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quarta-feira, julho 09, 2008

Leite e carne espirituais



"Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições" - I Co 3:2





Estava pensando sobre esse famoso texto das escrituras um dia desses. É bem claro que leite espiritual significa as bases da fé, o início da caminhada cristã e a carne (alimento sólido) significa mais aprofundamento, mais entendimento.

Mas analisando a maioria de meus amigos, os teólogos que eu leio, e a minha própria vida, tive um vislumbre sobre algo diferente a respeito desse versículo. Todos (ok, 99,9%, não devemos generalizar) passaram por um momento de "legalismo" no início da fé. É como dirigir um carro. Em suas primeiras aulas de auto-escola você se preocupa mto mais com a teecnica do que com o trânsito em si. O instrutor tem que te alertar a todo tempo. Ou seja, é como se no inicio, ficássemos preocupados apenas em seguir as liturgias cristãs, as doutrinas que aprendemos (certas ou não, é outra questão). Ao avançarmos na fé, como no trânsito, passamos a focar o cristianismo em si. Viver o cristianismo livre do engessamento teológico, livres para seguir Jesus, adaptamo-nos a seguir as liturgias e doutrinas automaticamente, não precisamos mais viver por elas. E ao passar do tempo selecionamos aquilo que achamos correto ou não, se vivemos de acordo com a Bíblia.

O que me entristece é saber que, muitas vezes, o número de crianças espirituais só aumenta, e daí os pastores só oferecem leite espiritual, o que leva a aumentar ainda mais o número de crianças espirituais. É um ciclo perigoso. E na falta de carne, até mesmo os adultos se alimentam de leite.

Mas que eles gostariam de um bom churrasco, isso gostariam.


terça-feira, novembro 20, 2007

Outro Deus (parte 2)

por ed. René Kivitz

Chegou a minha vez de dizer que “Deus morreu, vocês mataram Deus”. Sei dos riscos. Dizem que gato escaldado tem medo de água fria. Mas alguns gatos não se dão por vencidos. Aliás, dizem também que gatos têm sete vidas. Que seja.

Tudo bem, posso atenuar um pouco, respeitando as pessoas que me querem bem e temem por mim. Temem que eu me comprometa em lutas quixotescas. Temem as retaliações que possa sofrer. E, na verdade, temem que eu perca o juízo e a fé. Nesse caso, dou um passo atrás e digo que um deus morreu em mim. E nasceu outro, que me seduziu com amor eterno. Por Ele me apaixonei.

O deus que morreu foi exaltado na sub-cultura da religiosidade evangélica brasileira. Basicamente, era um deus que (1) vivia de plantão para me poupar de qualquer tragédia, evitar meus sofrimentos, e abreviar as situações que me trariam qualquer desconforto; (2) prometia satisfazer não apenas minhas necessidades, mas também meus desejos; (3) estava comprometido a me favorecer em todas as minhas demandas contra os pagãos; (4) compensava minhas irresponsabilidades e ignorâncias em troca de minha fé; (5) manipulava todas as circunstâncias da minha vida como um tapeceiro que corta fios e dá nós no emaranhado do avesso do tapete, para revelar a bela paisagem ao final do processo, capaz de encantar todos aqueles que olham pelo lado certo. Enfim, morreu em mim aquele deus parecido com a figura idealizada de um super-pai, que levou homens como Freud, Nietzsche e Sartre a desdenharem da religião.

Esse deus morreu em mim porque se demonstrou falso. Isto é, ou não existia de fato, ou estava descrito de maneira equivocada, pois não precisamos ser muito sagazes para perceber que (1) o justo sofre, (2) o justo convive com frustrações, (3) os maus prosperam, (4) Deus não faz o que compete aos seres humanos fazer, e (5) não se pode conceber que Deus tenha decidido na eternidade que a missionária fulana de tal seria estuprada numa esquina de São Paulo, para cumprir um propósito, pois nesse caso, o estuprador está isento de responsabilidade.

