim que nossa nudez seja revestida." - p. 140

"Custe o que custar, Ele não deve ser concebido como uma generalidade sem traços característicos. Se Ele realmente existe, então é a coisa mais concreta que existe, a mais individual, 'organizada e minuciosamente articulada'. Ele é impronunciável não por ser indefinido, mas por ser definido demais para a inevitável falta de precisão de linguagem." - p. 142

"A Filiação Divina é, por assim dizer, o sólido do qual a filiação biológica é simplesmente uma representação esquemática na superfície." - p. 142

"Talvez devêssemos, acertadamente, rejeitar também grande parte do simbolismo do Antigo Testamento. Entretanto devemos ter certeza da razão de o fazermos: não é pelo fato de as imagens serem muito fortes, mas por serem muito fracas. A realidade espiritual suprema não é mais vaga, mais inerte, mais transparente que as imagens, e sim mais positiva, mais dinâmica e mais opaca." - p. 143

"Se precisamos de uma imagem mental para simbolizar o Espírito, é preciso representá-lo com algo mais sólido que a matéria." - p. 144

"Em toda parte, o grande acolhe o pequeno, e essa capacidade é praticamente a prova de sua grandeza." - p. 172

"Onde o Deus real está presente, as sombras desse Deus não aparecem, apenas aquilo com que as sombras se assemelham. Através de toda a sua história, os hebreus foram sempre desviados da adoração dos deuses da Natureza - não porque os deuses-Natureza fossem diferentes em todos os aspectos do Deus da Natureza, mas porque, na verdade, eram no máximo semelhantes, e fazia parte do destino daquela nação ser afastada das semelhanças para se aproximar do próprio Deus." - p. 178

"Deus jamais se desfaz de algo, a não ser do mal; jamais faz algo bom para depois desfazê-lo (...). Ele jamais se separará da Natureza novamente, e ela deve ser glorificada de todas as maneiras que essa união milagrosa exige." - p. 189

"Onde há um Deus cheio de propósitos e que tudo prevê agindo sobre uma Natureza totalmente interligada, não pode haver acidentes ou acasos, nada a que possamos nos referir como simplesmente." - p. 189

"A vida das Vidas que estava nele [Jesus] não odiou menos que nós esse castigo cruel [a morte] - odiou-o ainda mais. Por outro lado, só aquele que perde a própria vida a salvará. Somos batizados na morte de Cristo, e ela é o remédio para a Queda. A Morte, de fato, é o que alguns indivíduos chamam de 'ambivalente'. Ela é a grande arma de Satanás e também a grande arma de Deus. É sagrada e profana. Nossa suprema desgraça e nossa única esperança, aquilo que Cristo veio conquistar e o meio pelo qual Ele efetuou a conquista." - p. 192

"Eles [os milagres] proclamam que Aquele que veio não é apenas um rei, mas o Rei, o Rei da Natureza e nosso Rei." - p. 202

"A mente que exige um Cristianismo sem milagres é aquela que se encontra no processo de rebaixar o Cristianismo a simples 'religião'".  - p. 203

"(...) suspeito que nosso conceito de Céu como um simples estado de espírito relaciona-se com o fato de que a virtude cristã da Esperança enfraqueceu muito em nossos dias. Onde nossos pais , perscrutando o futuro, viram lampejos dourados, vemos apenas a bruma branca, informe, fria e imóvel." - p. 245

"O cristão não deve perguntar se este ou aquele acontecimento ocorreu em resposta a uma oração, mas deve acreditar que todos os eventos, sem exceção, são respostas à oração, no sentido de que, se atendidas ou recusadas, as orações de todos os aflitos, bem como suas necessidades, são todas levadas em consideração por Deus." - p. 274




sexta-feira, novembro 25, 2011

Milagres x natureza

"E no dia depois de terem comido do produto da terra, o maná cessou, e os israelitas não o tiveram mais; mas naquele ano eles comeram produtos da terra de Canaã." - Js 5:12


Esse versículo narra um período da travessia do povo de Israel pelo deserto. Deus não os abandonou, Ele enviava o Maná para que o povo fosse sustentado nas áridas e inférteis terras do deserto. Assim que o povo teve acesso aos recursos naturais, o maná cessou - o milagre acabou.

