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sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Difamação da graça

"Muitos seguirão seus ensinos imorais. E, por causa deles, Cristo e o seu caminho serão escarnecidos" - II Pedro 2:2

Não é à toa que dizem que a mensagem da Bíblia é atemporal, muitos são os versículos que se aplicam no nosso dia a dia, mesmo tendo sido escrito há milhares de anos. Esse versículo é um deles.

O ser humano tende a errar, e alguns erros do passado, depois de encobertos pela história, acabam sendo repetidos em novas gerações. É certo que Pedro aqui no caso não está falando do presente dele, mas de algo que viria a acontecer, mas o apóstolo Paulo também já havia alertado aos seus irmãos os perigos dos falsos profetas.

Esse versículo pareceu saltar da Bíblia, gritando e com amplificador, no dia em que li. 

Eu me lembro que quando era mais nova, os ditos "crentes" eram conhecidos por sua postura rígida, pelo legalismo que eu quis tanto combater na minha adolescência. Crente era aquele cara que não ouvia nem contava piadas imorais, não bebia, não fumava, não tinha cabelo grande, etc. 

No quadro de hoje, os crentes das sociedades laicas não são mais repelidos como antigamente. Eles entram na roda de amigos e, claro, às vezes é motivo de chacota por alguma razão. 

Não é que eu queira que aquele padrão moral/legalista volte, mas hoje os imorais têm espalhado uma má fama sobre o evangelho verdadeiro.

Quando pensam no estereótipo crente, as pessoas hoje logo citam casos dos "pastores" que usufruem da sua posição de poder para praticar todo tipo de crime contra as pessoas. Pensam em gente materialista, que vai em busca de Deus por aquilo que Ele pode dar. 

Penso que, quando as pessoas tentam inventar um evangelho baseado no que acham correto, acabam criando esses extremos. A graça, que é destrinchada ao longo de toda a Bíblia, sempre nos levam ao equilíbrio. O certo e o errado existem sim, ao contrário dessa teologia liberalista de hoje. Mas não é algo baseado nos padrões que o legalismo quer exigir. A graça respeita quem somos, nossa cultura. Mas ela nos transforma em pessoas aptas a fazer o nosso melhor com aquilo que somos. 

O sacrifício de Jesus não pode ter sido em vão. Nós não podemos deixar esses imorais difamarem a maravilhosa graça do evangelho verdadeiro. 

Podemos ser apenas um grão de areia, mas tenho a esperança que, se alguns virem em nós o evangelho verdadeiro, a graça, já terá valido à pena, mesmo que o quadro geral não mude tanto quanto gostaríamos.

Que a graça incorruptível de Cristo continue conosco!


sexta-feira, setembro 30, 2011

Sem medo da verdade



"disse: Ó filho do Diabo, cheio de todo engano e de toda maldade, inimigo de toda justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor?"  -At 13:10
Uma das coisas que eu admiro no apóstolo Paulo (sim, porque são muitas) é a coragem de não se calar em meio à injustiça, onde quer que ela esteja.

Ele primava pelo evangelho e por Cristo, desde que este se revelara a ele, e confrontava àqueles que tentavam perverter essa mensagem, da mesma forma que ele não tolerava os cristãos, antes de sua conversão, por acreditar que eles iam contra a palavra de Deus.

Infelizmente muitos têm se calado frente às perversões do evangelho nas igrejas, por colocarem homens como autoridade absoluta na Terra, a despeito do que a Bíblia diz.

Precisamos de mais corajosos como Paulo, que denunciem essas pessoas como enganadoras, independentemente de quais sejam as consequências dessas denúncias para sua própria vida.

Antes defender o evangelho do que os homens, porque a graça nos foi dada por Deus, não por suas criaturas.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Generosidade sim, necessidade não!

"E os discípulos, cada um conforme suas posses, resolveram enviar ajuda aos irmãos que habitavam na Judeia" - At 11:29




Hoje em dia é muito comum ver pastores desafiando os cristãos a doarem generosas ofertas para a o reino de Deus.

Acredito que os cristãos devem ter um coração liberal, para ajudar financeiramente causas que necessitem de nossa ajuda e até acho válido que eles sejam alertados eventualmente sobre essa questão a fim de evitar o amor ao dinheiro e o esquecimento de que ele também é fruto da graça de Deus em nossas vidas.

Entretanto, me deixa preocupada o modo como isso tem sido feito. Não são poucos os casos de irmãos que contraem dívidas, vendem posses, chegando até a causar conflitos com parentes não cristãos, por conta dessa irresponsabilidade.

