segunda-feira, agosto 17, 2009

O diário de Lot - Os poderosos


"Pois convinha que aquele, para quem são todas as coisas e por quem todas existem, conduzindo à glória muitos filhos, aperfeiçoasse pelos sofrimentos ao autor da salvação deles."

Depois do período de perseguição e do medo, passei por um período de intensa reflexão. Ao contrário do período do medo, não foi um período curto. Passei alguns meses refletindo seriamente sobre minha missão e sobre a mensagem sobre a qual tanto falava.

Continuei com as atividades na comunidade, tive algumas experiências bacanas com outras pessoas, mas ainda permanecia refletindo. Todos os que eu conhecia me diziam que estava consideravelmente mais calado que o habitual.

Fiquei pensando sobre porque de tantas pessoas que eu falei sobre a mensagem, aquelas com maior nível de instrução, com as quais falei logicamente sobre a mensagem, e aquelas que tinham maior poder, melhores condições financeiras, eram justamente aquelas pessoas que rejeitaram a mensagem. Porque uma prostituta aceitou tão prontamente a mensagem e um estudante universitário relutava em aceitar? Porque tantos líderes de comunidades que falavam sobre a mensagem eram contra mim? Estava eu fazendo alguma coisa errada? Não que eu achasse que as prostitutas, ou os mendigos, eram menos merecedores da libertação da mensagem que os outros, mas, pelo contrário, eu achava que por terem oportunidades iguais aqueles com melhores condições, seja físicas, materiais ou até mesmo morais, seriam os primeiros a aceitar a mensagem de bom grado.

Isso me intrigou durante muito tempo. Durante esses meses de reflexão o quadro se repetia, uma senhora de idade doente aceitou a mensagem, e um bem sucedido corretor de imóveis a rejeitou. Eu conhecia a mensagem, eu sabia que isso aconteceu com o autor da mensagem. Mas porque as grandes comunidades atraíam tantas pessoas em boas condições? Porque elas rejeitavam a minha mensagem e aceitava a deles? Não era a mesma mensagem? Não eram ambos, eu e os pregadores das grandes comunidades, apenas portadores da mensagem? Eu realmente deveria estar fazendo alguma coisa errada.

Um dia, um desses grandes líderes dessas grandes comunidades ouviu falar de mim, e de tudo o que eu tinha passado até então. Ele me convidou para falar à comunidade que ele liderava. Na conversa que tivemos ele me pareceu uma pessoa muito humilde e extremamente agradável. O trabalho que ele exercia lá era muito bacana, e, depois de mais reflexão, resolvi aceitar. Ele pediu que eu contasse o que eu já tinha feito, e, apesar de eu não gostar muito de fazer isso, acabei concordando com uma espécie de entrevista. Seu nome era Bruno.

Chegou o dia e eu estava lá, bastante apreensivo admito.

B: Boa noite a todos. Hoje estamos aqui com um convidado muito especial. Ele desenvolve um trabalho espetacular numa comunidade carente, e além disso já levou os mais diferentes tipos de pessoas a conhecer a mensagem. Passou por perseguição, mas hoje está aqui para nos contar um pouco de sua história. Lot, venha aqui!

Eu me senti bastante incomodado com a situação, em ser apresentado quase como um pop star, em ver tanta gente olhando para mim como se eu fosse o grande herói do mundo, mas subi.

B: Boa noite Lot!
L: Boa noite Bruno, boa noite a todos.

Boa noitee!! - Todos responderam

B: Lot, acredito que muito antes da perseguição que você sofreu, você já chamava uma certa atenção pelo tipo de trabalho que fazia. Você tem alguma preferência por falar da mensagem a algum tipo de pessoa?
L: Não, a mensagem é para todos os seres humanos do mundo. Se ela chegou até a mim e mudou minha vida acredito que pode mudar a vida de qualquer ser humano na Terra. Só que parece que alguns tipos de pessoas tendem a aceitá-la com mais facilidade.
B: Que tipo de pessoas?
L: Qualquer pessoa que tenha passado por algum grande problema na vida, ou cometido um grande erro, aparentemente indescupável para a sociedade, aceita melhor a mensagem do que aqueles que tem uma vida razoavelmente normal e sadia por assim dizer.
B: Porque você acha que isso acontece?
L: É uma coisa que venho me perguntando há alguns meses, desde que saí da prisão. Ainda não sei a resposta. O fato é que o próprio Autor da mensagem também enfrentou isso.
B: Então você acha que as pessoas, como você mesmo disse, que tem uma vida razoavelmente normal e sadia por assim dizer, nunca vão aceitar a mensagem?
L: Não, eu já tive experiências com pessoas bem sucedidas que aceitaram a mensagem. Mas isso acontece com uma frequência infinitamente menor que aqueles que realmente parecem precisar da mensagem. Talvez seja isso. Talvez as pessoas só queiram a mensagem quando precisam dela. Quando está tudo bem elas devem se achar auto-suficientes, e, portanto, não precisam da mensagem.
B: Então a mensagem é uma muleta que só serve para os fracos?
L: Não, ela não deveria ser isso, mas acaba sendo muitas vezes. O que vejo acontecendo com frequência é as pessoas usando a mensagem como muleta, mas depois acabam entendendo que mesmo que tudo esteja bem elas não são boas o suficiente para não precisarem dela. Elas não conhecem a mensagem sozinhas, mas de certa forma aprendem a amadurecer quando conhecem mais a mensagem. Acho que quanto mais as pessoas acham que estão perto de conhecer a verdade, e de serem independentes, mais elas se afastam da verdade mesmo.
B: Deixe-me ver se eu entendi. Aqueles que conhecem a mensagem conseguem ver que não são fortes o suficiente para andarem sozinhos, mas que não precisam de uma muleta, e sim de alguém para mostrar o caminho?
L: É, exatamente. Você captou bem o que eu disse. De nada adianta uma muleta se você não souber o caminho. Alguns podem achar que com a muleta estão na verdade ganhando uma bússola, mas com o tempo acabam por achar de verdade essa bússola e se livram das muletas. O problema com os fortes é que eles se acham tão independentes que, mesmo estando tão perdidos quanto os fracos, eles acham que podem achar o caminho sem a bússola ou alguém para guiá-los.
B: Ok, interessante nossa conversa. Vou mudar de assunto porque nosso tempo está acabando.

Bruno fez ainda algumas perguntas sobre o período de perseguição, e perguntou se eu alguma vez senti medo, ou vontade de desistir. Não tive medo de contar sobre a semana que conversei com Heitor. Mas no final das contas poucas pessoas vieram me procurar para falar comigo. Fiquei sabendo depois que muitos dos poderosos da comunidade falaram mal de mim, por acharem que eu falei mal especificamente deles. Foi numa conversa com o Bruno.

L: Como eu te disse, parece que os mais fracos ainda preferem a mensagem mais que os fortes.
B: É, você tem razão. É muito mais fácil oferecer uma bússola para quem tem certeza de que está perdido do que para aqueles que têm certeza de que estão no caminho certo, mesmo não estando.
L: É...Bruno, posso te fazer apenas uma pergunta?
B: Claro!
L: Porque apesar de negar a mensagem eles continuam frequentando essas grandes comunidades, como a sua? E porque eles não estão nas pequenas comunidades?
B: Olha rapaz, infelizmente eu tenho que admitir, aprendi muito com a entrevista que fiz com você, mais até do que já tinha aprendido com as cartas que você escreveu na prisão, do que com as coisas que eu sabia a seu respeito. Infelizmente temos falado de coisas que agradam aos ouvidos dessas pessoas, e é por isso que elas vem para cá. Existem exceções, ainda bem, mas muitas estão em busca de coisas para aumentar o ego delas. Eu pretendo mudar isso aqui. Ainda que muita gente talvez nos abandone, eu prefiro falar a mensagem que pode transformar vidas apesar de doer, do que fazer carinho com palavras doces que vão levá-las a um sofrimento eterno talvez. Muito obrigado Lot, muito obrigado mesmo.
L: Por nada Bruno, mas eu nem fiz nada, acabou que a sua entrevista resolveu uma confusão na minha cabeça que já estava me incomodando há alguns meses.
B: Você não precisa fazer nada Lot, você é um exemplo a ser seguido, mesmo com suas reflexões, até mesmo quando sentiu medo você deu um exemplo a ser seguido.
L: Sem falsa modéstia, eu realmente tenho muita coisa ainda a melhorar, e sei que não sou isso tudo que você e tantas pessoas acreditam que eu sou, mas muito obrigado. É bom saber que uma vida pôde ser mudada por um exemplo tão ruim quanto o meu. Me dá mais certeza que o exemplo do Autor da mensagem pode mudar centenas, milhares, milhões de vidas. Eu tenho que ir agora, muito obrigado novamente Bruno.
B: Obrigado você Lot, até mais.
L: Até.

Depois disso realmente consegui compreender que para que eu conhecesse a mensagem, o Autor teve que sofrer antes. E talvez as pessoas tenham que aprender com os próprios sofrimentos para entender o real valor da mensagem. Isso nunca me faria de desistir de levar a mensagem para todos e ter a esperança que todos a entendessem e a aceitassem, mas resolveu esse grande nó na minha cabeça.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Instrumentos da justiça, mesmo pecadores


"Não ofereçam os membros do corpo de vocês ao pecado, como instrumento de injustiça; antes ofereçam-se a Deus como quem voltou da morte para a vida; e ofereçam os membros do corpo de vocês a ele, como instrumentos de justiça" - Rm 6:13

Há alguns dias, logo após cometer um pecado, fui orar, bastante arrependida, e em seguida fui ler a Bíblia. Esperava encontrar palavras de advertência contra o meu pecado naquilo que estava programado em meu devocional diário. De fato encontrei, mas em alguns outros capítulos tive uma ideia para escrever um texto. Na mesma hora pensei: "Isso não pode estar certo, eu acabei de pecar! De que forma eu poderia ser usada por Deus para falar alguma coisa boa para alguém?"

Tive minha resposta em seguida, por meio de um pensamento que surgiu no momento: O meu pecado não pode atrapalhar minha missão. As vidas que precisam da salvação ou, mesmo cristãs que precisem de uma transformação, um alento, ou alguma coisa do tipo, não irão simplesmente ficar esperando cada vez que eu pecar.