Deus criou o mundo de uma forma completa, e o guia pelas leis da física. Ele não criou esse funcionamento para poder transgredi-lo toda hora, por isso os milagres são tão raros. 

Se você criasse algo fantástico, certamente só usaria outro instrumento com o mesmo fim caso fosse estritamente necessário. Assim também é com Deus, Ele gosta de trabalhar por meio das leis que Ele mesmo criou. 

Isso para os seres humanos é algo muito positivo, por mais que o senso comum evangélico clame por milagres o tempo todo. 

O maná sustentou o povo judeu no deserto, mas não foram poucas as vezes que o povo murmurou, querendo voltar para a terra de seus escravizadores, os egípcios.

Estudiosos especulam que o maná tinha o gosto de mel misturado com azeite, o que pode ter sido um motivo pelo qual o povo reclamava tanto. O povo queria que o milagre se portasse como o natural.

Todos somos assim. Se pedimos pela cura de um doente, é porque o queremos livre daquela doença, ainda que a natureza não colabore. Se queremos um milagre financeiro, queremos viver bem, não queremos ter dinheiro apenas para as necessidades básicas.No fundo, no fundo, quando pedimos por um milagre, queremos que tudo volte ao seu estado natural.

O brilhante escritor C.S. Lewis afirma: "Que Deus possa modificar e, de fato, por vezes modifique o comportamento da matéria e realize o que chamamos de milagre faz parte da fé cristã, mas a própria concepção de um mundo comum e, portanto, estável, requer que essas ocasiões sejam extremamente raras."

Por isso, creio que devemos desejar que as leis naturais sejam cumpridas, ainda que isso significa algo contrário ao que queremos que aconteça muitas vezes, como é o caso da progressão de uma doença terminal para a morte.

Lewis afirma também:  "Tente excluir a possibilidade de sofrimento implicada pela ordem da natureza e pela existência do livre-arbítrio, e você descobrirá que excluiu a própria vida." Essa frase não poderia ser mais verdadeira. Não podemos viver de milagres, porque senão não viveremos de fato, não seremos livres.

Eu prefiro viver nas leis naturais de Canaã que mana leite e mel, do que no deserto à base de maná. Mesmo que gigantes venham me perturbar em Canaã, sei que Deus está comigo, e isso me basta.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Anotações de "Rumores de outro mundo"

Sempre me encanto com a escrita do Yancey. Normalmente ele fala muito sobre o ofício de escrever em seus livros, e eu deixo essas anotações só pra mim, mas pensei que outros escritores podem ler também essas notas e serem edificados como eu sempre sou.
Philip Yancey







“Conhecer as partes não é, necessariamente, um auxílio à compreensão do todo.” – p. 19

“Nos tempos modernos, parece que, quanto mais a luz da ciência lança sobre o mundo criado, mais uma sombra encobre o mundo invisível que há além.” – p.20

“A contrário das gerações passadas, muitos estão incertos sobre Deus e um mundo invisível. Mesmo assim, sentimo-nos ansiosos por algo mais.” – p. 33

“Permitimos que divindades substitutas, ou falsos infinitos, preenchessem o vácuo de nosso mundo desencantado.” – p. 34

“Um idólatra opta por coisas que podem ser intrinsecamente boas, às quais concede um poder que elas jamais deveriam ter.” – p. 35

“Pode-se escolher somente entre Deus e a idolatria. Não há outra possibilidade. Pois a aptidão para a adoração está em nós, e, ou ela se volta para o outro mundo, ou é dirigida para esse aqui.” – p. 36

“Percebi que o desejo natural não era inimigo do sobrenatural, e reprimir esse desejo não era a solução. Em vez disso, a fim de encontrar o caminho para a felicidade, precisei vincular os desejos a suas origens no outro mundo.” – p. 37