Não é razoável a crença em um deus que coloca os seus fiéis numa bolha protetora contra toda sorte de dificuldades e possibilidades de dores. A Bíblia Sagrada registra que todos os homens que foram íntimos de Deus e cumpriram tarefas designadas por Ele sofreram, mais até do que muitos que deram as costas para Ele. Isso levou Santa Teresa de Ávila afirmar: “Se o Senhor trata assim os seus amigos, não se admira que tenha tantos inimigos”. Também não faz sentido o relacionamento com Deus motivado pelo interesse de suas bênçãos e galardões, pois isso faz com que Deus deixe de ser um fim em si mesmo e passe a ser um meio de prosperidade, isto é, passa a ser um ídolo a serviço dos fiéis. Igualmente incoerente é acreditar que a fé é suficiente para o êxito, pois ninguém passa no vestibular “pela fé”. Finalmente, não é sensato acreditar que Deus é a causa de tudo quanto acontece no mundo, pois nesse caso Deus estaria por trás de todo ato de maldade, levando o malvado a agir, de modo que ninguém seria culpado pelos seus atos.

Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis pelos seus destinos, ou não podem ser julgados moralmente.

Esse deus morreu. Mas sua morte fez ecoar uma pergunta no ar: Deus tem um favor especial aos nascidos de novo? Isto é, em relação aos não cristãos, os cristãos são tratados de maneira diferente pelo seu Deus? Minha resposta é sim e não.

Sim, porque por definição aqueles que se relacionam de maneira consciente e voluntária com Deus desfrutam de possibilidades que extrapolam os horizontes de vida daqueles que vivem como se Deus não existisse. A pergunta a respeito do cuidado especial de Deus não se refere a favoritismo ou acepção de pessoas, mas de algo inerente ao relacionamento. Algo como alguém perguntar se uma mãe trata diferente seus filhos em relação a outras crianças. É claro que sim, pois estão sob seus cuidados e sob sua autoridade. Mas, em tese, uma mulher que vive a experiência da maternidade trata todas as crianças com o mesmo senso de justiça e compaixão. E é justamente nesse sentido que Deus não faz qualquer distinção entre os que o reconhecem e os que o rejeitam: Deus faz o sol nascer sobre justos e injustos.

Mas então, qual foi o Deus que nasceu para ocupar o lugar do deus que morreu? Ou se preferir, para tornar a coisa um pouco mais prática, o que posso esperar de Deus?

(1) Sendo cristão, enxergo a vida com outros olhos. Experimentei a metanóia, que chamam de arrependimento, mas creio ser uma expansão de consciência (do gr. meta = além, e nous = mente). Vivo sob valores, imperativos, prioridades e propósitos diferenciados. Conhecer a Deus me faz andar na luz, na verdade, livre de pesos, culpas e máscaras, com a consciência e as intenções tão puras quanto um ser humano imperfeito as pode ter, e isso já basta para que minha vida dê um salto de qualidade imensurável.

(2) Recebo subsídios de Deus no meu “homem interior”, pois sendo verdade que “tudo posso naquele que me fortalece” aprendo a viver o contentamento em toda e qualquer situação. As promessas de Deus aos seus não dizem respeito ao conforto circunstancial ou à prosperidade aqui e agora, mas afetam a interioridade humana, por exemplo, com paz que excede o entendimento e alegria completa. Mais do que isso, a intimidade com Deus não faz a minha vida mais fácil, mas me faz mais humano, mais maduro, mais capaz de amar com a lucidez que escolhe as coisas mais excelentes, mais capaz de enfrentar com dignidade toda e qualquer situação.

(3) Sou integrado numa comunidade de cristãos que me abençoa na dinâmica da mutualidade. O socorro de Deus para minha vida chega pelas mãos dos meus irmãos. São os meus irmãos que me falam as palavras de Deus, repartem comigo seu pão, andam ao meu lado no vale da sombra da morte. Experimento a presença de Deus na comunhão com os filhos de Deus, vendo Deus na face dos irmãos.