O pecado atrasa minha caminhada cristã. Ele atrapalha minha comunhão com Deus e me impede de amadurecer mais na fé. Isso faz com que eu esteja a anos-luz de distância de onde Deus quer que eu esteja como pessoa, como cristã, e até mesmo no amadurecimento da minha missão. Mas, mesmo sendo tão pecadora como sou, enquanto cristã eu ainda tenho uma missão. Apenas se eu não aceitar o perdão de Deus e ficar remoendo a minha própria culpa é que essa missão vai ficar estacionada. No que depender dEle, vidas vão continuar sendo salva e transformadas através de mim, se eu estiver disposta a fazer o que Ele me disser para fazer.

O fato é que não estamos acostumados a esse tipo de perdão. Na melhor das hipóteses esperamos o perdão de uma pessoa algumas horas depois de a termos ofendido. Mas o perdão de Deus é muito semelhante ao das crianças.

Não sei se você já teve a oportunidade de presenciar uma briga infantil, mas na maioria das vezes o que acontece é o seguinte: as crianças estão brincando até que, por algum motivo, acontece uma briga. Elas ficam com raiva. Alguns minutos depois, talvez até menos de um minuto depois, uma delas resolve pedir desculpas. E, automaticamente elas voltam a brincar como se nada tivesse acontecido. Em algumas vezes elas se perdoam instantaneamente, sem nem mesmo uma delas terem pedido desculpas.

Deus age de forma semelhante a essa. Em sua plena santidade e amor que tem por nós, ele fica chateado quando pecamos. E ele anseia por nos perdoar. Quando tomamos coragem e pedimos perdão, ele esquece o que aconteceu, atira "nossos pecados nas profundezas do mar" (Mq 7:19b). E se nós aceitarmos que ele nos perdoou, Ele está disposto a continuar nos usando para a sua obra.

Em suma, aprendi uma lição importante naquele dia:

Eu tenho que buscar a santidade acima de qualquer outra coisa na minha vida, e é o que tento fazer dia após dia. Entretanto, minha natureza pecadora se manifesta algumas vezes e eu peco contra Deus, e contra mim mesma. Eu tenho que me arrepender do que fiz porque foi algo que me fez merecedora do inferno mais do que nunca, porque eu desagradei a Deus e fugi dos planos e propósitos dele para minha vida. Mas, mesmo não sendo digna do perdão de Deus, da salvação e menos ainda de servir a Ele, tenho que estar disposta a fazer a sua obra, a cumprir minha missão na Terra.

Tenho que oferecer-me a Deus como quem voltou da morte para a vida, e devo oferecer meus membros a Ele, como instrumentos de justiça. A minha missão pode ser realizada, apesar do meu pecado, quando eu me arrepender dele, porque "dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém" (Rm 11:36)

quarta-feira, agosto 12, 2009

A lição de Ananias e Safira


"Pedro lhe disse: ' Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor?' Veja! Estão à porta os pés dos que sepultaram seu marido, e eles a levarão também" - At 5:9

Muitos que já são cristãos há um certo tempo já ouviram várias pregações sobre Ananias e Safira. Resumindo a história, eles venderam uma propriedade que tinham e disseram doar todo o valor para a comunidade cristã daquela época, quando, na verdade, retiveram uma parte do valor para eles. Os dois morreram devido a esse pecado - o de mentir, e não o de ficar com parte do dinheiro, o que, de certa forma, era direito deles.

A maioria, se não todas as mensagens que ouvi sobre esse tema era para exortar as pessoas sobre a importância de ser honesto nos dízimos e ofertas. Não vou me ater a contrapor isso, até porque algumas dessas pregações tinham um mínimo de fundamento..

A questão é que o ponto principal dessa história, o motivo pelo qual o casal morreu, foi a hipocrisia deles.

É claro que se todos os hipócritas fossem condenados à morte, não sei quantos seriam os cemitérios reservados a essas pessoas, mas houve um motivo para que Ananias e Safira morressem. Deus, como Deus da verdade, não poderia - e ainda não pode - de forma alguma conviver com a hipocrisia.

Quantos hoje aproveitam-se das igrejas a fim de promover interesses e vantagens pessoais? E aqui não falo apenas de líderes, mas de cada um dos que compõem o corpo de Cristo.

Acredito que essa história está registrada na Bíblia com um propósito bem claro: Deus odeia qualquer tipo de hipocrisia e falsidade, por isso temos que buscar a sinceridade e a honestidade se quisermos agradá-lo e sermos mais parecidos com Ele.

segunda-feira, agosto 10, 2009

O diário de Lot - O medroso


"Descobri também que debaixo do sol: No lugar da justiça havia impiedade, no lugar da retidão, ainda mais impiedade"


Apesar da aparente coragem que se apoderou de mim depois da perseguição, eu me sentia com mais medo do que nunca antes na vida. Comecei a refletir em tudo o que já tinha feito e concluí que não tinha sido muito afinal, considerando o que o Autor da mensagem tinha feito por mim. Mas eu sentia medo, e esse medo chegou a um ponto que eu nunca imaginaria que iria chegar - me paralisou.

Eu não conversava com ninguém nada além da obrigação das convenções sociais e me sentia constantemente observado. Na comunidade estava agindo tão estranho que algumas pessoas notavam. E até na faculdade, onde normalmente nada atrapalhava meu desempenho, eu fiquei abatido.

Apesar da minha dramática narrativa parecer muito longa, na verdade isso durou apenas uma semana. Só que isso só foi possível graças a uma pessoa: meu sobrinho de 7 anos de idade, o Heitor.

Certo dia fomos visitar meu irmão e Heitor, enquanto minha cunhada viajava. Eu não queria sair de casa, mas minha mãe insistiu muito e eu acabei cedendo. Aliás, engraçado como as mães sempre sabem das coisas. Depois de várias recusas minhas ela disse: "você não quer ir porque sabe que algo lá pode acontecer e mudar esse seu ânimo. Você está gostando de ficar assim desanimado". Meio que por raiva e tentando preservar meu orgulho próprio aceitei ir para provar que não era nada daquilo que ela estava falando. Mas é claro que era.

Depois de alguns minutos chegamos ao nosso destino. Meu irmão nos recebeu muito bem, mas eu fui entrando sem nem prestar muita atenção à alegria dele por me ver bem e saudável (era a primeira vez que ele me via desde que eu saíra da prisão). Então cheguei a sala e Heitor estava brincando com seus bonecos de guerra.

H: Ei tio Lot!
L: Ei Heitor, tudo bem?
H: Tudo. Você está triste né? Eu sei que aquelas pessoas más deixaram você triste.

Eu tentei esconder minha fraqueza que ficou tão aparente até para uma criança de 7 anos (mal sabendo eu que, mesmo que os adultos não percebessem, ele perceberia isso).

L: Não Heitor, está tudo bem, o tio só está um pouco cansado, só isso.
H: É, cansado igual o general Tot (apontando para um de seus bonequinhos). Eles estão numa guerra e ele está cansado de lutar. Mas ele é o general né? Não pode ficar cansado muito tempo senão vamos perder a guerra.
L: Aonde você aprendeu tudo isso sobre guerra hein Heitor?
H: Eu vi na tv.
L: Ah claro, sempre a tv.
H: O que?
L: Nada não, deixa para lá. O tio vai falar com seu pai agora tá? (na verdade eu iria mesmo era fugir para algum lugar da casa onde eu pudesse me esconder, não queria falar com ninguém).
H: Brinca um pouco comigo tio?
L: O tio está cansado Heitor.
H: Por favor...
L: É sério, o tio precisa descansar.
H: E como conversar com o papai vai fazer você descansar mais que brincar comigo?

Como não achei nenhuma resposta para essa pergunta, resolvi brincar.

H: Eba!! Obrigado tio Lot!
L: Mas só um pouco tá?
H: Está bem, pra mim já está bom.
L: Então, estamos numa guerra?
H: É, e você é maior, então vai ser o general Tot, ele está triste porque mesmo fazendo tudo certo, as pessoas continuam querendo matar as outras pessoas. Eles não querem acabar a guerra, mas ele quer.
L: Certo.
H: Ele quer que a guerra acabe, para poder descansar e fazer as coisas que ele gosta.
L: Ok.
H: Então vamos começar. General! General! Perdemos alguns soldados!!
L: Onde foi isso?
H: Fomos tentar a trégua que o senhor pediu para os inimigos, mas eles nos atacaram! Foram 5 soldados mortos e só eu e mais dois conseguimos voltar. Só que os outros dois estão muito mal.
L: E agora tenente, o que me sugere fazer?
H: Senhor, eu não queria ter que dizer isso, mas acho que só o senhor pode resolver a situação.
L: Eu, mas seria muito arriscado eu ir não acha?
H: Senhor, se for preciso, todo nosso exército te acompanha, mas as forças inimigas não vão ouvir simples soldados, eles precisam ouvir o senhor, precisam negociar com o senhor, só assim temos alguma chance dessa guerra acabar.
L: Você está certo tenente, nesse caso, eu vou. Prepare alguns soldados para irem comigo, mas não quero muitos soldados, não vou conseguir ver mais soldados meus abatidos no campo de batalha.
H: Sim senhor. Tio Lot, viu?
L: Vi o que Heitor?
H: Você está cansado igual ao general, mas só você pode continuar a fazer o que precisa fazer. Se acontecer alguma coisa com o general, alguém vai substitui-lo, mas enquanto ele for o general ele vai ter que tomar as decisões.
L: É, você tem razão Heitor, mas o general deve se cansar de ser general às vezes não?
H: Cansa, mas ele lembra que o presidente do país o enviou, e que o país inteiro confia nele. Estou com fome, papai fez lanche. Vamos comer? Você queria falar com papai mesmo né?
L: É, eu queria sim.

Talvez Heitor não tivesse falado nada que significasse algo além da brincadeira para ele. Talvez os mundo adulto fosse complexo demais para ele, o fato é que por meio de uma simples brincadeira vi que a guerra ia continuar. E quando uma acabasse, talvez outra começasse. Mas o Autor da mensagem me dava forças para continuar. E tinha gente que confiava em mim, por mais que nem eu mesmo confiasse. Eu não precisava ter medo, porque tinha gente que se preocupava comigo, e porque era possível achar justiça e retidão mesmo que muito raramente. E, afinal de contas, numa guerra não há espaço para medo. Eu precisava continuar lutando.

quinta-feira, agosto 06, 2009

O amor - identidade do verdadeiro cristão


"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" - I Co 13: 4-7

O amor é a identidade do verdadeiro cristão. Isso porque o próprio Deus é amor. Ele nos amou, e nos deu, juntamente com a salvação, o dom de amar. Muito além do amor romântico, de um sentimento, o verdadeiro amor ultrapassa essas barreiras e é parte da personalidade do cristão.