“De alguma forma, afeiçoara-me ao engano de considerar o mundo natural como não espiritual, e Deus como avesso ao prazer. Mas Deus inventou a matéria, afinal de contas, incluindo todos os sentidos de meu corpo, por meio dos quais sinto prazer. O natural e o sobrenatural não são dois mundos separados, mas diferentes expressões da mesma realidade.” – p. 38

“Visto que somos seres materiais, Deus precisa lidar conosco nesse nível. (...) Praticamente tudo que sabemos acerca do mundo sobrenatural chegou-nos filtrado através do mundo natural e comum – o que facilita o trabalho de céticos de desprezar ou não crer.” – p. 41

“Para crer, é sempre necessário o mistério da fé, pois Deus não parece interessar-se por fé obrigatória. (Caso se interessasse, Jesus, ressuscitado, teria aparecido para Herodes e Pilatos, não apenas para seus discípulos.).” – p. 43

“Não tenho desejo algum de fugir do mundo natural, a exemplo de gnósticos, monges do deserto e fundamentalistas que fogem da “mundanidade”. Tampouco nego o sobrenatural, o erro dos reducionistas. Em vez disso, quero juntar os dois, a fim de reunir a vida no todo que Deus planejara.” – p. 45

“(...) basta-me ler os Salmos para perceber que Deus quer que o amemos e honremos por meio da criação, e não `a parte dela.” – p. 46

“Para contemplar e apreciar todo o resto, reverenciar e consagrar, erguer uma expressão de louvor à criação muda – foram esses os papéis reservados para a espécie feita à imagem de Deus.” – p. 49

“Um Deus soberano que decide contra sua vontade máxima, que supervisiona um Universo com centenas de bilhões de galáxias e ainda dispersa atenção profunda às suas minúsculas criaturas – como posso compreender um Deus assim?” – p. 51

“É preciso haver atenção e esforço de nossa parte para atendermos à orientação ‘lembre-se do seu Criador’, pois o Criador retira-se silenciosamente para os bastidores. Deus não força, sobre nós, sua presença. Quando deuses inferiores nos seduzem, Deus se retira, respeitando nossa inexorável liberdade para ignorá-lo.” – p. 51

“Não ganho um novo par de olhos sobrenaturais que me possibilitam, de uma hora para a outra, ver o mundo com visão perfeita. A cada dia, a cada hora, a cada momento, devo exercitar meu chamado para consagrar a criação de Deus (...). Centelhas sagradas estão potencialmente aprisionadas em cada momento do meu dia, e, como agente de Deus, sou chamado a libertá-las.” – p. 52

“Se você pode viver um momento, consegue viver todo um dia, e o modo de viver um dia é, no final das contas, o modo pelo qual vive sua vida. Gasto tanta energia na busca de uma maneira correta de viver que deixo passar momentos específicos, que são, na verdade, o único modo de eu poder viver.” – p. 57

“Encontrar Deus é questão de viver cada momento da vida em sua plenitude.” Joan Chittister, citada na p. 58

“O objetivo da contemplação é ver a vida como Deus a vê: a união de dois mundos, e não uma divisão. Isso engloba tanto a prática de toda uma vida como os raros e isolados lampejos de revelação.” – p. 58

“Aquele que busca o que é santo olha para cima, seguindo os raios de sol até sua fonte.” – p. 58

“A vida na terra envolve um conflito entre impulso e moderação, entre nossa natureza arruinada e a imagem de Deus. Uma visão sagrada da vida requer a simples verdade segundo a qual aquele que criou a criatura humana tem em mente nosso bem acima de tudo.” – p. 59

“Nossa vida forma algum tipo de padrão, quer tenhamos providenciado isso quer não.” – p. 61

“De outro mundo, ele [Jesus] veio mostrar-nos como viver melhor nesse aqui.” – p. 63

“O abuso surge quando se considera o prazer um fim em si mesmo, em vez de um fator que aponta para algo mais.” – p. 64