(4) Tenho minha consciência e sensibilidades despertadas para o sofrimento da raça humana e a agonia do cosmos que sofre suas dores, de modo a receber um pouco do amor e da compaixão do coração de Deus em meu próprio coração, e acato a utopia do novo céu e da nova terra não como sonhos irrealizável, mas como promessa que motivas à ação toda vez que sou interpelado pelo Deus que me fala desde o clamor dos oprimidos.

(5) Vivo sob o olhar amoroso, poderoso e justo de Deus, que interfere em minha vida à luz de sua economia eterna, à seu critério, e isso é mistério da graça, isto é, não depende dos méritos dos beneficiados. Descanso no fato de que, apesar de Deus não ser a causa primeira de tudo quanto me acontece, não há qualquer coisa que venha me acontecer que esteja fora do seu conhecimento, controle e cuidado. É suficiente crer que toda vez que Deus opta por deixar a vida correr seu curso normal – e geralmente é isso o que Deus faz – nada pode me separar do seu amor, que está em Cristo Jesus meu Salvador.

Em síntese, morreu o deus que fazia de mim uma criança mimada, que chorava a cada desencontro da vida. Recebi revelação do Deus que me convida a crescer, para que Ele possa me receber como seu cooperador, seu amigo, alguém com quem Ele não tem segredos, e que encontra a felicidade não na vida confortável, mas na vida digna. Com a morte de um deus, morreu também uma espiritualidade. E nasceu outra, marcada pela graça, pela fé e pela resistência.

retirado do novo site do ed. René Kivitz: http://www.galilea.com.br

quinta-feira, setembro 06, 2007

You are the way, the truth and the life


Todo ser humano procura um caminho para seguir. No trânsito, temos que saber o caminho para onde queremos nos dirigir. Na vida, procuramos um caminho de vida pra trilhar. Afinal de contas, para todo lugar há um caminho. Precisamos seguir algum caminho. Não importa se ele seja confortável, uma “auto-estrada”, ou se seja uma estrada de terra muito rudimentar. Será que há um caminho?

Todos procuram a verdade. Tudo é relativo. Mas todos buscam por alguma verdade que não seja relativa. Algo em que confiar. Algo que possamos saber ser verdade. Verdade absoluta. Verdade que não muda ao longo do tempo e que não seja influenciada por diferentes linhas de pensamento. Apenas verdade. Em um mundo cheio de falsidade, hipocrisia, desonestidade por todos os lados, a única coisa que queremos é a verdade. Será que ela existe?

Não há ninguém que não procure a vida. Em face à morte não importa quanto se ganhou, quanto se lutou para conseguir bens. Queremos viver. Quando constatamos que não há mais chance de viver, refletimos exatamente sobre de que modo vivemos a vida. Morrer faz parte da vida. Mas enquanto pudermos ficar longe da morte melhor. A plenitude de vida é procurada. Viver não é suficiente, é preciso viver com qualidade. Desfrutar a vida. Aproveitar cada momento. “Carpe Diem”. Será que podemos ter essa vida?

Em resumo, a busca de todo ser humano é de um caminho, que o leve à verdade, que o permita conhecer o que é vida de verdade.

“EU sou O caminho, A verdade, e A vida(...)” – Jesus, em João 14:6

Em uma única frase, Jesus se ofereceu como resposta para três dilemas básicos da humanidade. Ele é o caminho que devemos seguir, a verdade que liberta e a vida com abundância que tantos almejamos. Permito-me ficar em silêncio diante disso.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Uma declaração cristã

por Ed René Kivitz

Meu impulso inicial foi chamar este post de “Resposta a Bento XVI”, mas logo desisti, pois seria atribuir demasiada importância ao pronunciamento do Vaticano. Chamo de “Uma declaração cristã” para ser coerente com o pensamento de que em tempos de pós-modernidade e pluralismo (que alguns confundem com relativismo) não cabem afirmações categóricas. O máximo que um cristão pode fazer é “uma declaração cristã”, pois a declaração cristã sugere a unanimidade entre os cristãos, o que certamente existirá apenas no céu.