Como está escrito no Manual Bíblico de Halley, "o amor é a arma mais eficaz da igreja. O amor é a essência da natureza de Deus. O amor é a perfeição do caráter humano. O amor é a força mais poderosa e determinante do universo inteiro. Sem o amor, nenhum dos vários dons do Espírito teria proveito".

Talvez você tenha achado estranho o trecho que escolhi para começar o texto. Afinal, não é esse o famoso texto lido em casamentos, em declarações românticas, em pregações para casais e sobre vida sentimental em geral? Mas o fato é que se realmente somos cristãos e buscamos nos tornar mais parecidos com Cristo, devemos olhar para esse trecho com um novo olhar.

A Igreja de Corinto, para quem essa carta que o apóstolo Paulo escreveu foi destinada, passava por um problema sério, que era a falta de amor. Esse belo trecho que conhecemos era na verdade um alerta, para a igreja aprender mais sobre o amor.

Li um livro recentemente que sugeria que colocássemos o nosso nome onde se encontra a palavra amor, nos versículos que citei de I Coríntios 13. Aparentemente uma coisa fácil, isso demonstrou ser uma tarefa bem difícil.

"O amor é paciente" O quanto eu tenho sido paciente? Será que consigo esperar pelas respostas de Deus? Será que consigo ser paciente com as outras pessoas?

"O amor é bondoso" Será que sou uma pessoa bondosa? Não apenas trato as pessoas bem por obrigação, mas porque realmente quero fazer isso? O quanto eu sou generosa?

"Não inveja" Quantas vezes já invejei na vida? Quantas vezes já quis ter o que os outros tinham no lugar deles? Será que já trapaceei para alcançar o que queria?

"Não se vangloria" Será que conto vantagem sobre as coisas que faço? Me esqueço de que Deus me deu certas habilidades e me vanglorio como se fosse eu simplesmente que conquistei as coisas por causa dessas habilidades?

"Não se orgulha" Posso eu reconhecer que não sou nada por eu mesma? Que apenas Deus pode me manter não apenas feliz, mas viva nessa terra?

"Não maltrata" Quantas vezes maltratei as pessoas? Será que me esqueci do amor e parti para a agressão - seja ela física ou moral - por qualquer motivo?

"Não procura seus interesses" Posso eu abrir mão de meus próprios interesses em favor de outras pessoas? Mesmo que eu não as conheça?

"Não se ira facilmente" Interessante que aqui não está escrito "não se ira", mas sim "não se ira facilmente". Todos temos momentos de ira, o que, em si, não é pecado. Mas como está meu nível de tolerância? Será que estou me irando por qualquer motivo?

"Não guarda rancor" Qual é a minha facilidade para perdoar? Será que fico meses remoendo uma ofensa ou posso lembrar delas sem sentir qualquer tipo de raiva da pessoa que me ofendeu?

"O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade" A questão aqui não está em simplesmente ficar com raiva das injustiças do mundo, mas também em se alegrar com a verdade. Eu tenho essa capacidade? Posso me alegrar com a verdade ainda que ela possa ser desconfortável para mim?

"Tudo sofre" O quanto estou disposta a sofrer por Cristo? O quanto estou disposta a sofrer por outras pessoas, pelo evangelho?

"Tudo crê" Posso confiar em Deus? Nas pessoas? Posso acreditar que as coisas vão acontecer da maneira certa ainda que eu não veja no momento?

"Tudo espera" Será que perdi minhas esperanças? Posso esperar por aquilo que desejo independentemente do que aconteça?

"Tudo suporta" Qual meu nível de tolerância a dor? Será que o mundo já me machucou tanto que não consigo suportar mais nada? Ou será que posso encontrar o verdadeiro amor e suportar o que for preciso?

Pode parecer rígido até demais ter boas respostas para todas as perguntas acima, mas foi o próprio Jesus quem disse "Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês", conforme está escrito em Mateus 5:48.

Eu não sou perfeita, estou muito longe até do meu próprio ideal de perfeição, o que dizer então do ideal de Deus, mas não vou desistir de buscar a perfeição, não vou desistir de buscar cumprir a vontade Deus e tampouco vou deixar de buscar amar o mundo como o próprio Pai me amou. Convido você a fazer o mesmo.

Fiquem com Jesus =)

quarta-feira, agosto 05, 2009

Perdi o medo de pensar


"Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei" - Sl 119:18

Não, eu na verdade não tinha medo de pensar, mas não consegui achar um título mais apropriado. Recentemente acabei de ler o livro "A linguagem de Deus - um cientista apresenta evidências de que Ele existe". Esse livro foi escrito pelo doutor Francis S. Collins, diretor durante muito tempo do projeto Genoma Humano. Meu amigo/irmão mais velho comprou esse livro e me emprestou. Ele disse que ia me convencer de que a evolução é verdadeira, e eu, obviamente disse que isso era impossível. Não porque queria ficar com a ideia do criacionismo presa na cabeça, mas porque não achava o evolucionismo lógico, e não havia argumento nenhum que me convencesse do contrário.

Como de costume, meu amigo venceu. Mas não acredito simplesmente ser uma vitória dele, acredito que seja uma vitória pessoal minha. Eu agora acredito no BioLogos. E me sinto livre para pensar. Apesar de há muito tempo já ter como estilo de vida um cristianismo racional, hoje vejo que minha mente ainda estava embotada por muito tradicionalismo cristão. Tradicionalismo humano, pecador.

Com essa posição sei que 90% dos cristãos vão ficar contra mim. Não poucos vão me taxar de herege. Mas não tenho medo. Se antes tinha a certeza plena de que ciência e religião podem andar juntas, hoje posso enxergar com clareza que elas não só andam juntas, mas foram criadas juntas e Deus deseja que eu valorize as duas coisas. Ele me criou um ser pensante, por meio de um complexo e lógico - agora posso dizer - processo evolutivo. Ele fez o mundo natural, com suas regras naturais, e raramente usa algo sobrenatural para me dizer alguma coisa.

Quem me conhece há mais tempo vai ver que nenhuma das afirmações acima, exceto a de que agora acredito no BioLogos, é diferente do que eu já falava. Mas hoje eu as entendo muito melhor, elas parecem mais reais ainda agora. Me sinto não apenas mais sintonizada com a ciência, mas também me sinto mais cristã.

Como o salmista pediu que os olhos dele fossem abertos, os meus próprios olhos foram abertos. Hoje posso ver as maravilhas da lei de Deus, da Bíblia, do cristianismo. Ainda não tenho todas as respostas, estou longe de ter, na verdade, sei que nessa vida nunca vou ter todas as respostas, porque sempre surgirão novas perguntas. O fato é que agora, mais do que nunca, minha mente está livre.

Francis S. Collins pode até não saber, mas ele foi instrumento de Deus para salvar minha mente para que a real verdade sobre Cristo reinasse em minha vida

O blog tende a melhorar daqui para frente, não por meu mérito, nem mesmo pelo livro ou pelo doutor Collins, mas pela graça de Cristo que se manifestou em mais uma diferente forma para mim. Deus continua me surpreendendo.

Muito obrigada Senhor, eu estou longe de chegar à perfeição, mas me tornei uma cristã melhor depois desse livro.

terça-feira, junho 23, 2009

Piores coisas para se dizer no culto


Eu e um grupo de amigos costumamos brincar de Improvável quando nos encontramos.

Um dia desses fizemos o jogo do Cenas Improváveis, onde cada um tem que interpretar a cena que o mestre de cerimônia da vez sugere. A cena daquele dia foi "Piores coisas para se dizer no culto". Nos divertimos muito, é claro, mas eu fiquei pensando depois sobre como aquelas cenas não eram cenas fictícias. A maioria das cenas interpretadas eram episódios que realmente tinham acontecido em cultos.

O culto é um momento onde, como o próprio nome diz, vamos cultuar a Deus, vamos adorá-lo. Nós, e todos os que sobem ao altar, devemos ter isso em mente. Os que estão no altar tem uma responsabilidade ainda maior, porque estão influenciando um grande número de pessoas. É preciso manter a reverência no cultos. E com isso não estou querendo dizer que o culto tem que ser uma cerimônia séria, formal e às vezes até enfadonha. Não, o culto pode ser dinâmico, engraçado, mas o propósito para o qual nos reunimos enquanto igreja para realizar um culto não deve ser esquecido.

Que as "Piores coisas para se dizer no culto" sejam apenas uma brincadeira entre amigos e não a realidade do cotidiano da igreja.

Fiquem com Jesus =)

segunda-feira, junho 22, 2009

O diário de Lot - O perseguido (Parte II)


"Mas alguns deles se endureceram e se recusaram a crer, e começaram a falar mal do Caminho".

Fomos liberados ao amanhecer, para aguardar o processo em liberdade. Devido a grande exposição da imprensa, agilizaram um pouco as coisas e marcaram a primeira sessão do julgamento o mais rápido que puderam.

Quando cheguei em casa minha mãe me abraçou e disse: filho, eu sei o que preciso saber viu? Acredite na verdadeira justiça e em breve você vai poder descansar em paz. Desandei a chorar mais uma vez. Ela me abraçou e acho que ficamos assim por pelo menos uma hora, talvez mais.

Saí para a faculdade, afinal, ainda que não tivesse forças, a vida tinha que continuar. Todos me olhavam. O trocador fez uma piadinha sobre o dinheiro da passagem. Quando me sentei, a senhora que estava ao lado se levantou e mudou de lugar. Cheguei na faculdade e lá estava um batalhão de repórteres. Disse que não tinha nada a declarar e prossegui meu caminho até minha sala. No caminho as pessoas me insultavam até que um chegou a me agredir. Desmaiei. Quando acordei estava na enfermaria, e André estava lá. Ele disse:

A: Escuta Lot. É provável que seja bem difícil daqui pra frente. Na sala alguns daqueles que dizem ser seguidores da mensagem estão zombando de você junto com os outros. Uns dois ou três acreditam na sua inocência. Os demais estudantes da sala tomaram um de três rumos: uns preferem não dizer nada, alguns estão ao seu lado, alguns acham que você é culpado. Só quero dizer uma coisa pra você. Eu sei que você é inocente. Você e o rapaz lá da comunidade.
L: Desculpa, estou meio zonzo. O que aconteceu?
A: Um cara te deu um soco. Não se preocupe. Eu iria chamar algum daqueles policiais ociosos lá fora e mandar prendê-lo, mas senti que você não iria gostar disso. Apenas disse que como acusado você deveria ter o direito de escolta policial. Eles já estão providenciando isso.
L: Porque?
A: Porque você foi agredido, ora!
L: Não André, porque você está me defendendo assim?
A: Eu já disse, eu sei que você é inocente. Além disso, você é meu amigo, acho que amigos devem fazer isso.
L: Muito obrigado.
A: Disponha sempre.