“É necessário um par de olhos treinados para ver Deus em detalhes.” – p. 66

“Fui criada em um ambiente cristão onde, por precisar-se dar preeminência a Deus, não se permitia que o resto tivesse importância. Cheguei à conclusão de que, devido ao fato de Deus existir, tudo é importante.” – Evangeline Paterson, citada na p. 71

“O sexo pode envolver nossos corpos, mas, diferentemente de funções corpóreas como a excreção, o espirro e o soluço, ele também toca nossas almas – por mais precário e delicado que seja esse toque.” – p. 76

“Quando uma sociedade perde a fé em seus deuses, ou em Deus, poderes inferiores surgem para tomar o lugar.” – p. 77

“Todo homem que bate à porta de um bordel está procurando por Deus.” – G.K. Chesterton, citado na p. 77

“O sexo possui força combustiva suficiente para incinerar a consciência, além de votos, compromissos familiares, devoção religiosa e o que mais estiver em seu caminho.” – p. 78

“O poder do sexo continua vivo, mas poucos vêem nele alguma indicação daquele que o criou.” – p. 81

“(...) no sexo, assim como em todas as áreas da vida, nossa humanidade caída nos atrapalha e impede de realizarmos o ideal.” – p. 81

“Os cristãos mais exaltados se esquecem do fato de que Deus criou o sexo.” – p. 82

“Se a humanidade for o foco de sua religião, o amor romântico se torna um ato de adoração. Todavia, se Deus fez o objeto de sua religião, então o amor romântico se torna um indicador inconfundível, um rumor de transcendência tão alto como qualquer outro que ouvimos na terra.” – p. 88

“Não os vejo mais [os tabus sexuais da Bíblia] como regras caprichosas que visam a estragar nossas aventuras sexuais, mas sim como diretrizes que protegem algo extremamente valioso que só pode ser percebido em um relacionamento exclusivo e pactuado.” – p. 91

“A fidelidade estabelece limites nos quais o sexo ocorre sem restrições.” – p. 92

“Casei-me imaginando que o amor nos manteria unidos. Em vez disso, aprendi que precisava do casamento para ensinar-me o que significa o amor.” – p. 94

“O casamento como instituição social é arbitrário, flexível e aberto a novas definições. Mas o casamento na condição estabelecida por Deus é um assunto completamente diferente.” – p. 94

“Os cristãos devem continuamente progredir entre o deleite nas dádivas de Deus e a aflição pelas distorções do pecado.” Lewis Smedes, citado na p. 101

“O método de Deus para lidar com o mal é a cura, não a prevenção.” – p. 105

“(...) o mal aparece, com mais freqüência, tal qual um amigo perfumado.” – p. 105

“Deus deseja nos libertar; o mal tem a intenção de me escravizar.” – p. 107

“’Existem duas formas de ter o suficiente’, disse G.K. Chesterton; ‘uma é continuar acumulando sempre mais e mais. A outra é desejar menos’” – p. 108

“A liberdade humana permite-nos um ambíguo privilégio, que não é concedido ao resto da criação: nós podemos arruinar o equilíbrio da natureza (...). O planeta inteiro estremece ante os resultados de nossas tentativas de colocar a nós mesmos, e não a Deus, no centro da existência.” – p. 110

“Este é o amargo jugo do pecado. Por ele, abandonamos o leve e suave jugo de Cristo.” – Thomas Merton, citado na p. 110

“a crença no mal traz uma prova invertida da existência de Deus.” – p. 112

“Em vários momentos, a igreja insistiu com afinco no ‘pecado original’, ao mesmo tempo que ignorava uma graça original, na qual Deus providenciou a cura do pecado mesmo antes de ele ocorrer.” – p. 113,114

“(...) se a culpa moral for efetivamente um rumor de outro mundo, um sentimento dado por Deus de que algo está errado, nenhum embuste ou racionalização o fará desaparecer.” – p. 118

“No momento do pecado, considero o mundo como sendo meu, e não de Deus.” – p. 121

“ele [o pecado] afeta todos os que já nasceram. Os cristãos têm uma visão mais realista da humanidade, ao crer que os seres humanos falharam, estão falhando e sempre falharão.” – p. 121,122