O documento "Respostas a Questões Relativas a Alguns Aspectos da Doutrina sobre a Igreja" elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé e ratificado pelo papa Bento 16, afirma que "a única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica", cria a ocasião para uma declaração cristã.

Conforme bem advertiu Pierucci:

Não bastassem a arrogância fundamentalista da "Christian America" monoteísta do governo de George W. Bush e a truculência fundamentalista do monoteísmo intransigente dos aiatolás e talebãs, agora vamos ter pela frente, para completar, mais esta espécie do mesmo gênero: o fundamentalismo católico, que afirma o primado cristão da verdade católica no universo multicultural das igrejas cristãs agora declaradas "não-igrejas" ou "igrejas lacunares".[ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI, Folha de S.Paulo, 17 de julho de 2007]

Rejeitei, portanto, e de imediato o pronunciamento do Vaticano. Primeiramente porque poderia argumentar da legitimidade do protestantismo. Poderia advogar em favor do protestantismo, mas cairia no mesmo erro do Vaticano: reivindicar posse da verdade. Seria também vítima do equívoco que confunde o corpo místico de Cristo com as instituições que pretendem representá-lo na história.

Depois considerei afirmar que a verdade a respeito da fé cristã não se encontra nem no Catolicismo nem no protestantismo, mas nas Escrituras, ou na Bíblia Sagrada, compreendida como a coletânea de textos canônicos: a Lei de Moisés e os Profetas do Velho Testamento e os escritos apostólicos do Novo Testamento. Nesse caso, tanto o catolicismo quanto o protestantismo seriam apenas interpretações das Escrituras. Mas logo percebi que cometeria outro erro, a saber, confundir doutrina com verdade: tanto o catolicismo quanto o protestantismo articulam a fé cristã em termos dogmáticos e doutrinários, nos termos da modernidade com sua razão-mania que pretende fazer caber a verdade cristã em um conjunto de teorias filosófico-teológicas. Além de confundir doutrina com verdade, confundiria a experiência com o Cristo ressurreto com a apropriação intelectual das teorias que pretendem explicá-la.

Indo um pouco mais longe, considerei que a tentativa de estabelecer as Escrituras como lócus da verdade a respeito da fé cristã desconsideraria o fato de que a Bíblia Sagrada é uma realidade tardia à consolidação do cristianismo. De fato, havia no movimento cristão chamado primitivo um conjunto de escritos apostólicos, mas não eram considerados textos canônicos autoritativos como o são pela cristandade contemporânea. O Cânon bíblico é formado no quarto século da era cristã, de modo que já existia cristianismo antes que houvesse o que hoje chamamos Bíblia.

Considerei, então, que a verdade a respeito da fé cristã estivesse no testemunho da Igreja, que nasce no Pentecoste. A proclamação dos primeiros cristãos, os documentos gerados, e as experiências comunitárias seriam continentes da verdade. Mas nesse caso, deixaria o cristianismo e a obra de Cristo à mercê das contingências humanas, o que não me agrada, até porque não é o que leio nas Escrituras Sagradas, o que significa que nem mesmo os primeiros cristãos se compreendiam como protagonistas do movimento de Cristo.Fiquei com a mais conservadora das possibilidades: a única verdade a respeito da fé cristã encontra-se em Cristo. O cristianismo prescinde da Igreja, das Escrituras, do Clero, e de qualquer outra realidade que tenha a mínima cooperação humana para sua existência. A única coisa (perdoe o “coisa”) da qual o cristianismo não prescinde é de Cristo.

O cristianismo é obra do Cristo ressurreto e do Espírito Santo. Não é obra do catolicismo, nem do protestantismo. É Cristo quem edifica sua igreja. É o Espírito Santo quem guia a toda a verdade, sendo que o próprio Cristo é a verdade. É Cristo a verdade e é o Espírito Santo quem aproxima e une Cristo aos que são seus. Cristo está aonde as Escrituras ainda não chegaram. Cristo está aonde Igreja ainda não chegou. Cristo está aonde o testemunho da Igreja ainda não chegou.