De volta a aula me acostumei com uma rotina de causar um certo tumulto, a ponto de um professor pedir que eu me retirasse da sala, mesmo eu estando calado o tempo inteiro.

Chegou o dia da primeira sessão e Vitor, Ian e eu nos apresentamos. De certa forma tinha me acostumado com a situação, mas ainda estava sem muita coragem para lutar. Nesse dia Ian já conseguiu algo positivo a nosso favor. Provou que as fotos e filmagens tinham sido editadas por Guilherme no computador. Não foi muito difícil fazer isso, porque a qualidade da edição tinha sido horrível. Ele também alegou injustiça por termos passado a noite do dia da acusação encarcerados. O promotor alegou que foi para a nossa segurança, já que havia ameaças de linchamento caso saíssemos de lá aquela noite. As outras acusações permaneciam de pé. Após um mês indo e voltando, fomos considerados culpados pelo desvio do dinheiro. Estávamos condenados a vários anos de prisão. Como havia um risco para nossa segurança, nos colocaram em uma cela separada, onde, segundo eles, só haviam seguidores da tal mensagem que nós dizíamos acreditar.

Ian foi bem firme ao dizer que iria recorrer da decisão. Enquanto eu só sabia de chorar, Vitor conversava com os colegas de cela sobre porque estavam ali. Alguns eram inegavelmente culpados, outros eram indubitavelmente inocentes. A justiça de certa forma não me parecia justa. Nem a verdadeira justiça a que minha mãe se referia. Estava desacreditado de tudo. Até que Rodrigo, o filho de um dos presos, Zilmar, foi o visitar. Ouvi os dois conversando.

R: Papai, quando você volta para casa?
Z: Assim que conseguirem provar a verdade meu filho.
R: Meus colegas dizem que você é ladrão.
Z: Você acha que eu sou?
R: Claro que não. Eu sei que você segue a mensagem, logo não pode ser ladrão. Eu sei que o Autor da mensagem vai te tirar daí em breve.
Z: Eu também sei meu filho.

Zilmar era coordenador de um centro de estudos da Mensagem dentro da cadeia. Vitor logo se associou a eles e me incentivou a participar. Não fosse essa conversa que ouvi de Zilmar e Rodrigo, o desânimo teria me feito ficar onde estava. Quando estava lá, senti a presença do Autor da mensagem como não sentia há muito tempo. Naquele dia vi como meu caráter estava sendo trabalhado. Mesmo sem perceber, estava me tornando orgulhoso por ter meu nome conhecido por meio do projeto. Não tinha deixado de fazer nada, não me achava mais importante que ninguém no mundo, mas uma certa vaidade começava a crescer dentro de mim.

Se me contassem, nunca iria acreditar que alguém no Brasil seria perseguido por seguir a mensagem. Mas eu vivia aquilo. Me juntei a Vitor e comecei a ficar feliz com isso. Toda vez que minha mãe vinha me visitar ela me dava uma incrível lição de amor incondicional. Ela sabia que eu era inocente, mas era óbvio que estava sofrendo. Ela é que estava em casa sendo acusada de ser mãe de um ladrão, de um bandido. Mas quando vinha me visitar estava sempre alegre, por saber que eu tinha recebido a honra de ser perseguido por causa do Autor da mensagem.

André também vinha me visitar às vezes, bem como alguns membros da comunidade. Logo, os horários de visitas tiveram que ser aumentados para visitar a mim e a Vitor. As pessoas vinham de diferentes lugares para nos visitar. Pessoas que nem conhecíamos. Muitas delas vieram por ouvirem algumas cartas que enviávamos para a comunidade e para os nossos amigos. O fato se tornou tão evidente que a imprensa resolveu registrar tudo. Já haviam se passado alguns meses que estávamos presos quando Ian veio com a notícia de que tinha conseguido de vez desbancar as acusações de Guilherme. A audiência foi marcada.

Quando chegamos, uma situação inusitada aconteceu. Ao invés dos insultos que nos acostumamos a ouvir nas últimas vezes, ouvíamos gente nos apoiando de todas as partes do país. O julgamento iria ser transmitido em rede nacional. Guilherme chegou perto de mim e disse:

G: Que olhar de coragem é esse garoto? Você sabe que vai amargar uns bons anos na prisão para aprender a não mexer com quem não deve.
L: A justiça verdadeira vai ser feita hoje nesse tribunal - disse eu, parafraseando minha mãe, que, aliás, estava assentada na primeira fila, com um olhar orgulhoso estampado na face.

Ian apresentou as provas. A conta bancária que estava em meu nome e que seria para onde o dinheiro tinha sido desviado era falsa. Na verdade a conta até existia, mas alguém usou meu nome para criá-la. Os registros telefônicos foram feitos de um número clonado, e o que seriam nossas vozes foram vozes de outras pessoas, modificadas por uma poderosa ferramenta tecnológica.

Guilherme até insistiu, o advogado de acusação tentou provar que éramos acusados, mas as provas eram incontestáveis. Saímos de lá com a sentença: inocentes. Quando o juiz declarou isso parecia que a seleção brasileira tinha ganhado uma final de copa do mundo contra a Argentina.

Quiseram fazer algumas reportagens conosco depois, e até pensamos em não fazer, para evitar parecer que estávamos nos orgulhando de tudo. Acabamos por fazer, para divulgar a mensagem.

Como havia passado várias meses preso, estava chateado porque iria perder aquele semestre na faculdade, apesar de que logo depois que fomos presos era período de férias. Fui ao colegiado do meu curso para ver como poderia resolver minha situação. O coordenador do colegiado disse que o reitor da faculdade queria falar comigo, e ele estava lá nesse dia. Mesmo sem entender nada, fui falar com ele.

L: O senhor queria falar comigo.
R: Sim, primeiramente, queria dizer que sinto orgulho por você ser estudante dessa instituição. Você não só era inocente, como mudou a vida de muita gente dentro da cadeia e fora dela.
L: Desculpa senhor, mas o mérito não é meu.
R: Sim sim, eu sei que vai falar aquela coisa da tal mensagem. Mas não importa, você é um herói. E como tal, conversei com o responsável pelo seu colegiado e marcamos uma reunião com os professores. Você perdeu muitas provas e trabalhos, e só faltam duas semanas para o fim desse semestre. Infelizmente não podemos simplesmente te dar os pontos, mas se você fizer todos os trabalhos e as provas nessas semanas os professores vão desconsiderar suas faltas. É claro que você perdeu conteúdo, e por isso ficaria prejudicado, e vai ter que fazer alguns trabalhos que eram em grupo sozinho. Mas se você aceitar, posso ceder um tratamento especial para você.

Não consegui falar por alguns instantes, mas logo disse:

L: Muito obrigado senhor reitor. Eu quero tentar.
R: Ok, aqui está o calendário. Você não irá assistir as aulas junto com seus colegas, vai ter uma sala só para você fazer essas provas. Todos os dias você vai ter prova. E ainda tem os trabalhos para entregar. Todos os professores se colocaram a disposição para ajudar certo?
L: Certo.

Eu estava extremamente cansado, devido ao tempo de reclusão, mas o Autor da mensagem me permitiu tirar forças de onde não tinha nada para tirar, e consegui fazer tudo. Não fui perfeitamente bem em todas as matérias. Consegui resultados satisfatórios em algumas, mediano em outras e tive que fazer exame especial em uma matéria, mas, no final, consegui passar em todas elas. Um dia me encontrei com André e disse:

L: André, primeiramente, muito obrigado. Nada que eu fizer na vida vai poder te compensar pelo que você fez.
A: Amigos são para essas coisas Lot.
L: Você sabe que o que você fez, se sacrificar por alguém aparentemente culpado, mesmo não tendo nada a ver com o assunto é muito parecido com o que o filho do Autor fez?
A: É, eu sei Lot, eu já sei de tudo isso que você sempre diz. Sério, eu acredito no seu caráter e te provei isso certo? Mas pessoas como o Guilherme e aquela tal de Marta, além dos que se dizem seguidores da Mensagem lá da sala não me deixam acreditar nessa Mensagem.
L: Você sabe que não pode basear em pessoas.
A: Ora, não é no livro que contem a mensagem que diz que pelos frutos se conhece a árvore? Eu vi muitos frutos podres.
L: Mas André...
A: Lot, eu gosto muito de você cara, sério mesmo, mas eu já te disse uma vez, vou te dizer outra. Não insista comigo que você não vai conseguir nada. Mas sempre que precisar de mim como amigo pode contar comigo.
L: É, eu sei, muito obrigado. Pode contar comigo sempre também.
A: Eu sei.

É claro que fiquei chateado sobre a decisão de André em continuar insistindo a não seguir a Mensagem, mesmo que ela tenha ido ao encontro dele, como aconteceu. Mas aprendi muitas lições com essa experiência. O orgulho, por exemplo, é um vermezinho que começa a destruir por dentro, aos poucos, sem que você perceba. Quando se dá conta já foi todo consumido por ele, não há mais volta.

Aprendi mais sobre a misericórdia do Autor da mensagem. Não só o fato de ter me livrado do orgulho antes que me consumisse, mas o fato de aceitar minha fraqueza naquele momento, e depois ainda me permitir não perder o semestre. Isso sem contar as milhares de vidas que foram influenciadas positivamente por algo que não fizemos.