“Hoje visualizo Deus não tanto como um policial, no andar de cima, vigiando cada movimento meu, mas como um espírito dentro de mim. Um espírito que me incentiva a compreender plenamente para que, antes de tudo, fui criado.” – p. 122

“Como criador do homem, Deus sabia como a sociedade humana funcionaria melhor.” – p. 129

“Ao contrário dos animais, temos a liberdade de dizer não a nossos instintos ruins. Ao fazê-lo, evitamos o que certamente nos causaria danos.” – p. 129

“Agradou a Deus, nesse aspecto, entrelaçar seus interesses com os nossos, de forma que, ao buscarmos sua glória, busquemos, real e efetivamente, nossos próprios e verdadeiros interesses.” – Matthew Henry, citado na p. 130

“Onde a lei vacila, o amor intervém.” – p. 130

“Se nossas ações forem verdadeiramente motivadas pelo amor que temos por Deus, agiremos de forma que não apenas agrade a Deus, mas também a nós mesmos.” – p. 131

“Meus pecados eram mais internos, condizentes com um escritor que passa a vida olhando para dentro de si.” – p. 132

“A insatisfação, o orgulho e a cobiça são pecados internos que crescem como fungo na escuridão, nos cantos úmidos da alma, nutridos por pequenas rejeições, uma leve paranóia e solidão – são esses os riscos ocupacionais da profissão de escritor.” – p. 134

“O pecado introduz um tipo de interferência estática na comunicação com Deus e, por conseqüência, ele nos desliga da verdadeira fonte de que precisamos para combatê-lo.” – p. 139

“A culpa merece minha gratidão, pois somente uma força assim tão poderosa pode empurrar-me a uma reconciliação com aqueles a quem prejudiquei.” – p. 141

“A falsa culpa ocorre quando uma pessoa se pune por não corresponder aos padrões de outras pessoas – podem ser os pais, pode ser a igreja, ou a sociedade. A verdadeira culpa ocorre quando uma pessoa não corresponde aos padrões de Deus.” – p. 142

“O sentimento de culpa só serve à função para o qual foi planejado, como um sintoma, quando nos pressiona em direção à cura.” – p. 142

“Um santo não passa de um pecador, só que mais arrependido que a maioria de nós.” – Benedict Groeschel, citado na p. 143

“A graça é um dom gratuito de Deus, e o arrependimento, o caminho a percorrer para chegarmos até ela.” – p. 144

“Deus não consegue evitar estender sua graça. O perdão, a reconciliação e o resgate definem a natureza de Deus.” – p. 150

“você só pode ser plenamente amado se for plenamente conhecido.” – p. 151

“Aprendi que Deus não fica nada surpreso com meu fracasso. Conhecendo-me melhor que eu mesmo, ele espera fracasso de minha parte. Sou mais pecador do que jamais imaginei – e também mais amado por Deus.” – p. 151

“Resgatar é assunto de Deus.” – p. 151

“É quando percebemos a sujeira, que Deus está mais presente em nós; é o próprio sinal de sua presença.” – p. 152

“Em psicologia, teologia e física, a linha que separa os dois mundos – físico e espiritual – é, na melhor das hipóteses, incerta.” – p. 158

“Fico maravilhado com a humildade de um Deus que nos confia prazeres que, como ele bem sabe, nos desencorajariam ou substituiriam todo desejo espiritual que pudéssemos sentir.” – p. 162

“O mundo físico, por mais atrativo que seja, tem seus limites.” – p. 163

“Para muitos, não é possível que Deus exista, a menos que se faça visível – e Deus não age segundo nossa vontade.” – p. 164

“Em resumo, creio não tanto porque o mundo invisível influencia este, mas porque o mundo visível sinaliza, mediante maneiras que me comovem intensamente, que um e outro se completam.” – p. 165

“O amor que experimentei nesse mundo me traz a convicção de que um amor perfeito não ficará satisfeito com a triste história desse planeta (...). O amor perfeito persevera até alcançar a perfeição.” – p. 165