Eis uma declaração cristã: "a única verdade da fé cristã encontra-se em Cristo".

quarta-feira, julho 25, 2007

Pela primeira vez chamados cristãos


" Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos" -Atos 11:26b

Estava lendo o livro de Atos quando me deparei com esse famoso versículo. Então eu pensei sobre porque antes dele, os discípulos não haviam sido chamados cristãos, uma vez que que já anunciavam o Evangelho em vários lugares e o Espírito Santo já havia sido derramado sobre a Igreja.

Achei muito interessante, em primeiro lugar, esse texto ser consecutivo ao texto onde Deus mostra a Pedro que não devemos tornar impuros aquilo que Ele mesmo purificou. É onde Pedro aprende que os gentios também podiam se tornar cristãos, e não apenas os judeus. E ele ensina isso para a Igreja que estava se formando. A partir do versículo 19, conta-se um pouco da Igreja de Antioquia. "Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão, chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia(...)" (v.19a). A Igreja havia passado por uma espécie de primeiro teste. Foram perseguidos e viram que poderiam morrer como Estêvão por pregar o evangelho. Viram que os que estavam dispostos a matar o próprio Jesus, estariam dispostos também a matar aqueles que anunciassem as Suas palavras.

Curiosa como sou não me contentei apenas com meus pensamentos e fui pesquisar em algumas Bíblas de estudo. As duas definições que mais gostei foram as seguintes:

"A nova Igreja em Antioquia era uma curisoa mistura de judeus, que falavam grego e/ou aramaico, e gentios. É significativo que esse seja o primeiro lugar onde os crentes em Jesus foram chamados e cristãos - 'aqueles que seguem a Cristo' - porque tudo que tinham em comum era Cristo; não se identificavam pela naturalidade, pela cultura nem pelo idioma. O amor de Cristo ultrapassa todas as fronteiras e une todas as pessoas"- Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal.

"Cristãos é uma transliteração do grego christianos, um nome simples, e muito provavelmente, alvo de escárnio, dado aos primeiros seguidores de Cristo (gr. christos) (...)" - Bíblia de Estudo Plenitude. Seria algo como o Jesus freaks, em sua origem.

Acho que não há mais o que falar. Agora entendi porque "em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos". Quero me tornar uma cristã como eles.

Fiquem com Jesus =)