Vitor e eu nos tornamos praticamente irmãos, para alegria de Pedrinho. O projeto recebeu tanto apoio financeiro que pudemos ajudar vários outros projetos com o que recebemos. As cartas que escrevemos na prisão ainda circulam por vários lugares. Nós dois sabemos que não temos poder algum, força alguma, mas sabemos também que o Autor da mensagem é quem sustenta tudo. Sabemos que toda honra e glória que recebemos na verdade são dele. Ele está ao nosso lado o tempo todo, e somos eternamente gratos por isso.




segunda-feira, junho 08, 2009

O diário de Lot - O perseguido (Parte I)


"Naquele tempo houve um grande tumulto por causa do Caminho"

Depois de ter construído o centro de ajuda no bairro de Pedrinho eu acabei ganhando uma certa notoriedade pública. Evitei o máximo que pude, mas não tinha como negar a diferença que o projeto estava fazendo pela comunidade. Evitei aparecer, porque no final das contas eu me tornei um assessor do projeto. Quem realizava mesmo as ações eram os membros da comunidade. Vitor acabou se tornando um grande líder por lá.

Certo dia estava voltando da faculdade quando ouvi por acaso algumas pessoas dizendo: É ele! É ele o arruaceiro orgulhoso que inventou aquilo tudo!

Como estava bem cansado nesse dia, que tinha sido bem corrido na faculdade, nem dei muita atenção. Até que vi na TV a manchete: FUNDADOR DE CENTRO DE AJUDA CRIADO EM BAIRRO CARENTE É SUSPEITO DE FRAUDE E DESVIO DE DOAÇÕES. Não sabia o que dizer, nem o que fazer. Tinha plena certeza de que estavam falando de mim, mas também estava convicto de que eu não tinha feito nada de errado. Foi quando Vitor me ligou:

V: Você viu?
L: No jornal?
V: É, eu não acredito no que vi!
L: A minha ficha ainda não caiu.
V: Desconfio quem teria coragem de fazer uma coisa dessas.
L: De onde surgiu isso? (eu ainda não estava raciocinando direito, por isso nem ouvi a última afirmação de Vitor).
V: Lembra que algumas pessoas da vizinhança, da parte nobre do bairro, começaram a falar que queríamos ganhar dinheiro?
L: Não.
V: Algumas pessoas do centro de ensino da Mensagem, na parte nobre do bairro. Como não lembra?

Perdi o fôlego por alguns instantes. De repente minha ficha realmente caiu. Na época que iniciamos o projeto, algumas pessoas de centros de ensino da Mensagem vieram nos ajudar. O responsável pelo centro daquele bairro ficou bastante desconfiado. Ele veio conversar comigo. Vamos supor que o nome dele fosse Guilherme.

G: Fiquei sabendo que vão criar um centro de ajuda aqui na região pobre do bairro.
L: Vamos sim!
G: Você se mudou para esse bairro, ou mora aqui? Não me lembro de você.
L: Na verdade, eu moro a uma distância considerável daqui.
G: Porque não instalou um centro de ajuda no seu bairro?
L: Bem, o meu bairro não tem condições tão precárias quanto essa região aqui do bairro.
G: Uma vez tentamos fazer algo por essas pessoas. Nós lhes demos cesta básica por um tempo, mas logo eles começaram a vender as cestas para comprar drogas. Esse povo é todo rebelde. Não estão dispostos a ouvir a verdade.
L: Que verdade?
G: Ora, depois que fizeram isso é claro que tiramos a ajuda. Fomos bem claros ao dizer que lugar de bandido não é na rua, é na cadeia. Se eles queriam ser bandidos tinham mais é que estar na cadeia.
L: Não foi um pouco duro?
G: Você ouviu o que eles fizeram?
L: Ouvi. As pessoas erram. O senhor nunca errou?
G: Menino, você não tem ideia de com quem está se metendo. Sai logo desse centro ou então eu tiro você desse centro.
L: O senhor está me ameaçando?
G: Estou te dando um aviso. O que tiver que ser feito vai ser feito.

Esse diálogo ficou bem vívido na minha cabeça por um bom tempo. E eu andava meio apreensivo toda vez que ia visitar o centro. Mas os resultados foram tão positivos, e o Autor da mensagem sempre me instruia a continuar, não importando quão difícil fosse. Eu continuei no projeto, mas como assessor. Sabia que tinha muito mais a fazer em outros lugares também. Vitor era alguém da minha confiança, por isso o deixei como supervisor. Depois de me recuperar do susto, disse algumas palavras para o Vitor:

L: Foi o Guilherme.
V: Exatamente. Também desconfio disso.
L: Vamos à sede desse canal para esclarecermos as coisas.

Mal sabíamos nós que aquilo tudo era uma emboscada. Quando chegamos lá, além de cobertura nacional de todos os canais, um batalhão de policiais nos esperavam. À frente deles estava Guilherme, que com um sorriso irônico estampado na face dirigiu a palavra a mim (de forma discreta, para não aparecer nas câmeras):

G: Eu disse que você não tinha ideia de com quem estava se metendo.

Eu não conseguia dizer nada. Os repórteres faziam mil perguntas, os policiais nos algemaram rapidamente, mas eu estava completamente em estado de choque. Dentro do camburão Vitor disse aos policiais:

V: Acredito que nós temos o direito de saber o que está acontecendo, e temos direito a um advogado.

Sabia que tinha escolhido a pessoa certa para assumir a liderança do projeto. Vitor viu que eu não teria reação por um longo tempo, por isso tomou à frente de tudo. O policial respondeu:

P: Assim que chegarem a delegacia vocês terão um advogado esperando. Ele irá explicar tudo. Logo depois vocês terão que comparecer à coletiva de imprensa que está marcada para logo mais.

Quando chegamos, o advogado, que chamarei de Ian, nos explicou que Guilherme de alguma forma tinha conseguido ligar o projeto a desvios financeiros, apoio ao tráfico, prostituição e aliciamento de menores. Foi quando eu consegui falar:

L: Como?
I: Ele tem provas. Não será um caso muito fácil. Vocês podem assumir parte da culpa e podemos negociar.
V: Somos completamente inocentes. Que provas ele tem?
I: Ele tem documentos, registros telefônicos, fotos e filmagens. Escutem, vocês foram pegos. Mas pelo acordo podemos conseguir reduzir a pena.
V: Com todo o respeito senhor, acho que você não entendeu. Somos inocentes. I-NO-CEN-TES. O projeto tem mostrado diminuição da criminalidade, da prostituição e do trabalho infantil. Isso já foi tema até de reportagem.
I: Normalmente eu não acreditaria em vocês. Eu iria insistir para vocês assumirem a culpa e partirmos para o acordo. Mas conheço um amigo seu, Lot seu nome certo?
L: É, meu nome.
I: Conheço o André, ele é filho de um amigo meu. Ele sempre chega contando de como você é convicto daquilo que acredita. Como você é alguém de caráter. Ele mesmo não acredita em nada, mas sabe que você teve uma mudança de vida e que é de confiança. Quando ele viu a reportagem ligou para mim e pediu para eu advogar em favor de vocês dois.

Se antes eu estava sem palavras, agora então queria sumir do mundo. Era tudo tão confuso. O André, logo o André, totalmente indiferente ao que eu fazia ou falava, ele veio me defender? Afinal, o que estava acontecendo?

Ian nos explicou que Guilherme tinha pego as provas, contatado a principal emissora de televisão do estado, e, junto com eles, chamaram a polícia para supostamente nos pegar em flagra.

I: Bem, vocês tem que ir a entrevista agora. A minha orientação é que vocês digam que as investigações estão sendo inciadas agora. Quem estiver certo no final vai ganhar esse caso. A justiça será cumprida.
L: Vitor?
V: Oi.
L: Você pode dizer isso? Sinto que não vou conseguir dizer nenhuma frase diante das câmeras.
V: Eu digo. Lot, acredite em mim, vai dar tudo certo.

Quando aparecemos para a entrevista diferentes coisas aconteciam ao mesmo tempo. Os repórteres queriam todos perguntar ao mesmo tempo de modo que o próprio Guilherme teve que organizar as coisas. Lá fora, podíamos ouvir pessoas gritando e nos xingando. Alguns falando mal da Mensagem, e de todos os que seguiam o que ela ensinava. Esporadicamente ouvíamos vozes conhecidas, de pessoas da comunidade que estavam lá para nos defender. Cheguei a ouvir a voz da minha mãe e de Maria. Fiquei aterrorizado. Eu realmente não conseguiria falar nada naquele momento. Vitor foi exemplar. Repetiu exatamente a frase que Ian nos orientou a dizer, e depois disse que só após o início do processo estava autorizado a dar mais detalhes. Ele estava certo. O sigilo não permitia que ninguém falasse nada antes que se iniciasse o processo.

Passamos aquela noite atrás das grades, mesmo sem nenhum antecedente criminal em nossas fichas. Ian mais tarde usaria isso em nosso favor. Naquela noite pela primeira vez consegui exprimir alguma emoção. Vitor estava radiante, por pensar que aquilo era uma perseguição por ele estar seguindo a verdade. Eu estava aterrorizado, me sentindo completamente impotente. Foi quando eu comecei a chorar.

L: Eu queria saber o que eu fiz para merecer isso. Porque acontecem coisas como essa a pessoas como nós? Mesmo que se prove que somos inocentes - o que parece que vai ser bem difícil, apesar de nós sermos - sempre teremos a fama de ladrões, corruptos e coisas do tipo.
V: Eu não estou te reconhecendo. Afinal de contas você levou a mensagem para minha casa. Você é que influenciou o André de tal forma que, mesmo que ele ainda não acredite na mensagem, o fez trazer um amigo da família para nos defender. Você influenciou tantas pessoas. Vai desistir agora?
L: Eu não sei o que fazer. Estou desesperado.
V: A verdade vai prevalecer no final. E isso vai servir para te fortalecer ainda mais, pode acreditar.

Caí no sono depois de muitas lágrimas derramadas.

domingo, maio 24, 2009

Pelo Deus da verdade

"Quem pedir bênção para si na terra, que o faça pelo Deus da verdade; quem fizer juramento na terra, que o faça pelo Deus da verdade." - Is 65:16a

Ao ler esse trecho da Bíblia há alguns meses fiquei refletindo sobre como fazemos as coisas sem pensar porque fazemos.

Nós cristãos, devemos ter uma razão certa para nossas ações. Deve ser tudo feito para a glória de Deus. Até mesmo nossas petições. Já escrevi sobre isso há um tempo, mas quero reforçar a ideia.

Quando pedimos alguma coisa, quando fazemos orações a Deus pedindo alguma bênção, algum favor dele, devemos pedir por Ele. Temos que nos lembrar que Ele é o único que pode nos atender. É por Ele que nascemos, e é por Ele que devemos viver. Deus é bondoso, e gosta de ver seus filhos felizes, por isso nos dá tantas coisas. Mas Ele não tem obrigação nenhuma de nos dar nada. É por favor dele que temos tudo.