“a sociedade atual não tem muito espaço para o conceito de um reino invisível, o qual nos exige lealdade a qualquer custo.” – p. 173

“Toda a matéria (...) passou a existir mediante o comando de Deus. Sua origem no mundo espiritual torna a história mais valiosa, e não menos. Ela existe porque Deus quis que existisse, nós existimos pela mesma razão.” – p. 176

“Não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais tendo uma experiência humana.” – Pierre Teilhard de Chardin, citado na p. 178

“Somos, mais precisamente, seres incompletos à espera de uma experiência completa, seres fragmentados à espera de unidade. Estabelecer contato com o mundo invisível, enquanto estamos na terra, inicia esse processo.” – p. 178

“O mesmo Deus que criou o mundo invisível o sustenta diligentemente.” – p. 180

“As duas palavras, visível e invisível, parecem distintas somente para aqueles de nós que possuem visão limitada.” – p. 181

“Assim embaixo, como em cima: inverter a ordem de duas palavras muda tudo (...). O derradeiro destino do mundo, como também o nosso, está sendo definido aqui e agora.” – p. 182

“Aqueles que não têm nenhuma possibilidade de sucesso no mundo visível, enfim, liderar o caminho para o Reino de Deus.” – p. 192

“Estremeço diante da intrepidez de Deus ao confiar tão grande tarefa – Deus fazendo seu apelo por nosso intermédio – a uma espécie notória em separar o belo do feio, o rico do pobre, os de pele escura dos de pele clara, homens de mulheres, fortes de fracos.” – p. 193

“Levar a atribuição de Deus a sério significa que devo aprender a ver o mundo ao contrário, tal qual o fez Jesus. Em vez de procurar pessoas que massageiam meu ego, vou encontrar aqueles cujos egos precisam ser massageados; em vez de pessoas importantes, de recursos que podem fazer-me favores, procuro pessoas com poucos recursos; em vez de  fortes, procuro pelos fracos; em vez de saudáveis, os enfermos.” – p. 193,194

“É entre os humildes, desprezíveis, oprimidos e rejeitados que o Reino de Deus finca suas raízes.” – p. 195

“Se o mundo é são, então Jesus é tão louco quanto o chapeleiro, e a Última Ceia é a festa do chá maluco. O mundo diz: Preocupe-se com sua própria vida; Jesus diz: Não existe esse negócio de sua própria vida. O mundo diz: Siga o caminho mais inteligente e seja um sucesso; Jesus diz: Siga-me e seja crucificado. O mundo diz: Dirija com cuidado – a vida que você salva pode ser a sua; Jesus diz: Quem procurar salvar sua vida, a perderá, mas quem perder sua vida por minha causa, a achará; O mundo diz: Lei e ordem; Jesus diz: Amor. O mundo diz: Tome; Jesus diz: Entregue. Levando-se em conta o que o mundo considera sanidade, Jesus é demente como um simplório. Qualquer um que pense poder segui-lo sem ser um pouco louco trabalha mais por uma ilusão que pela cruz. ‘Nós somos loucos por causa de Cristo...’, diz a Paulo, diz a fé – a fé de que, em última análise, a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria do homem, a insanidade de Jesus mais sã que a implacável sanidade do mundo.” – Frederik Buichmer , citado na p. 197

“muitas vezes parece que mal pratico a existência de Deus, quanto mais a presença dele.” – Irmão Lawrence, citado na p. 199

“Suas parábolas e discursos [de Jesus] ressaltavam um aspecto do dinheiro que se mostra uma verdade incontestável: você não pode levá-lo consigo.” – p. 200

“Por instinto, acumulamos dinheiro em cofres de aço e esconderijos secretos; ao dar, o libertamos, liberando graça em um muno de competição e balanços financeiros.” – p. 201

“Precisava ver o dinheiro pelo que ele é: um empréstimo concedido por Deus para que eu investisse no Reino dos céus, o único reino que paga dividendos eternos.” – p. 202