quinta-feira, junho 21, 2007

Sem perder a alma

por Ricardo Gondim
A gente chega numa idade que parece já ter visto de tudo e do seu reverso. Em meus trinta anos de convívio entre os evangélicos, ganhei a sensação de que nada mais pode me surpreender.
Fui privilegiado de conhecer heróis e heroínas da fé; gente que para evangelizar, enfrentou o cinzento do sertão, a umidade inclemente da Amazônia e o frio gaúcho. Já me arrepiei com o denodo de pastores que sobem morros perigosos, com a persistência de rapazes que dedicam tardes de domingo visitando hospitais, presídios e sanatórios, com a ternura de mulheres que cuidam de orfanatos.
Contudo, do mesmo modo, testemunhei horrores praticados em nome de Deus, escandalizei-me com evangelistas escarnecendo de paralíticos, revoltei-me com a manipulação exagerada de falsos milagres. Espantado, presenciei missionários, ávidos por demonstrar o tamanho de sua unção, inventando manifestações sobrenaturais.
Depois de conhecer os bastidores de algumas igrejas evangélicas, percebi o risco de tornar-me cínico. Diante de tanta ambigüidade na esfera religiosa, eu poderia aprender a comportar-me como uma hiena, sarcasticamente rindo por dentro perante tanto paradoxo. Sei que é possível desdenhar de tudo o que se faz em nome de Deus. Confesso que às vezes dá vontade mesmo de zombar dos arroubos ufanistas daqueles que tentam me fazer embarcar em projetos megalomaníacos.
Depois de tanto perambular pelos corredores religiosos, pregando em Congressos e ouvindo conversas de corredor, conscientizei-me de que preciso guardar o coração. Infelizmente, convivo com tantos doentes espirituais, que também corro sério risco de me desumanizar. Sei que posso sucumbir à tentação de ganhar o mundo inteiro e, no processo, perder minha alma; posso despersonalizar-me só para ter alguma notoriedade denominacional.
Conheci líderes com traquejo nos palcos religiosos, mas que já não beijam seus filhos há tempo. Posso citar vários que nunca leram poesia, jamais contemplaram a beleza de um pôr-do-sol, não jogam bola com os netos e desconhecem a alegria de deixar-se conduzir por uma melodia calma; muitos esqueceram que é possível ouvir o inaudível no cicio de uma brisa.
Vez por outra, eu me flagro assaltado pelo farisaísmo, e com isso, dou de ombros para a vida em nome da minha instituição; também me apavoro comigo mesmo quando me vejo armando esquemas para conquistar mais reconhecimento; entristeço quando percebo que ambiciono ter o status de messias. Ah, como fui tardio em desconfiar que meu ambiente religioso fosse tão perigoso! Porque não me precavi do fermento dos fariseus, paguei um preço muito alto.
Para não asfixiar a alma, senti a necessidade de achar respiradouros onde pudesse renovar meu ser.
Assim, passei a ler diversificadamente. Aprendi a gostar de poesia, biografias, romances e crônicas. Hoje, sonho ao lado de mestres das metáforas como José Lins do Rego; compenso a crueldade do mundo, viajando pelos universos paralelos imaginados por gente como Tolkien, Gabriel Garcia Márquez e Rachel de Queiroz; refresco meu coração com a sublimidade poética do Vinicius de Moraes. Em minhas tristezas, sinto-me atraído pelos Salmos de Davi e por Fernando Pessoa.
Assim, procuro ritualizar minhas refeições. Hoje, almoço sem pressa. Assim, quero consagrar cada abraço que dou e recebo, e considerar meus presentes como sacramentos do cuidado de Deus. Como alquimista, busco transformar cada instante de minha breve vida, numa gostosa saudade.
Assim, desejo aprender a conversar despretensiosamente com meus amigos. Hoje, sei que preciso antecipar-me aos meus inimigos para poder oferecer-lhes um pedaço de minha paz e pedir que me ajudem a construir pontes em direção a eles.
Assim, anseio por ler a Bíblia sem a obrigação de conseguir tirar “verdades práticas” do seu texto. Tenho sede de meditar vagarosamente nas histórias, parábolas e ensinos dos dois Testamentos. Ainda hei de descobrir o que o salmista quis comunicar quando escreveu: “Provai e vede que o Senhor é bom”.
Assim, aspiro aprender a calar-me na presença de Deus. Hoje, quero exercitar-me na oração contemplativa. Reconheço que ainda engatinho nessa disciplina espiritual, mas anelo aprender o sentido mais profundo do batismo no Espírito Santo.
Eu já quis ganhar cidades, mas hoje tenho um projeto mais fascinante, luto com todas as minhas forças para cuidar do meu coração - dele saem as fontes da vida.
Soli Deo Gloria.
http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=71&sg=0&id=1477

terça-feira, junho 19, 2007

Nem 8, nem 80

por Paulo André

"O tolo cruza os braços e destrói a própria vida. Melhor é ter um punhado com tranqüilidade do que dois punhados à custa de muito esforço e de correr atrás do vento."
Ec 4.5-6 (NVI)

Neste livro, o Pregador (1.1) censura bastante as ações do tolo (indolente, negligente, simplório). Nestes dois versículos, o que é colocado em jogo são dois extremos da vida das pessoas. O trabalho em moderação é bom e aumenta a dignidade da pessoa. Mas, se está excedendo e domina sua vida, é fútil, pois um pouco com paz é melhor do que muito com tumulto. "Isto também é vaidade e correr atrás do vento."

Nem 8, nem 80. Nem tanto o céu, nem tanto a terra.