Interessante também é a segunda parte do versículo - "quem fizer juramento na terra, que o faça pelo Deus da verdade" - que nos mostra que até mesmo para dar nossa palavra, para mantermos nossa integridade nesse sentido, devemos fazer por Deus, que é o Deus da verdade. Sendo Deus completamente verdadeiro, e todo homem pecador por sua natureza, quando mantemos nossa palavra é porque Ele nos concedeu esse dom. Não quero entrar em nenhuma discussão sobre moral (pelo menos não nesse post), mas eu tenho que dizer aqui que quando nós cristãos prometemos alguma coisa, devemos nos lembrar que servimos ao Deus da verdade, e que se nos quisermos assemelhar a Ele devemos manter nossa palavra, cumprir aquilo que prometemos, em qualquer esfera de nossas vidas - seja profissional, ministerial, estudantil ou qualquer outra que vier à sua mente.

Como já li alguma vez, viver só vale a pena se for por - e para - Cristo.

Fiquem com Jesus =D

sábado, maio 23, 2009

Ócio




Às vezes nos acostumamos tanto a deixar as coisas como estão que deixamos de fazer coisas que realmente importam e só percebemos isso muito tempo depois.

Bom, esse é o caso das postagens aqui no blog.

Amanhã, exatamente três meses que terão se passado depois da última publicação, voltarei a publicar.

Não vou pedir perdão a vocês leitores, mas a mim mesma. Eu gosto muito de escrever, mas deixei de lado o blog por estar vivendo esse período de ócio total durante algum tempo.

See you soon,

Dani

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Anotações de "O pequeno príncipe"

"O pequeno príncipe"- de Antoine de Saint-Exupéry

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"É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar."

"É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio."

"Os vaidosos só ouvem os elogios."

"Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo."

"A gente só conhece bem as coisas que cativou."

"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos."

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar."

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Anotações de "Cristianismo Puro e simples"

"Cristianismo puro e simples" - de C.S. Lewis

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"Não convém exigir uma religião simples. Afinal de contas, as coisas no mundo real são complexas"

"Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha com paternal condescendência, dizer que ele não passa de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la [sobre Jesus Cristo]."

"Se você passar por esse período de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas se fizer das emoçoes fortes a sua dieta diária e tentar prolongá-la artificialmente, eles vão se tornar cada vez mais raros até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida [sobre o casamento e a paixão]."

"O orgulho, porém, sempre significa a inimizade - é a inimizade. E não só inimizade entre os homens, mas também entre os homens e Deus."

"A verdadeira prova de que estamos na presença de Deus é que nos esquecemos completamente de nós mesmos ou então nos vemos como objetos pequenos e sujos. O melhor é esquecer-nos de nós mesmos."

"Não perca tempo perguntando-se se você 'ama' o próximo ou não, aja como se amasse."

"Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui."

"A resposta que devemos dar a essas pessoas [irônicos que tentam ridicularizar a esperança cristã do paraíso] é que, se elas não entendem livros que são escritos para adultos, não devem palpitar sobre eles."

"A fé (...) é a arte de se aferrar, apesar da mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou."

"Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude - o mais realista de todos os homens."

"Se o cristianismo não passa de mais um bocado de conselhos, ele não tem importância nenhuma."

"Você está sozinho na companhia dele [Deus] como se fosse o único ser que ele tivesse criado."

"e Deus deu-lhe o livre-arbítrio porque um mundo de meros autômatos não poderia conhecer o amor e, portanto, não poderia tampouco conhecer a felicidade infinita."

"Depois dos primeiros passos na vida cristã, nos damos conta de que tudo o que realmente precisa mudar na alma só pode ser feito por Deus."

"Cristo diz: quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte de seu dinheiro e uma parte do seu trabalho: quero você. Não vim para artomentar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero raspar, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. Entregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocentes - o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu."

"É só quando me volto par Cristo, quando me entrego à personalidade dele, que começo a ter uma verdadeira personalidade minha."

"Quão monótona é a semelhança que iguala todos os tiranos e conquistadores, quão gloriosa é a diferença dos santos!"

"Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a raiva e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas."

domingo, fevereiro 15, 2009

Cadê o tempo??

Como diria o David..."Is this real life??"

Credo, que tempo corrido.

Essa semana foi comemorado o aniversário do meu irmão. Ele está fazendo 12 anos. Acho que estou ficando velha.

A festa foi um campeonato de videogame. Aproximadamente 15 meninos participaram do torneio. 8 deles (incluindo, claro, o Jônata) passaram a última noite aqui. Claro que ninguém dormiu direito aqui em casa.

Quando dormi um pouco, fui acordada pelo seguinte diálogo:

A: - Eu nasci aqui.
B: - Não, você nasceu no hospital.
A: - Não, eu nasci na cama do hospital.

Pois é.

Assim que recuperar as noites perdidas por esse aniversário eu volto a escrever direito.

Fiquem com Jesus =)

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Anotações de "A morte da razão"

"A morte da razão" - de Francis Schaeffer

Para download, clique aqui.




"Não podemos tratar as pessoas como seres humanos, não podemos vê-las no alto nível da verdadeira humanidade, a menos que conheçamos realmente a sua origem - quem elas realmente são [a imagem de Deus]."

"Precisamos reconhecer que no instante em que começamos a alterar a noção bíblica da verdadeira culpa moral, seja por meio da falsificação psicológica, da falsificação genética, da falsificação teológica ou de qualquer outra forma de falsificação, nosso conceito da obra de Jesus não será mais bíblico."

"É possível tomar o sistema que a Bíblia ensina, colocá-lo no mercado das idéias humanas e deixá-lo aí para falar por si mesmo."

"Cada geração da Igreja, em suas circunstâncias particulares, em seu próprio cenário, tem a responsabilidade de comunicar o evangelho de maneira que possa ser entendido, consideradas a linguagem e a forma de pensamento do ambiente ou o período específico em que a comunicação se processa."

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Obrigada Jesus


Hoje me deu vontade de te agradecer Jesus.

Primeiro, obviamente, por algo que eu nunca me canso de agradecer - pela sua morte na cruz, por mim.

Isso foi incrível, magnífico, perfeito. Enfim, não consigo achar adjetivos suficientes para agradecer seu sacrifício. A sua graça é algo totalmente inexplicável. Já cansei de dizer que eu realmente não mereço o que fez e ainda faz por mim. Eu sou tão pecadora e você tão perfeito. Tão humanamente perfeito.

Porque me escolheu? Porque me ama?

Nunca vou saber essa resposta, mas muito obrigada, mesmo.

Não posso esquecer de te agradecer também por me devolver meus sonhos. Ou pelo menos minha vontade de sonhar mais. Por me devolver parte da minha infância que eu nunca queria ter perdido.

De repente consigo não apenas sonhar, mas acreditar que esses sonhos realmente podem se tornar realidade. De maneira mais incrível do que eu jamais poderia sonhar. A sua graça, novamente, me surpreende. Muito obrigada

E me perdoe por ter parado de sonhar por um tempo.

Obrigada por todos aqueles que o Senhor colocou ao meu lado. Minha família, meus amigos, meu namorado. Nunca imaginei ter pessoas tão legais para me acompanhar, mas o Senhor as trouxe para mim. Muito obrigada.

Obrigada pelo ministério Salva-vidas. Enxergo o cristianismo com mais clareza depois dele. E ganhei uma nova família também. Obrigada por poder te servir. Eu não seria digna nem de lavar seus pés, mas você me deu a oportunidade de poder te servir nesse ministério maravilhoso. Não importa onde eu esteja, sempre serei Salva-vidas. Muitíssimo obrigada. O Senhor é totalmente maravilhoso.

Obrigada pela célula, e pelos novos amigos que fiz lá. Novamente mais uma oportunidade para eu te servir. Muito obrigada.

Obrigada por eu ter sido aprovada na faculdade, e por estar continuando, chegando ao final do curso. Eu não seria capaz nem de entrar lá, e o Senhor está me dando forças para terminar. Muito obrigada

Obrigada pelo ar que eu respiro, por mais um dia de vida. Quanto mais íntima eu fico do Senhor, mais eu percebo que sou a pior das pecadoras. Obrigada por me deixar viver dia após dia. E por perdoar meus pecados. Muito obrigada.

Obrigada pelas coisas simples, como dar uma volta e ouvir o som dos pássaros, ver flores bonitas, ouvir a risada do meu irmão, sentir o cheiro da roça eventualmente. Elas tornam meu mundo e minha vida mais feliz. Muito obrigada.

Enfim, muito obrigada por cuidar de cada detalhe da minha vida, e tornar tudo mais que perfeito.

Muito obrigada por ser você Jesus.

Eu te amo

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Anotações de "Ouça o espírito, ouça o mundo"


"Ouça o Espírito Ouça o mundo - como ser um cristão contemporâneo" - De John Stott.

Desde que comecei a ler esse livro, comecei a anotar as frases e trechos que mais me chamavam a atenção. São frases e trechos interessantes, mas por favor, peço que não tentem entender o livro apenas pelas frases. O que esse livro significa para mim ultrapassa em muito o que essas anotações podem significar isoladas.

Isso se tornou um hábito,e em breve posto frases e trechos de outros livros que li. Mas peço que tenham esse mesmo cuidado com todos. Leiam. São bons livros. Eu recomendo.

Onde vocês encontrarem algo citado [assim] é uma inserção minha na frase, apenas para melhor compreensão dela.

Se quiserem comprar cliquem em cima do nome, aqui no texto. Pra quem gosta de ler no computador, é só clicar aqui.

Bem, dito isto, seguem abaixo as frases:


"O púlbito não é lugar de discutir as nossas próprias opiniões, mas sim, de expor a palavra de Deus."

"Com efeito, a principal razão para a Igreja estar perdendo a sua influência no Ocidente é que a sua fé está diminuindo."

"Pelo contrário, somos chamados para preservá-lo [o evangelho dos apóstolos] como mordomos, proclamá-lo como arautos e defendê-lo como advogados."

"O primeiro passo para se resgatar a nossa integridade cristã é o humilde reconhecimento de que a nossa cultura nos cega, ensurdece e dopa."

"Não é de se admirar que quem procura a Realidade geralmente passe por nós [cristãos] sem nem perceber!"