Esses versículo de Atos nos convida ao equilíbrio; ajudemos nossos irmãos, segundo as nossas posses. Se Deus nos tocar para que façamos o sacrifício de cortar algumas despesas fúteis para que ajudemos ao reino, que o façamos, mas nunca além disso, pois isso seria também desprezar a graça de Deus, que nos concedeu dinheiro para o nosso próprio sustento, para que não precisemos depender de outros seres humanos.


sexta-feira, junho 17, 2011

Muito mais que a teologia da prosperidade

"Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro" - Mt 6:24

Muito se fala hoje sobre a teologia da prosperidade. O versículo acima é apenas mais um que refuta o que essa heresia prega.Mas algo interessante acerca dele são os dois exemplos de porque não podemos servir a Deus e ao dinheiro.

O que Jesus quis dizer foi que não é preciso idolatrar o dinheiro, como os enganadores (e os enganados) da teologia da prosperidade fazem, mas dar prioridade ao dinheiro ou às coisas que levam a ele também se constitui pecado.

É claro, precisamos almejar um emprego bacana para nos sustentarmos e constituirmos família (ou sustentar a que já temos), mas nesse mundo capitalista a tendência de ficarmos pensando nisso com frequência é muito grande. A tendência de priorizar isso é muito grande.

Jesus dava tanta importância a esse tema que passou todo o restante do capítulo 6 de Mateus, no Sermão da Montanha, falando sobre isso, sobre não ficarmos  ansiosos quanto a essas coisas.

Servir a Deus e não ao dinheiro significa também confiar nEle, ainda que as circunstância indiquem que nada dará certo - a perda de um emprego ou a busca mal sucedida por ele por meses a fio, uma doença ou a insegurança de um novo emprego - enfim, qualquer circunstância terrena que nos leve a pensar que não haverá dinheiro suficiente para arcarmos com as nossas necessidades.

Não é tarefa fácil, mas Cristo está conosco, e é Ele que opera tanto o querer quanto o efetuar. Além disso, ignorar esse assunto é ficar na mesma categoria de pecadores onde estão os seguidores da teologia da prosperidade.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

As sementes que caíram entre as rochas


"Outra parte das sementes caiu num lugar onde havia muitas pedras e pouca terra. As sementes brotaram logo porque a terra não era funda. Mas, quando o sol apareceu, queimou as plantas, e elas secaram porque não tinham raízes (...) As sementes que foram semeadas onde havia muitas pedras são as pessoas que ouvem a mensagem e a aceitam logo com alegria, mas duram pouco porque não tem raíz. E, quando por causa da mensagem chegam os sofrimentos e a perseguição, elas logo abandonam a sua fé" - Mt 13:5,6;20,21

Há certos textos bíblicos que, talvez por terem sido ouvidos com frequência na infância de cristãos de longa data, são muito pouco pregados nos púlpitos de hoje em dia.

O interessante é que trechos como esses encontrados em Mateus 13 revelam verdades tão simples e ao mesmo tempo tão profundas, mas não são poucos os pregadores que preferem distorcer alguns trechos a pregar essas simples verdades.

Essas pregações tem produzido vários "cristãos" firmado em rochas, ao invés de formarem aqueles que são firmados na Rocha.

As palavras da famigerada teologia da prosperidade (e eu não poderia usar adjetivo melhor para descrevê-la) fazem as pessoas confiarem em Deus pelas "rochas" do sucesso financeiro, pessoal, profissional, da saúde perfeita, da vida sentimental bem resolvida, etc.

Essas pessoas se tornam evangélicas na doce ilusão de que agora em diante não existirão mais as palavras "sofrimento", "problemas" e "dificuldades" em seus dicionários.

O problema está nas raízes superficiais que são formadas, e logo o que parecia doce como mel se torna amargo como fel.

Então a realidade vem à tona. O sol continua aparecendo para justos e injustos. A morte assola inocentes e culpados com a mesma falta de piedade. E aqueles que criam em Deus por aquilo que ele oferecia, e não por causa de quem Ele é e do que Ele fez por nós, porque jamais ouviram falar sobre a graça salvadora e libertadora de Cristo, simplesmente desistem e viram sementes mortas. E aqueles que cobram para nos dar o que é de graça* se importam? Claro que não. Enquanto o número de fiéis continuar aumentando exponencialmente um outro que desistirem não farão diferença.

O objetivo primordial de cada pregador - e de cada um dos discípulos de Cristo, pregadores ou não - deve ser o de formar cristãos firmados em Cristo, com raízes profundas que só aqueles que conhecem a graça podem desenvolver, porque sabem que, apesar dos infortúnios da vida, Aquele que É continua sendo e, por isso, têm forças para prosseguir na caminhada sem se desviar do caminho.