Pense nisso...

terça-feira, junho 12, 2007

A coisa mais linda do cristianismo

"Muitas vezes pensamos que, quando terminamos de estudar o um, já sabemos tudo sobre o dois, porque 'dois é um mais um'. Esquecemos que ainda temos de estudar o 'mais'". -Sir Arthur Eddington.
Essa bela frase retrata, infelizmente, a situação de Igreja no mundo. Temos nos esquecido de nos unir, e também temos esquecido de ver que a diversidade é algo que faz do corpo de Cristo algo magnífico. Imagine como a Igreja seria chata e monótona se houvesse apenas uma teologia e apenas um modo de crer.

Estava refletindo um dia sobre "minha teologia" (tenho feito isso muito ultimamente) e vi que cada amigo meu, cada teólogo, cada religião crê em coisas diferentes acerca de pequenas doutrinas. Tenho meus amigos revoltados (estou crendo e pensando muito semelhantemente a eles) com a situação da igreja. Existem também os entusiastas que querem ganhar o mundo inteiro pra Jesus. Existem os evangélicos que acham que os católicos todos vão para o inferno. Existem também os católicos que acham que os evangélicos vão para o inferno. Há doutrinas diversas com as quais não concordo, e exitem doutrinas que eu creio que muitos outros acham que é pura mentira.

Mas o mais lindo de tudo, é que todos aqueles que são cristãos de verdade - independente de credo, denominação ou religião - TODOS, sem exceção, creêm na história de um Deus todo-poderoso que se fez um simples carpinteiro, alguém que foi e continua sendo rejeitado por tantos, um homem que sabia que os homens não se manteriam fiéis no que Ele ensinou, sabia que os homens se dividiriam em doutrinas e religiões, tinha plena consciência que expulsou os mercadores do templo, mas depois de um tempo eles voltariam, sabia que a ganância tomaria conta de muitos corações, que muitos tentariam comprar a própria salvação, que a graça seria ignorada por tantos outros, que os homens continuariam julgando uns aos outros e que tudo aquilo que ele ensinou no Sermão da Montanha seria desrespeitado tantas vezes, enfim, que sabia que mesmo salvos, pecadores continuariam pecando, mas mesmo assim não desistiu de se sacrificar na pior das mortes, não desistiu de sentir todo o peso dos pecados da humanidade inteira sobre seus ombros e com isso ser abandonado pelo próprio Pai, já que a sua santidade não O permitiria entrar em contato com o pecado, mesmo que fosse para salvar seu filho, seu único filho.

O que me emociona é que mesmo eu sendo quem eu sou - e Deus me conhece até melhor do que eu mesma - Jesus viveu, morreu e ressuscitou por mim e, mesmo que eu fosse a única pessoa a viver nessa terra, Ele não hesitaria em fazer tudo da mesma maneira.

A Igreja tem muitos erros a serem corrigidos. Cada cristão verdadeiro deve assumir sua própria culpa nesse processo e lutar para voltarmos àquilo que Jesus acreditava (e ainda acredita) ser possível quando criou a cada um de nós enquanto membros de um corpo: uma Igreja santa, que revela seu amor àqueles que precisam dele (e todos precisam).

domingo, maio 13, 2007

Carta aberta a Sua Santidade, o Papa Bento XVI.

por Ricardo Gondim


São Paulo, 12 de maio de 2007.Sua Santidade,

Respeitosamente o saúdo com paz da parte de Deus.

Percebo-lhe feliz em sua visita ao nosso país; sinta-se bem vindo. Espero que acontecimentos de bastidores não lhe tragam constrangimento – sempre existem futricas privadas nas instituições humanas.

Alegrei-me também de perceber sua coragem em defender alguns princípios inegociáveis para a igreja católica como o aborto. Concordo que os fetos não podem ser considerados meros apêndices indesejáveis do corpo das mulheres, podendo ser extirpados sem critério.

Alegrei-me de vê-lo abraçando duas velhinhas magras e pobres - acredito que elas eram conterrâneas minhas. Sua Santidade não imagina como os idosos sofrem no Brasil. A grande maioria depende que seus familiares os acolham e, geralmente, são considerados um estorvo. Lembrei-me de minha avó, Sua Santidade, que viveu seus últimos dias abandonada sem afeto e sem atenção. Ela ficou cega, e porque vivia na casa de um tio muito mau, angustiou-se até a morte com o desdém e o abandono.