“Ninguém em sã consciência aceita alegremente o confisco dos próprios bens – isto é, a não ser que preveja ‘ bens superiores e permanentes’ em um mundo invisível; a menos que viva para Deus, na para si mesmo.” – p. 203 (sobre versículo de Hebreus 10:34)

“Enquanto uma pessoa pobre combate a inveja, uma pessoa rica luta contra a cobiça. O dinheiro proporciona um campo de batalha completo para o confronto de dois mundos.” – p. 203

“Os cristãos sustentam sua lealdade a outro mundo e, desde a época do Império Romano, esse fato vem despertando a suspeita e a ira tanto de governos como de outras religiões.” – p. 205

“A crença em outro mundo põe a tribulação sob uma ótica tão diferente que ele [Paulo] podia fazer uma lista de muitas calamidades pessoais e chamá-las de ‘sofrimentos leves e momentâneos.’” – p. 207

“A questão da dor parece trazer à tona uma bizarra inversão: dentre os escritores dedicados a esse assunto, os que mais sofreram tendem a reclamar menos.” – p. 207

“Se nos apaixonarmos muito pelo mundo, as aflições quebram de uma só vez o encanto.” – p. 208

“Confiar não elimina as coisas ruins que podem acontecer, apesar do que tenha despertado o medo originalmente. Confiar tão somente significa achar uma nova saída para a ansiedade e um novo fundamento para a segurança: Deus. Deixo que Deus se preocupe com os detalhes inquietantes da vida, visto que a maioria está, de qualquer forma, além de meu controle.” – p. 208

“Teologia significa olhar para o mundo a partir da perspectiva de Deus.” – Henri Nouwen, citado na p. 210

“Meu objetivo ao envelhecer, ao preparar-me para a morte, é preocupar-me cada vez menos em como os outros me vêem e, cada vez mais em como Deus me vê. Afinal, ficaremos muito mais tempo juntos.” – p. 211

“A graça significa que nenhum erro que cometemos na vida nos desqualifica para o amor de Deus. Significa que pessoa alguma está além da redenção, que nenhuma mácula humana é impossível de ser limpa.” – p. 213

“A graça é irracional, injusta, imerecida, e só tem significado se eu creio em outro mundo, governado por um Deus misericordioso, o qual sempre oferece outra chance.” – p. 213

“Quando o mundo vê a graça em ação, fica em silêncio.” – p. 214

“A vingança perpetua o mal. A justiça o pune. O mal só é vencido pelo bem se a parte ferida o absorve, recusando-se a permitir que siga adiante, e assim funciona a graça sobrenatural que Jesus demonstrou em sua vida e morte.” – p. 215

“Nossa cidadania deve estar nos céus, mas também ocupamos corpos feitos de pele, ossos, gordura e músculo, em um mundo material.” – p. 217

“Aqueles que investem suas esperanças em um mundo invisível deixam isso evidente por suas ações nesse mundo (...). Buscam não estar tão voltados para o céu, a ponto de não terem utilidade na terra, bem como não atentar tanto para a terra, a ponto de não terem valor para o céu.” – p. 218

“faça tudo o que fizer como se tivesse 1000 anos para viver e como se soubesse que pode morrer amanhã.” – Ann Lee, citada na p. 219

“O risco reside em nos sentirmos completamente à vontade na terra, sem estar ciente do outro mundo.” – p. 220

“A cidade deste mundo me bombardeia com sinais sensuais e atraentes. A cidade de Deus, por sua vez, é tranqüila, invisível e fugaz. Será que existe? Preciso estimular transmissões por sobre o abismo: orando, ouvindo.” – p. 220

“A pessoa sábia vive consciente tanto do tempo quanto da eternidade, simultaneamente um cidadão da cidade de Deus e da cidade desse mundo.” – p. 221

“Na criação, na encarnação, e em todos os atos sobre a terra, Deus torna o comum sagrado.” – p. 222

“O fato de [Jesus] aparentar ser radical, de ter sido morto por suas convicções, pode dizer mais a nosso respeito que a respeito dele.” – p. 228