*trecho retirado da música "Vou me lembrar", da Banda Resgate.

quinta-feira, setembro 10, 2009

O protestantismo atual

Hoje imaginei como um historiador no futuro descreveria a situação atual do protestantismo no Brasil. Acho que seria mais ou menos assim:

"Na época do Brasil colonial tivemos a chegada dos protestantes no Brasil principalmente pelos franceses na Guanabara e os holandeses no nordeste, mas a implantação definitiva desse movimento aconteceu na época do Brasil imperial.

As características principais do protestantismo no Brasil na metade final do século XX foram o tradicionalismo e o intenso ensino das escrituras bíblicas, além de um legalismo forte, e um período de evangelização em massa.

Acredito que o final do século XX e início do nosso século tenha sido o período negro do movimento protestante. De certa forma, ouso afirmar que o período inquisitório da idade média foi menos prejudicial à Igreja do que esse período.

Explico: na época da Inquisição, eram vendidas indulgências, vendidos terrenos no céu. No período que citei antes, os fiéis eram ludibriados pelos seus líderes, mas não por terrenos no céu. O auge da Teologia da Prosperidade foi marcado por escândalos financeiros na Igreja, e a enganação de muitos fiéis que acreditavam que doando determinada quantidade financeira (por vezes superior aos seus rendimentos) ganhariam prosperidade financeira na terra.

Ora, é "melhor ser enganado por querer o céu do que por querer a Terra.

Devido a esforços isolados em alguns pontos do País, principalmente marcado por manifestos virtuais, as novas gerações foram reconstruindo o cristianismo. Nem tão legalista, nem tão liberal. Obviamente o movimento segue com falhas, porque é feito por seres humanos imperfeitos, mas é notável termos conseguimos superar o movimento que quase destruiu séculos de luta pela implantação do protestantismo brasileiro."

Claro que não sei como será o futuro, mas gostaria muito que superássemos a Teologia da Prosperidade, o emburrecimento dos cristãos e todas essas máculas tão evidentes da religião atual.

É apenas uma esperança, mas "a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado."(Rm 5:5)E afinal, "a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?"(Rm 8:24b).





quinta-feira, fevereiro 14, 2008

O ensino plural e a Igreja atual


"O Programa Escola Plural (proposta político-pedagógica apresentada, em fins de 1994, pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte - SMED) altera radicalmente a organização do trabalho escolar com a instituição de novos tempos escolares tanto para os professores quanto para os alunos. Propõe o rompimento com os processos tradicionais e tecnicistas de ensino, que se baseiam na concepção cumulativa e transmissiva de conhecimentos; a eliminação dos mecanismos de reprovação escolar próprios da concepção seletiva e excludente de avaliação do ensino, faz críticas às relações unidirecionais em que apenas o professor avalia e tem esse poder e introduz, neste sentido, uma nova relação educativa onde todos avaliam todos. O Programa propõe modificar a relação dos sujeitos com o conhecimento, buscando novos significados para o conteúdo escolar numa perspectiva globalizadora e transdisciplinar."(1)

Esse foi um conceito mais formal que encontrei sobre a definição de escola plural. Na minha concepção, a escola plural nada mais foi do que uma estratégia para que Belo Horizonte ficasse reconhecida como "a cidade com mais crianças na escola - e aquela em que menos alunos repetem o ano".

O perigo dessa proposta é que as crianças realmente avançam as séries, porém, sem qualidade nenhuma. Conheço casos de alunos que chegaram à oitava série sem nem ao menos conseguir ler satisfatoriamente.

Sem um sistema que avalie (verdadeiramente) os alunos, sem reprovações, os alunos simplesmente se desinteressam pela educação, afinal, quer eles se esforcem para aprender, quer não, eles irão avançar para a próxima série e irão adquirir seu diploma.

Todos nós precisamos de alguém que nos lidere, que diremos então de crianças e adolescentes - no auge de seu desenvolvimento? Sem um líder podemos achar que mandamos em todos, e que temos direitos iguais aos de todos (mas queremos apenas os deveres que nos são convenientes).

Bem, até aí não há nenhuma novidade, mas o que isso tem a ver com a igreja atual (vocês me perguntam)?

Tem a ver, porque atualmente impera a teologia da prosperidade, onde praticamente nós nos tornamos deuses e temos direitos iguais aos de Deus.

Tem a ver, porque como deuses nós nunca somos reprovados, Deus nunca nos diz não, porque se disser nós nos afastamos dEle.

Tem a ver, porque se seguirmos a vontade de Deus ou não, Ele é misericordioso, e não nos mandará para o inferno por alguns errinhos não confessados.