"Todo mundo o encontra [o amor]. Ou as pessoas estão apaixonadas, ou elas estão por se apaixonar, ou tentando se livrar de um amor, ou procurando um meio de evitá-lo." (frase de Woody Allen, citada no livro)

"O amor, o amor muda tudo:
muda mãos e faces, muda terra e céu.
O amor, o amor muda tudo:
como se vive e também como se morre.
O amor faz o verão voar
ou uma noite parecer uma vida inteira.
Sim, o amor, o amor muda tudo;
hoje eu tremo ao escutar seu nome.
Nada no mundo será mais igual

O amor, o amor muda tudo:
os dias são mais longos, palavras sem sentido.
O amor, o amor muda tudo:
a dor é mais profunda do que antes já foi.
É nosso amor que faz girar o mundo
e esse mundo há de durar pra sempre.
O amor, o amor muda tudo,
traz-nos glória enos traz vergonha.
Nada no mundo será mais igual"
(música de Andrew Webber, citada no livro)

"Necessitamos mais fidelidade à Escritura e mais sensibilidade para com as pessoas. Não um sem o outro, mas ambos."

"Já que a palavra é a espada do Espírito, alguma coisa tem que estar errada quando se enfatiza um em detrimento do outro."

"(...) precisamos ficar no mundo e permanecer firmes, assim como uma rocha na correnteza da montanha, como uma rosa que desabrocha em pleno inverno e como um lírio que cresce no meio do estrume."

"Esse é o relacionamento multifacético da Igreja com o mundo: viver nele, não pertencendo a ele, odiada por ele e enviada a ele."

"Se nós nos retirarmos do mundo, a missão se fará obviamente impossível, já que perdemos contato com ele. Da mesma forma, se nos amoldarmos ao mundo, será impossível fazer missão, já que perdemos o nosso limite."

"Somente o fato de preocupar-se com as ovelhas e de se importar profundamente com o bem-estar do povo a quel ele serve é que leva um bom pastor a buscar graça e coragem para enfrentar os desvios na Igreja."

"A marca essencial da liderança cristã é a humildade, não a autoridade; serviço e não senhorio; e também a mansidão e benignidade de Cristo."

"A Igreja recebeu de Deus a responsabilidade de infiltrar-se no mundo, escutando de fato os desafios do mundo, mas também trazendo para o mundo os seus próprios desafios, compartilhando com ele as boas novas em palavra e em ação."

"Nada é mais importante para a redescoberta da missão da Igreja (onde ela se perdeu) ou para o seu desenvolvimento (onde ela está enfraquecida) do que uma visão renovada, clara e abrangente a respeito de Jesus Cristo."

"[A missão] Exige identificação sem perda de identidade."

"Estamos realmente dispostos, se necessário, a morrer com Cristo para a popularidade e a promoção, para o conforto e o sucesso, para o nosso entranhado senso de superioridade pessoal e cultural, para a nossa egoísta ambição de ser ricos, famosos e poderosos?"

"Rejeitamos, pois, tanto o ceticismo que nega os milagres, como a arrogância que os exige, tanto a timidez que se afasta da plenitude do Espírito como o triunfalismo que nega a fraqueza em que se aperfeiçoa o poder de Cristo."


P.S.: Valeu maninho, esse livro me fez enxergar a missão, que todos nós temos, com outros olhos.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

São Paulo é 17º melhor clube do mundo pela IFFHS

Retirado do site do Yahoo


O São Paulo apareceu em 17º lugar na relação dos melhores clubes de todos os tempos elaborada pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS).

A lista, encabeçada pelo Barcelona, considera resultados obtidos entre janeiro de 1991 e dezembro de 2008.

O atual tricampeão brasileiro soma 367 pontos, empatado com o Valencia, da Espanha.

O Barça é o líder, com 757 pontos, seguido pelo Manchester United, atual campeão europeu e mundial.

A terceira posição ficou com a Juventus, seguida por Milan e Real Madrid.

O Chelsea de Luiz Felipe Scolari, vice-campeão europeu, é o décimo.

Entre os outros brasileiros, o Grêmio aparece em 33º, com 233 pontos. Já o Cruzeiro é o 36º, com 221.


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Estou procurando um emprego, em breve voltarei a postar com mais frequência no blog.


Fiquem com Jesus =)

segunda-feira, janeiro 12, 2009

O diário de Lot - os esquecidos (Parte 2)

PARTE 2


"Todo trabalho árduo traz proveito, mas o só falar leva a pobreza"


Conversando com Vitor, percebi que toda aquela família me chamava a atenção. Como já estava ficando tarde, fui embora para casa.

No dia seguinte, o pequeno Pedro veio falar comigo na lanchonete. Naquele dia, esperei ele chegar, para poder ele mesmo escolher o lanche que queria.

P: Posso comprar o que eu quiser?
L: Claro! Pode escolher.
P: Mas tem que ser do mesmo preço do que você compra né?
L: Não, pode escolher o que você quiser.

Os olhos dele brilharam, de uma forma que nunca eu tinha visto brilhar antes.

P: Eu quero um cheeseburguer com um refrigerante. Posso comprar bala?
L: Claro!
P: Posso comprar para os meus irmãos?
L: Fique a vontade.
P: Porque você é tão bonzinho com a gente Lot?
L: Não sei, na verdade, eu conheço um segredo, que faz a gente virar bonzinho.
P: Mas você é bonzinho sem ser chato. Me conta esse segredo?
L: Claro. Vamos fazer assim, amanhã, você e toda a sua família vão almoçar lá na minha casa, eu venho buscar vocês aqui. E daí eu conto o segredo pode ser?
P: Eu vou almoçar na sua casa???
L: Você não quer?
P: Quero, muito! Mas é que ninguém nunca me chamou pra almoçar antes. Ei Lot!
L: Oi Pedrinho.
P: Obrigado.
L: Que isso, não precis...
P: Obrigado por fazer eu virar criança de novo.

Não consegui responder, mas o fato é que naquele momento o Pedro era realmente o Pedrinho, uma criança, que teve um dia legal. Então, tive uma idéia, mas não sabia se seria possível concretizá-la.

Ao chegar em casa, conversei com minha mãe sobre tudo que tinha acontecido, e ela sorriu para mim. Ela disse que iria fazer um almoço muito especial, e foi as compras.

No dia seguinte, quando fui encontrar com Pedrinho e sua família, encontrei seis pessoas vestidas com a melhor roupa possível, mas bastante apreensivos.

L: Podem ficar calmos, minha mãe é legal.

Todos riram e pegamos o ônibus que ia para minha casa. Chegando lá, deixei Pedrinho e os outros irmãos pequenos brincando com meu videogame, enquanto conversava com dona Joana e Vitor.

L: Sabe, ontem o Pedrinho me perguntou porque eu era tão bonzinho para ele, e eu disse que ia contar um segredo para ele, e vou fazê-lo agora na hora do almoço, vou contar pra todos vocês.
V: Então não é segredo.
L: É um segredo por ser muito valioso, mas vocês não precisam esconder de ninguém.

Minha mãe chamou avisando que o almoço estava pronto. Quando todos viram a comida, com um grande pernil que minha mãe tinha feito, ficaram paralisados. Pedro foi o primeiro a dizer alguma coisa.

P: Muito obrigada vocês dois. A gente não tem mesmo como agradecer, mas Alguém vai recompensar vocês.
L: Quem vai nos recompensar Pedrinho?
P: Aquele que te contou esse segredo que você vai contar pra gente.
L: Você sabe qual é o segredo?
P: Claro que sei. Dá pra ver nos seus olhos, que você conhece o Autor da mensagem.
L: Você conhece a mensagem?
P: Claro que conheço! É por causa dela que mamãe aprendeu a ler e escrever e começou a gostar de ler, e fez a gente gostar também. E é pelo Autor que nós temos o que comer todo dia em casa, mesmo que seja bem pouquinho, e é por Ele que eu te conheci, e também por isso que meu irmão tem um trabalho. E eu vou voltar pra escola, e meus irmãos nunca vão sair. Ele é muito bom pra nós.

O silêncio pairou na sala. Lágrimas desceram dos meus olhos e quando reparei, também desciam dos olhos da minha mãe, da mãe de Pedro, e dos irmãos mais velhos. Dona Joana disse.

J: Eu realmente não sabia que era sobre isso que iria falar, mas sabe, no natal eu tinha dinheiro para comprar um frango assado, mas eu perdi esse dinheiro. Fiquei muito triste por saber que meus filhos não teriam presentes. Até que ganhamos alguma coisa, porque todo ano a comunidade que fica perto da favela faz alguma coisa para dar para as crianças, e nos dá cesta básica e roupas, mas é só no natal que eles fazem isso, e ganhamos muitas roupas estragadas esse ano. O resto do ano as pessoas se esquecem de nós. Foi quando conheci a mensagem que resolvi não ligar para essas coisas e, no último natal não foi diferente. Quando fui dar boa noite para os meninos, ouvi Pedro pedindo pro Autor que Ele cuidasse de sua família, e que ele pudesse ser criança por pelo menos um dia. Você fez tudo isso por nós, muito obrigado Lot
L: Eu...não consigo dizer nada. É pela mensagem que eu vivo, e, é por ela que eu fiz tudo. Vocês só tem que agradecer ao Autor.
V: Nós agradecemos, desde o dia que o Pedro te conheceu, pela sua vida.

Nos abraçamos e eu prossegui.

L: Bem, quando conheci a casa de vocês, eu tive uma idéia. Como vocês disseram, a maioria das pessoas onde vocês vivem é diferente de vocês. Vamos fazer uma coisa, montar uma biblioteca lá dentro, e quem sabe até montar um centro de educação profissional.
P: É uma boa idéia Lot, mas onde vamos conseguir dinheiro para isso?
L: Nós vamos conseguir. Acredito que não conseguiremos atingir todos, e nem todos querem ser atingidos mesmo. Mas se não fizermos nada, estaremos desperdiçando tudo isso que vocês tem. Dona Joana pode ser a bibliotecária. E o Vitor, que já trabalha, pode ensinar alguma coisa para quem quiser lá.
V: Mas eu nem sei nada.
P: Você sabe tocar violão.
V: Mas isso não é educação profissional.
L: Ótimo, vamos ter uma escola de música também. E quem sabe se vocês não tem um artista no meio de vocês? Vitor, você procure seus amigos que sabem tocar, e monte a escola. Dona Joana, procure doadores de livros, eu te indico alguns lugares. Pedro, você vai me ajudar a construir um centro de ajuda, onde vão funcionar as classes de educação profissional.