Alegrei-me quando vi Sua Santidade rodeado de sacerdotes de tradições religiosas não alinhadas à sua. No Brasil, nutríamos um medo muito grande que a lenha já seca da Inquisição, que Sua Santidade já presidiu, ardesse novamente. Regozijei-me pelo rabino sorridente que pediu sua bênção. Espero que ele se sinta perdoado, principalmente, depois do constrangimento de haver quebrado um dos Dez Mandamentos, e de ser preso nos Estados Unidos.

Permita-me dizer-lhe, com toda reverência, que fiquei muito, muito, triste com os termos que Sua Santidade se referiu aos evangélicos. Por favor, entenda-me, não estou com melindres. Eu mesmo tenho criticado bastante os evangélicos pelos seus sérios problemas doutrinários e pelas suas enormes dificuldades éticas. Longe de mim ousar corrigi-lo, papa Bento XVI, mas o termo “seita”, é sociologicamente anacrônico; ele comunica uma atitude preconceituosa em relação aos outros, por isso, o considerei despropositado para uma declaração pública, mesmo dirigida ao seu clero.

Entristeci bastante porque notei que Sua Santidade ainda repete o antigo pressuposto agostiniano de que “fora da igreja não existe salvação”. Não o censuraria, até porque reconheço a distância que nos separa - Sua Santidade lidera centenas de milhões de crentes e eu cuido apenas de uma comunidade local –, contudo, referir-se ao grupo religioso que mais cresce na América Latina como “seita”, revela a falta de sintonia dos seus assessores com os eventos daqui.

Permita-me – com toda reverência – fazer algumas considerações sobre o crescimento dos evangélicos neo-pentecostais:
1. Os evangélicos crescem porque conseguiram juntar o discurso doutrinário protestante com a simbologia mística que o catolicismo tanto difundiu no Brasil. Acredito que bispos e teólogos católicos terão enorme dificuldade para arrefecer a força dessa combinação. Saiba que existem similares evangélicos até mais fortes para as pílulas milagrosas do Frei Galvão – acredito que um erudito como o Papa Bento XVI não dá muito valor para pedacinhos de papel, em forma de pílula, com preces escritas que precisam ser engolidos para fazer milagre, também não acredito muito nessas coisas.


Os evangélicos agora se valem de rosas ungidas, copos d’água poderosos e dos vales com sal grosso para “amarrar demônios”. Parece-me que a máquina de criar símbolos é mais eficiente entre os neo-pentecostais até porque, todo dia, surge um novo objeto milagroso. Agora que a mensagem protestante foi adubada com a simbologia católica, o terreno ficou fértil.


2. Os evangélicos crescem, Sua Santidade, porque vêm de um começo belicoso – eles são filhos do fundamentalismo que reagiu fortemente ao “Liberalismo Teológico” da sua Alemanha. Os evangélicos aumentaram o número de fiéis porque, por muitos anos, enxergaram a igreja católica, como uma instituição adversária e partiram para cima dela.


Portanto, quando Sua Santidade os chama de “seita”, eles se sentem provocados e vão investir ainda mais contra os frágeis católicos nominais. Anote o que prevejo: a sangria dos católicos nominais continuará até depois de seu papado.

Oro a Deus que se esvazie a retórica antagônica entre nós, afinal de contas, trabalhamos pela mesma causa. Sua Santidade, sou amigo de alguns padres e, confesso: suas colocações me causaram desconforto; pareceu que em seu papado, antigas rusgas da Reforma recrudescerão.

Pior, achei que houve uma atitude desprezível da cúria do Vaticano em relação às pequenas igrejas como a minha, que lutam com tanto esforço para anunciar o Evangelho com integridade. Escrevo-lhe com carinho, em nome da harmonia entre os cristãos.


O conservo de Jesus,


Ricardo Gondim.


Soli Deo Gloria.

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