Tem a ver, porque as pregações sobre bênçãos terrenas e prosperidade financeira lotam os templos, e ajudam os evangélicos a subir de número nas pesquisas.

Tem a ver porque excluimos o que é tradicional e correto, em trocas de ilusões agradáveis.

Só não tem a ver, porque depois de alguns anos foi comprovado que o ensino plural falhou e agora as escolas da prefeitura podem reprovar os alunos que não alcançarem a média estabelecida...

... e ainda não acabou a onda nas igrejas de "Deus tem que nos dar, somos filhos dele, herdeiros reais e blábláblá".

Obviamente, existem exceções. Meu pai, professor da prefeitura, recebe, com orgulho, notícias de ex-alunos aprovados no vestibular, em bons empregos, bem-sucedidos.

Assim também, há aquelas igrejas em que o cristianismo é mais pregado, e há pessoas interessadas em seguir os passos de Jesus (ainda que nada tenham nessa terra).

Infelizmente, esses exemplos ainda são exceções, e não regras.

Será que vamos ter que continuar produzindo "analfabetos cristãos" em massa, e ver que o fracasso está exposto demais, para tomarmos uma atitude e mudarmos de postura?

Eu sinceramente espero que não.


(1) Extraído e adaptado do site http://www.fae.ufmg.br/escplural/oqueescolaplural.htm

terça-feira, novembro 20, 2007

Outro Deus (parte 2)

por ed. René Kivitz

Chegou a minha vez de dizer que “Deus morreu, vocês mataram Deus”. Sei dos riscos. Dizem que gato escaldado tem medo de água fria. Mas alguns gatos não se dão por vencidos. Aliás, dizem também que gatos têm sete vidas. Que seja.

Tudo bem, posso atenuar um pouco, respeitando as pessoas que me querem bem e temem por mim. Temem que eu me comprometa em lutas quixotescas. Temem as retaliações que possa sofrer. E, na verdade, temem que eu perca o juízo e a fé. Nesse caso, dou um passo atrás e digo que um deus morreu em mim. E nasceu outro, que me seduziu com amor eterno. Por Ele me apaixonei.

O deus que morreu foi exaltado na sub-cultura da religiosidade evangélica brasileira. Basicamente, era um deus que (1) vivia de plantão para me poupar de qualquer tragédia, evitar meus sofrimentos, e abreviar as situações que me trariam qualquer desconforto; (2) prometia satisfazer não apenas minhas necessidades, mas também meus desejos; (3) estava comprometido a me favorecer em todas as minhas demandas contra os pagãos; (4) compensava minhas irresponsabilidades e ignorâncias em troca de minha fé; (5) manipulava todas as circunstâncias da minha vida como um tapeceiro que corta fios e dá nós no emaranhado do avesso do tapete, para revelar a bela paisagem ao final do processo, capaz de encantar todos aqueles que olham pelo lado certo. Enfim, morreu em mim aquele deus parecido com a figura idealizada de um super-pai, que levou homens como Freud, Nietzsche e Sartre a desdenharem da religião.

Esse deus morreu em mim porque se demonstrou falso. Isto é, ou não existia de fato, ou estava descrito de maneira equivocada, pois não precisamos ser muito sagazes para perceber que (1) o justo sofre, (2) o justo convive com frustrações, (3) os maus prosperam, (4) Deus não faz o que compete aos seres humanos fazer, e (5) não se pode conceber que Deus tenha decidido na eternidade que a missionária fulana de tal seria estuprada numa esquina de São Paulo, para cumprir um propósito, pois nesse caso, o estuprador está isento de responsabilidade.

Não é razoável a crença em um deus que coloca os seus fiéis numa bolha protetora contra toda sorte de dificuldades e possibilidades de dores. A Bíblia Sagrada registra que todos os homens que foram íntimos de Deus e cumpriram tarefas designadas por Ele sofreram, mais até do que muitos que deram as costas para Ele. Isso levou Santa Teresa de Ávila afirmar: “Se o Senhor trata assim os seus amigos, não se admira que tenha tantos inimigos”. Também não faz sentido o relacionamento com Deus motivado pelo interesse de suas bênçãos e galardões, pois isso faz com que Deus deixe de ser um fim em si mesmo e passe a ser um meio de prosperidade, isto é, passa a ser um ídolo a serviço dos fiéis. Igualmente incoerente é acreditar que a fé é suficiente para o êxito, pois ninguém passa no vestibular “pela fé”. Finalmente, não é sensato acreditar que Deus é a causa de tudo quanto acontece no mundo, pois nesse caso Deus estaria por trás de todo ato de maldade, levando o malvado a agir, de modo que ninguém seria culpado pelos seus atos.

Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis pelos seus destinos, ou não podem ser julgados moralmente.

Esse deus morreu. Mas sua morte fez ecoar uma pergunta no ar: Deus tem um favor especial aos nascidos de novo? Isto é, em relação aos não cristãos, os cristãos são tratados de maneira diferente pelo seu Deus? Minha resposta é sim e não.

Sim, porque por definição aqueles que se relacionam de maneira consciente e voluntária com Deus desfrutam de possibilidades que extrapolam os horizontes de vida daqueles que vivem como se Deus não existisse. A pergunta a respeito do cuidado especial de Deus não se refere a favoritismo ou acepção de pessoas, mas de algo inerente ao relacionamento. Algo como alguém perguntar se uma mãe trata diferente seus filhos em relação a outras crianças. É claro que sim, pois estão sob seus cuidados e sob sua autoridade. Mas, em tese, uma mulher que vive a experiência da maternidade trata todas as crianças com o mesmo senso de justiça e compaixão. E é justamente nesse sentido que Deus não faz qualquer distinção entre os que o reconhecem e os que o rejeitam: Deus faz o sol nascer sobre justos e injustos.

Mas então, qual foi o Deus que nasceu para ocupar o lugar do deus que morreu? Ou se preferir, para tornar a coisa um pouco mais prática, o que posso esperar de Deus?

(1) Sendo cristão, enxergo a vida com outros olhos. Experimentei a metanóia, que chamam de arrependimento, mas creio ser uma expansão de consciência (do gr. meta = além, e nous = mente). Vivo sob valores, imperativos, prioridades e propósitos diferenciados. Conhecer a Deus me faz andar na luz, na verdade, livre de pesos, culpas e máscaras, com a consciência e as intenções tão puras quanto um ser humano imperfeito as pode ter, e isso já basta para que minha vida dê um salto de qualidade imensurável.

(2) Recebo subsídios de Deus no meu “homem interior”, pois sendo verdade que “tudo posso naquele que me fortalece” aprendo a viver o contentamento em toda e qualquer situação. As promessas de Deus aos seus não dizem respeito ao conforto circunstancial ou à prosperidade aqui e agora, mas afetam a interioridade humana, por exemplo, com paz que excede o entendimento e alegria completa. Mais do que isso, a intimidade com Deus não faz a minha vida mais fácil, mas me faz mais humano, mais maduro, mais capaz de amar com a lucidez que escolhe as coisas mais excelentes, mais capaz de enfrentar com dignidade toda e qualquer situação.

(3) Sou integrado numa comunidade de cristãos que me abençoa na dinâmica da mutualidade. O socorro de Deus para minha vida chega pelas mãos dos meus irmãos. São os meus irmãos que me falam as palavras de Deus, repartem comigo seu pão, andam ao meu lado no vale da sombra da morte. Experimento a presença de Deus na comunhão com os filhos de Deus, vendo Deus na face dos irmãos.

(4) Tenho minha consciência e sensibilidades despertadas para o sofrimento da raça humana e a agonia do cosmos que sofre suas dores, de modo a receber um pouco do amor e da compaixão do coração de Deus em meu próprio coração, e acato a utopia do novo céu e da nova terra não como sonhos irrealizável, mas como promessa que motivas à ação toda vez que sou interpelado pelo Deus que me fala desde o clamor dos oprimidos.

(5) Vivo sob o olhar amoroso, poderoso e justo de Deus, que interfere em minha vida à luz de sua economia eterna, à seu critério, e isso é mistério da graça, isto é, não depende dos méritos dos beneficiados. Descanso no fato de que, apesar de Deus não ser a causa primeira de tudo quanto me acontece, não há qualquer coisa que venha me acontecer que esteja fora do seu conhecimento, controle e cuidado. É suficiente crer que toda vez que Deus opta por deixar a vida correr seu curso normal – e geralmente é isso o que Deus faz – nada pode me separar do seu amor, que está em Cristo Jesus meu Salvador.

Em síntese, morreu o deus que fazia de mim uma criança mimada, que chorava a cada desencontro da vida. Recebi revelação do Deus que me convida a crescer, para que Ele possa me receber como seu cooperador, seu amigo, alguém com quem Ele não tem segredos, e que encontra a felicidade não na vida confortável, mas na vida digna. Com a morte de um deus, morreu também uma espiritualidade. E nasceu outra, marcada pela graça, pela fé e pela resistência.

retirado do novo site do ed. René Kivitz: http://www.galilea.com.br

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