Esse projeto levou vários meses para ficar pronto, mas a comunidade onde Pedrinho morava aprovou. Claro que nem todos participaram, e claro que o tráfico, as crianças doentes e vários problemas continuaram. Mas saíram de lá muitos jovens com qualificação para o mercado de trabalho, alguns músicos, e a biblioteca fez sucesso, principalmente entre as crianças amigas de Pedro.

Com o tempo, algumas famílias foram selecionadas, para ganharem cestas básicas, e cerca de cinco famílias conseguiram se mudar para um lugar melhor, por meio de muito trabalho.A família de Pedro foi uma dessas. Ele voltou para a escola, e sempre era o melhor da classe. Vitor tentou o vestibular duas vezes, e na terceira conseguiu ser aprovado. Dona Joana estava muito contente como bibliotecária do projeto. Os outros filhos dela também se desenvolviam muito bem. As famílias contempladas com as cestas tinham que estar com as crianças na escola e com o tempo, deveriam passar esse benefício para outra família, porque não precisariam mais. A mensagem se espalhou por muitos locais da comunidade.

Eu sabia que não podia atingir o mundo todo, mas de alguma forma tinha conseguido atingir algumas pessoas, por misericórdia do Autor. Eu sabia, que, por mais que a sociedade se esquecesse de famílias como a de Pedro, Ele nunca se esqueceria. Afinal, apesar de tudo que eu tinha sido e era, Ele não tinha se esquecido de mim.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

O diário de Lot - os esquecidos

PARTE I


"Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos"

Logo após o incidente com Mara, eu passei por uma situação bem diferente de qualquer outra que eu já tivesse passado antes.

Um garoto, de uns dez ou onze anos, veio me pedir dinheiro para comprar um lanche, enquanto eu estava no intervalo da faculdade. Se fosse um dia comum, eu agiria de uma de duas formas: ou eu compraria um lanche para o garoto, ou eu diria que não podia ajudá-lo naquele momento, e inventaria uma desculpa qualquer. Mas aquele não era um dia comum. Eu comprei um lanche para o garoto, e o chamei para se assentar comigo. No início ele ficou um pouco receoso, mas acabou sentando. Ele será chamado de Pedro.

L: E então garoto, o pão de queijo está gostoso?
P: Está sim, muito gostoso.
L: Você está aqui tem muito tempo?
P: Eu venho todo dia aqui.
L: Não, não, quis dizer se hoje, você já está aqui desde cedo?
P: Ah, ah, chego sempre cedo, umas oito horas, pra conseguir moedas suficientes para lanchar.
L: Já que paguei o lanche hoje, o que vai fazer com esse dinheiro que conseguiu até agora?
P: Vou comprar pão e levar pra casa, mas não consegui muito não.
L: Mas já é de tarde, não conseguiu muito?
P: Não, quando eu era mais novinho conseguia mais, mas agora as pessoas acham que eu sou ladrão, ou que vou usar o dinheiro pra outras coisas.
L: O que você acha de as pessoas acharem isso de você?
P: Ah, já estou acostumado, até porque, a maioria dos garotos que eu conheço faz isso mesmo, sai pra rua pra pedir dinheiro e, ao invés de usar pra alguma coisa, usam pra comprar drogas, pra comprar bebidas, pra fazer muitas coisas erradas.
L: Você tem irmãos?
P: Vivo tenho quatro.
L: Tinha quantos?
P: Tinha seis, mas um morreu quando era pequeno, de pneumonia, e o mais velho morreu porque estava devendo o traficante do morro.
L: Onde você mora?
P: Nessa favela que tem aqui perto, mais afastada do centro. Olha moço, o lanche estava muito bom, mas a tarde ainda não acabou, preciso ver se consigo mais dinheiro.
L: Ok, qual é o seu nome?
P: Pedro
L: Pedro, volte aqui amanhã nesse mesmo horário, que eu quero continuar conversando com você, eu te pago um lanche e compro alguns pães, pra você não "perder" tempo comigo a toa.
P: Tudo bem, muito obrigado moço.
L: Por nada.

O que tinha me chamado a atenção naquele garoto, que nunca me chamou atenção em nenhum outro eu não sei, mas no dia seguinte nem cheguei a dizer para meus amigos da faculdade aonde ia, apenas corri para o supermercado mais próximo e comprei algumas coisas para Pedro, em seguida fui a lanchonete, pedi meu lanche, e me assentei exatamente no mesmo lugar que tinha assentado no dia anterior. Alguns minutos depois Pedro chegou.

P: Você veio mesmo, achei que era mentira.
L: Claro que vim, eu disse que viria, pode acreditar quando eu disser.
P: É, desculpa, é que as pessoas costumam prometer algumas coisas e nunca cumprem.
L: Você é um garoto bem esperto para sua idade.
P: Já me disseram isso antes.
L: Você estuda?
P: Até ano retrasado estudei, mas devo voltar esse ano, porque minha mãe precisa do bolsa escola.
L: Você gosta de estudar?
P: Gosto bastante, mas é difícil quando a gente é pobre. Minha mãe sempre diz que o que é mais difícil é o que a gente tem que lutar mais pra conseguir, quando a gente sabe que é a coisa certa pra nós.
L: Sua mãe é uma pessoa bem sábia.
P: Não, ela só aprendeu a ler, mas lá perto da favela tem uma biblioteca pública, e ela pega uns livros lá pra ler, ela gosta de ler muito.
L: Você gosta também?
P: Muito. A gente fica competindo quem lê mais livros. O meu irmão de 16 anos trabalha perto de uma banca, e as vezes traz umas revistas que o moço da banca diz que estão estragadas e dá pra ele. O outro, de 13, tem um amigo na escola que empresta uns livros legais pra ele. A minha irmã, que tem 8, gosta de histórias em quadrinhos, e o mais novo, de 5, ainda não sabe ler, mas acho que vai gostar também quando crescer.
L: Você tem uma família bem legal, queria poder conhecê-los algum dia.
P: Uai, se você quiser, eu falo com minha mãe hoje e você vai lá amanhã, quando puder ir.
L: Sério?
P: Sério. Vou falar com ela.
L: Fala mesmo.
P: Vou falar, tenho que ir agora.
L: Tudo bem, mas antes, trouxe os pães que disse que iria trazer, e mais algumas coisas que podem ajudar vocês.

No dia seguinte lanchei de novo com Pedro, e tivemos mais um tempo de agradável conversa. Combinei de encontrar com ele na lanchonete logo que minhas aulas do dia acabassem e assim foi. Andamos cerca de 30 minutos e chegamos a favela onde Pedro morava, era a terceira casa de baixo para cima. Tinha cozinha, banheiro e um cômodo dividido em dois por uma espécie de cortina, formando, assim, dois quartos. Cada um com uma cama de casal. Pedro me explicou que no quarto onde tinha uma televisão antiga era o quarto da mãe dele, mas dormiam naquela cama ela, o irmão de 5, a irmã de 8 e no outro quarto, que era o dos filhos, dormiam o irmão de 13 e o de 16. Ele mesmo dormia cada dia em uma cama, mas na maioria dos dias dormia no quarto dos filhos.

Fui muito bem recebido pela família, e tivemos uma longa conversa até o irmão mais velho de Pedro chegar. Então a mãe de Pedro insistiu em fazer um lanche para mim, e eu aceitei. Com as bolsas família e escola que a família recebia, mais o pequeno salário do filho mais velho, a família recebia menos de três salários mínimos. Depois, quando os mais novos dormiram, incluindo Pedro e o irmão de 13, tive uma conversa mais séria com a mãe de Pedro e o irmão mais velho dele, os quais chamarei de Joana e Vitor.

L: Que situação difícil a que vocês vivem né?
V e J: Bastante.
J: Mas a gente não se deixa abalar por isso não. O pai desses meninos me deixou quando o mais novo nasceu, porque disse que não aguentava mais menino pra criar. Alguns meses depois o meu filho, que tinha 2 anos na época ficou doente, parecia gripe. Como não sarava levei ele pro hospital mais perto, e me disseram que era gripe mesmo, pra eu não preocupar. O mais velho, que na época tinha 17, me deu um dinheiro pra eu pagar uma consulta particular, mas era dinheiro de droga, eu não quis. Ele pegou o menino e levou ele pra consulta, onde descobriram que era uma pneumonia grave, e a médica mandou internar no hospital universitário que tem aqui perto. Ele ficou internado uma semana, mas já tinha avançado muito, e ele não resistiu. Um ano depois esse meu filho mais velho se envolveu numa briga de traficantes, e acabou morrendo. Os traficantes não morreram nenhum, a polícia nem teve coragem de entrar aqui, porque sabia que ia morrer também. Eu não estou contando isso pra você ter dó da gente não, mas desde aquele dia, eu mudei de vida. Eu poderia ter ficado em depressão, mas isso é doença de rico, pobre não pode ter isso não, senão morre de fome. Eu comecei a trabalhar de doméstica e aprendi a ler e escrever. Comecei a pegar uns livros na biblioteca e comecei a gostar muito de ler mesmo. Um dia, lendo um livro famoso, a filha da patroa me viu com o livro e falou que tinha roubado dela. A patroa não quis nem ver se era verdade, me mandou embora e me denunciou pra polícia. Quando cheguei lá o policial viu o selo da biblioteca e me liberou com uma advertência. Por causa dessa advertência nunca mais consegui emprego, e quando as pessoas esqueceram dela, eu já era muito velha pra poderem me contratar. Então o Vitor começou a trabalhar num programa da prefeitura e o Pedro começou a pedir dinheiro na rua. Tirando o pequeno, os outros também fazem isso. No fim do dia dá pra comprar uns pães, manteiga, arroz, feijão, e tem alguns meses que dá pra comprar carne. Mas esses meninos vão estudar todos, e vão ter um futuro melhor, eu tenho certeza. E eu falo demais né meu filho, você deve ter cansado.
L: Na verdade, eu achei fantástica a sua história, você dá para os seus filhos a certeza de um futuro melhor dando estudo pra eles.
V: Com certeza, o Pedro mesmo, um dia vai ser doutor e minha mãe vai ficar muito feliz. Mas essa não é a história da maioria do povo aqui não moço.
L: É, infelizmente não. E pode me chamar de Lot.
V: Nome diferente, mas tudo bem, Lot.

Continua...

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