“Os santos sobressaem porque se recusam a respirar esse ar [de luxúria, consumismo, egoísmo e ambição], a aceitar a mentira sem protestar. Procuram viver de acordo com as regras do mundo invisível, mesmo enquanto estão no mundo visível.” – p. 229

“O dom de nos entregar em total submissão a Deus é um sacrifício , no qual, longe de perder algo, ganhamos tudo e recuperamos em um posse mais perfeita, até aquilo que parecemos perder. Pois no mesmo momento em que nos entregamos a Deus, Deus se entrega a nós.” – Merton, citado na p. 230

“O melhor percurso de todos é crer em algo que é – a verdadeira aposta da fé.” – p. 234

quinta-feira, junho 16, 2011

Beleza cotidiana

"Os céus louvam as tuas maravilhas, Senhor, e a tua fidelidade na assembléia dos santos." - Salmos 89:5


Ontem, milhares de brasileiros olharam para o céu para ver o eclipse lunar. Eu também tentei ver, mas a lua estava escondida de mim ontem.

O céu estava lindo, e foi então que lembrei de como nessa vida corrida que o mundo leva atualmente quase nenhum de nós para um tempo para olhar o céu, admirar as árvores, ouvir pássaros cantando. Nós só nos atraímos por aquilo que é diferente, porque o cotidiano já é comum demais.

Às vezes temos a mesma atitude para Deus. Já pensou no quanto é extraordinário estarmos vivos? Ou como conseguimos trabalhar e estudar todos os dias? Ou como temos comida em nossas mesas? Mas como isso é tudo cotidiano, só enxergamos Deus em grandes milagres, em cultos na igreja. Não nos damos conta que tudo em nossa vida são pequenos milagres.

Se percebêssemos isso, talvez seríamos mais generosos e caridosos com os nossos próximos, não haveria pessoas passando fome e frio nas ruas. Talvez o mundo seria um lugar melhor.

Mas infelizmente nós preferimos ver o eclipse a ver o céu estrelado todas as noites.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Pequenos milagres


São quase 4 meses tratando a Marina*. Ela é cega, cadeirante e não fala. Não nos deixa encostar nela também, o que é muito ruim para seu desenvolvimento, já que o toque é uma das coisas mais importantes para o desenvolvimento de pessoas cegas.

De todos os desafios que encontrei na APAE ela definitivamente era o que eu achava que nunca iria superar. E olha que não eram poucos os desafios: uma linda garotinha portadora da Síndrome de Down, um garoto com uma tendência ao autismo e muita dificuldade para entender ordens, uma pequenina portadora da Síndrome de West e com hipotireoidismo, que também é cadeirante, não fala e tem muitas crises convulsivas durante as sessões e uma paciente com paralisia cerebral que não consegue se comunicar de forma satisfatória e que acaba de sair das fraldas aos 16 anos.

O trabalho com Marina se resume a trabalhar a questão da sensibilidade, tentando diminuir essa rejeição ao toque para que aceite melhor os alimentos e se comunique melhor com família e demais pessoas.

Como ela não aceitava o toque e a mãe disse que ela adora música, todas as nossas sessões sempre tinha um cd tocando ou o rádio ligado. A evolução era mínima.

Na última semana tinha colocado um cd que vi que ela gostou bastante, então coloquei de novo essa semana. Tocou a primeira música, a segunda, a terceira. Na terceira canção vi que o som emitido por Marina não era o tradicional choro enquanto eu trabalho com ela. Ela estava cantarolando a música anterior. Eu pensei estar maluca, então resolvi voltar para a música dois. E então aquilo que eu imaginava ser loucura se confirmou. Marina cantarolava, copiando perfeitamente o ritmo da música, agitando as mãos como se dançasse.

Pode não significar muito para algumas pessoas, mas a alegria estampada no rosto da mãe quando contei para ela o que aconteceu na terapia é, para mim, um milagre, pequeno para alguns, grande para Marina, para sua mãe, e para mim também.

* Nome alterado para preservar a identidade da paciente

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